Nobuhiro Yamashita: Linda Linda Linda
- Michele Costa

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Uma música une quatro garotas adolescentes. "Linda Linad", da banda japonesa The Blue Hearts, é o ponto de partida para que o diretor Nobuhiro Yamashita criasse um filme sobre a adolescência não como uma fase de transição, mas como um estado de descoberta coletiva. Em Linda Linda Linda (2005), a urgência não está em crescer ou encontrar respostas para dúvidas existenciais, mas na vontade de criar, de compartilhar experiências e de viver intensamente o presente.
A história acompanha as amigas Kei (Yû Kashii), Kyoko (Aki Maeda) e Nozomi (Shiori Sekine) que, poucos dias antes do festival cultural da escola, veem sua banda se desfazer após a saída da vocalista e a guitarrista. Em busca de uma nova cantora, elas convidam Son (Bae Doona), uma estudante sul-coreana de intercâmbio que mal consegue se comunicar em japonês. A partir dessa premissa simples, Yamashita constrói um filme que recusa grandes conflitos para encontrar beleza na rotina dos ensaios, nas conversas despretensiosas e na construção gradual de uma amizade.
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Os dramas adolescentes estão presentes, porém, o longa entende que a adolescência ganha sentido quando vivida em grupo. Não por acaso, o objetivo nunca é apenas tocar bem durante a apresentação final. O verdadeiro acontecimento está na convivência: aprender a escutar, confiar e criar junto. É essa experiência compartilhada que transforma quatro jovens bastante diferentes em uma banda.
Essa percepção faz de Linda Linda Linda um raro filme sobre juventude. Enquanto boa parte das narrativas do gênero insiste em romances, traumas ou dilemas existenciais grandiosos, Yamashita encontra beleza na aparente banalidade. Ensaiar repetidas vezes a mesma música, caminhar pelos corredores da escola ou dividir um almoço passam a carregar um significado maior justamente porque revelam a intensidade escondida nos pequenos acontecimentos.

Mais do que falar sobre juventude, o diretor parece refletir sobre uma maneira de existir que muitos adultos acabam abandonando: a curiosidade, a disposição para experimentar sem medo do fracasso e a capacidade de transformar o cotidiano em criação permanecem vivas nas protagonistas, tornando a música muito mais importante do que uma simples apresentação escolar.
Ao revisitar sua história em Pão dos Anjos (Companhia das Letras, 2026), Patti Smith compartilha que sua vida e criação artística nasce da preservação desse olhar infantil sobre o mundo. Mesmo atravessando perdas, dificuldades financeiras e mudanças profundas ao longo da vida, Smith entende que continuar fazendo arte depende de manter viva essa criança curiosa, sensível e aberta ao encantamento.
É justamente esse sentimento que pulsa em Linda Linda Linda. As quatro garotas não perseguem reconhecimento nem sucesso. Tocam porque a música lhes permite construir um espaço de pertencimento, experimentar a amizade e descobrir quem são enquanto dividem o palco, os ensaios e os silêncios. A adolescência deixa de ser uma etapa passageira para se transformar em uma disposição permanente para serem quem desejam.




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