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Diles que no me Maten: Escrito en Agua

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 4 minutos
  • 3 min de leitura

A frase “diles que no me maten”, retirada do conto homônimo de Juan Rulfo, dá nome à banda mexicana. Se o nome carrega a tentativa de impedir um desaparecimento, Escrito en Agua (2026), quarto álbum do grupo, parte de uma imagem aparentemente oposta: escrever sobre a água é saber que aquilo que foi escrito não permanecerá. Uma frase pede para sobreviver; a outra aceita a dissolução. Entre as duas existe uma tensão que atravessa o álbum inteiro. A música quer deixar marcas, mas também entende que toda forma é provisória.


Essa ideia não aparece apenas no título, mas na própria narrativa do disco. Ao longo das dez faixas, Diles Que No Me Maten constrói uma obra que se recusa a permanecer imóvel. As canções mudam de direção, desmontam suas próprias estruturas e reaparecem sob novas formas, como se cada composição estivesse em constante transformação. Logo, é um álbum que faz da impermanência não apenas um conceito, mas um método de criação.


Depois de uma trajetória marcada pelo encontro entre improvisação, krautrock, jazz e rock de vanguarda, o quinteto do México chega ao seu trabalho mais maduro. Em vez de ampliar o repertório de referências, Escrito en Agua parece interessado em algo mais difícil: descobrir o que acontece quando essas influências deixam de ser reconhecíveis e passam a existir como uma linguagem própria. O experimentalismo aqui nunca soa como demonstração de virtuosismo; ele nasce da curiosidade, do risco e da disposição de deixar a música respirar.


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Diles que no me Maten Escrito en Agua
(Créditos: Divulgação/Reprodução)

Instrumental e quase cerimonial, "Las noches que dormimos en sillas" abre o disco e avança lentamente entre metais graves e uma atmosfera que remete tanto ao jazz quanto à música funerária da Sierra Mixe, em Oaxaca. Em vez de anunciar o fim, a música parece observar aquilo que desaparece com serenidade, como se cada nota aceitasse que tudo está em processo de transformação. Quando "Hiriku" começa a tocar, o disco muda completamente de temperatura. 


Essa capacidade de mudar sem perder a identidade é o grande mérito de Escrito en Agua. Faixas como “La rata modesta” desaceleram completamente o percurso, colocando saxofone e clarinete no centro da composição. O silêncio, a respiração dos instrumentos e as pequenas dissonâncias passam a ter o mesmo peso que a melodia. Em “Kilómetros Dentro de un Túnel”, a guitarra desenha uma paisagem delicada, quase suspensa, provando que a banda também sabe construir tensão quando escolhe a contenção.


O disco nunca oferece estabilidade por muito tempo. Quando o ouvinte acredita ter encontrado um caminho, a banda desloca a escuta para outro lugar. Há momentos que flertam com o jazz livre, outros mergulham na psicodelia, enquanto algumas passagens se aproximam do folk ou do post-rock. Ainda assim, nada soa fragmentado, pelo contrário: existe uma unidade construída justamente pela sensação de movimento contínuo.


Produzido por Sebastián Rojas em um estúdio improvisado no bairro de Santa María la Ribera, no México, Escrito en Agua foi desenvolvido a partir de experimentações, reconstruções e rearranjos constantes. Essa liberdade aparece na sonoridade: tudo parece cuidadosamente elaborado, mas nunca excessivamente polido. As músicas preservam pequenas imperfeições que as tornam vivas.


Dessa maneira, Diles Que No Me Maten cria uma obra que dialoga perfeitamente com o próprio nome da banda. Se antes havia uma súplica para continuar existindo, agora existe a aceitação de que algumas coisas só fazem sentido porque são passageiras. Escrito en Agua não tenta impedir que a água apague as palavras. Ele escolhe escrever nela mesmo assim - talvez seja justamente essa coragem que faz suas canções permanecerem por tanto tempo na memória.



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