Conheça: Mau k
- Michele Costa

- há 1 dia
- 2 min de leitura
Todo cortejo pressupõe um deslocamento. Há quem caminhe em celebração, quem siga em despedida e quem apenas atravesse o tempo em silêncio. Em comum, permanece a ideia de percurso - um movimento que transforma quem parte e quem acompanha. É com essa sensação que surgiu Cortejos (Frase Records, 2026), primeiro EP de Mau k. Em quatro composições instrumentais, o músico, designer, fotógrafo e realizador audiovisual gaúcho, radicado em São Paulo, reúne décadas de experimentação artística em uma obra que encontra na música ambiente, no pós-rock e na exploração de texturas sonoras um convite à contemplação.
Embora Cortejos seja seu primeiro lançamento fonográfico oficial, o trabalho está longe de representar um ponto de partida. Ao longo dos anos, Mau k construiu uma trajetória marcada pelo trânsito entre diferentes linguagens criativas, fazendo da música, do design, da fotografia e do audiovisual territórios complementares de investigação estética. O EP surge justamente como a convergência dessas experiências, transformando um percurso multidisciplinar em quatro composições que revelam um artista interessado menos em canções convencionais do que na construção de atmosferas.

Essa busca se manifesta em uma sonoridade que valoriza o tempo como elemento narrativo. Em vez de recorrer à urgência ou ao excesso, Mau k conduz a escuta por meio de camadas, reverberações e pequenos movimentos que se acumulam lentamente. As faixas parecem suspender o ritmo cotidiano para abrir espaço a uma experiência contemplativa, em que meditação, desolação e esperança deixam de ser sentimentos opostos e passam a coexistir dentro da mesma paisagem sonora.
Leia também:
A escolha do título reforça essa proposta. Um cortejo pode significar celebração, despedida, procissão ou rito de passagem; diferentes formas de caminhar que compartilham a ideia de transformação. Essa ambiguidade atravessa todo o trabalho, que nasceu inicialmente sob uma atmosfera mais melancólica, mas foi incorporando novas perspectivas ao longo de seu processo criativo. O resultado é uma obra que reconhece a tristeza sem permanecer nela, encontrando na contemplação um caminho para a esperança.
Essa dimensão introspectiva também dialoga com a história do próprio artista. Filho de uma monja zen, Mau k cresceu em contato com o zen-budismo e encontrou na música uma forma particular de experimentar o estado contemplativo. Alias, essa influência aparece de maneira sutil em "Hyoshigi" que recupera a sonoridade do tradicional instrumento japonês utilizado em cerimônias e rituais. Sem transformar a referência em conceito rígido, a faixa incorpora elementos da memória afetiva do músico e amplia a sensação de que Cortejos é, acima de tudo, um convite para desacelerar e habitar o silêncio entre os sons.
Ainda que dialogue com artistas como Jeff Parker, Gregory Uhlmann, Sam Gendel, Sam Wilkes e Blake Mills, além de carregar ecos do pós-rock de Godspeed You! Black Emperor e Set Fire to Flames, Mau k evita que suas influências determinem os rumos do trabalho. Em Cortejos, elas funcionam apenas como pontos de partida para uma identidade própria, construída na intersecção entre experimentação, sensibilidade e escuta.
Gostou da leitura? Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.




Comentários