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Ludovic: Ludovic

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 4 horas
  • 3 min de leitura

A chama do Ludovic nunca se apagou. Embora Idioma Morto (2006) tenha sido lançado há duas décadas, os fãs continuaram presentes nos shows esporádicos realizados pela banda pelo país, cantando suas canções a plenos pulmões e mantendo viva uma relação que atravessou o tempo. Alias, a permanência do grupo não se explica apenas pela música: ao longo de sua trajetória, o quarteto construiu um espaço de acolhimento para inquietações, conflitos e afetos difíceis de nomear - sentimentos que encontraram, entre guitarras, ruídos e versos, uma forma de existir. 


Agora, a chama estampada na capa de Ludovic (Balaclava Records, 2026) transforma essa permanência em símbolo. O fogo continua aceso, mas já não é o mesmo. Alimentado pelo tempo, pelas experiências acumuladas e pelas transformações vividas por Jair Naves, Eduardo Praça, Ezekiel Zeek Underwood e Rodrigo Montorso, ele retorna com outras formas e novas intensidades, iluminando tanto caminhos conhecidos quanto territórios ainda inexplorados.


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(Créditos: Júlia Aluar)

No novo álbum, o grupo não busca recuperar exatamente o som ou o momento histórico que ajudou a consolidar sua importância no rock independente brasileiro dos anos 2000.  Intitulado simplesmente Ludovic, o disco funciona menos como uma volta ao passado e mais como um reencontro com a própria identidade. Ao assumir o nome da banda como título, o quarteto parece perguntar o que permanece depois de tantos anos - e encontra a resposta não na repetição, mas na transformação. 


As 11 faixas preservam a tensão emocional e a força das guitarras que marcaram a trajetória do grupo, ao mesmo tempo que ampliam suas possibilidades. O rock alternativo continua sendo o ponto de partida, atravessado por ecos de pós-punk, shoegaze e indie rock, enquanto os arranjos exploram novas texturas, camadas e contrastes. Entre ruído e melodia, contenção e explosão, o álbum constrói uma atmosfera inquieta, por vezes melancólica, mas sempre em movimento.


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“A Ebulição do Não Dito” abre o disco como quem acende a chama estampada na capa. A canção introduz uma atmosfera de tensão e expectativa, como se algo estivesse prestes a transbordar. Uma vez aceso, o fogo não se apaga: ele se espalha pelas faixas seguintes e encontra, em “Desde Que Eu Morri”, outra imagem de transformação. A morte deixa de representar um fim definitivo e passa a sugerir deslocamento, ruptura ou renascimento. A voz de Jair oscila entre a explosão e a narração, conduzindo a canção com uma dramaticidade que nunca se torna excessiva. Sua interpretação cria uma narrativa intensa, capaz de aproximar a experiência íntima de uma dimensão quase cinematográfica.


Em “Pedestal”, o Ludovic investiga relações atravessadas por projeções, expectativas e idealizações. A faixa constrói uma tensão contínua, como se a proximidade estivesse sempre ameaçada pela distância criada pela imagem que se faz do outro. Já “Marja”, quarta canção do álbum, surge como um de seus momentos mais intensos. A música concentra parte da potência do grupo, unindo uma sonoridade expansiva a uma letra que parece crescer junto aos instrumentos.


Diferentemente de Servil (2004) e Idioma Morto, marcados principalmente pelas composições do vocalista, Ludovic nasce de uma construção mais coletiva. A participação dos integrantes, ampliando o campo de possibilidades do álbum, além de abrir espaço para diferentes ideias, sensibilidades e caminhos sonoros. Os instrumentos deixam de ocupar apenas uma função de acompanhamento: criam atmosferas, tensionam as palavras, sugerem imagens e expandem os sentidos das letras.


Essa construção compartilhada se reflete na maneira como as canções respiram. Em vez de se organizarem apenas em torno da voz, elas se desenvolvem a partir do diálogo entre os integrantes. As guitarras não servem somente como suporte para a melodia; elas criam sombras, atravessam os versos e, em alguns momentos, parecem dizer aquilo que as palavras não conseguem alcançar. A bateria conduz os movimentos do disco sem limitar suas mudanças de intensidade, enquanto os demais elementos ajudam a transformar cada faixa em um espaço de encontro.


Depois de duas décadas, o Ludovic retorna transformado, mas ainda reconhecível em sua inquietação, em sua intensidade e na capacidade de converter conflitos íntimos em música. O novo álbum não tenta reproduzir uma juventude que ficou no passado nem recuperar uma sonoridade como se o tempo não tivesse passado. Pelo contrário: incorpora as marcas desse intervalo e encontra nelas novas possibilidades de criação.


Por isso, a chama da capa ganha outro significado. Ela não representa apenas a resistência de uma banda que continuou existindo apesar dos anos. O fogo também é movimento: cresce, diminui, se espalha, consome e se renova. Em Ludovic, o quarteto encontra nessa transformação o fôlego necessário para seguir adiante.



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