Interpol: This Mirror Weighs a Ton
- Michele Costa

- há 15 horas
- 3 min de leitura
A última vez em que o Interpol esteve no Brasil, em março deste ano, o grupo apresentou a inédita "See Out Loud", dando um breve spoiler de como seria o novo álbum. A canção, que reúne as vozes de Paul Banks e Daniel Kessler, preenche o espaço com o pós-punk característico da banda e anuncia uma das principais forças de This Mirror Weighs a Ton (Partisan Records, 2026): a capacidade de revisitar a própria identidade sem permanecer presa a ela. Gravado em Nova York, o disco é um renascimento.
Como a capa de This Mirror Weighs a Ton sugere, o disco reflete sobre um mundo cada vez mais atravessado pelas tecnologias a partir de novos timbres e canções cuidadosamente construídas. A faixa-título abre o álbum de maneira celestial e cinematográfica. Nela, Paul parece travar uma conversa consigo mesmo, enquanto o piano cria uma atmosfera misteriosa e contemplativa. "Iron City" altera a paisagem sonora e aproxima o vocalista de uma de suas imagens recorrentes: a conexão indissociável com o Central Park.
"Wounded Soldier" devolve as guitarras aos holofotes. A partir de um riff simples e preciso, Banks apresenta imagens ambíguas da guerra enquanto parece buscar uma espécie de reconciliação consigo mesmo. O baterista Sam Fogarino ganha destaque em "Wings on Fire", faixa em que Brad Truax - oficializado como integrante da banda - também encontra espaço para criar ótimas linhas de baixo. As câmeras que aparecem na capa retornam à canção como símbolo de vigilância, reforçando a sensação de que, neste disco, a banda também está sendo observada pelo outro. Já em "Over the Actor", o Interpol constrói um interessante jogo entre expectativas e desilusões. Apesar do bom desenvolvimento, porém, a faixa não alcança a mesma energia das anteriores.
Violão, sintetizadores e bateria se revezam na abertura do lado B. A sensação de libertação e espaço retorna em "Darling Thoughts", uma das faixas mais dançantes do disco. Em seguida, os riffs já conhecidos das guitarras de Kessler reaparecem em "Wake Up", dando continuidade ao movimento iniciado pela canção anterior e aproximando o Interpol de uma sonoridade mais expansiva.
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A décima faixa, "Enemy", conduz o álbum para outro lugar. Uma melodia melancólica de piano acompanha a entrada da voz de Paul, que se encontra com vocais femininos e revela uma faceta mais sensível do vocalista. É justamente nessa exposição que está a melhor faixa do disco. "Bird and the Serpent" retorna às raízes do grupo para, a partir delas, imaginar um novo futuro por meio da experimentação. "Sudden", por fim, encerra o álbum da melhor maneira possível: delicada e sem pressa, a faixa parece reafirmar que o Interpol já não precisa corresponder às expectativas criadas ao longo de sua trajetória.
Em entrevista à NME, Paul Banks afirmou que, em This Mirror Weighs a Ton, não há uma faixa que possa ser pulada. A declaração resume bem a estrutura do álbum, construído para ser ouvido como um percurso único, sem grandes rupturas em sua narrativa. Parte desse mérito está no trabalho conjunto entre a banda, o produtor Andrew Wyatt e o responsável pela mixagem, David Friedmann. Ao expandir sua sonoridade sem abandonar os elementos que ajudaram a construir sua identidade, o Interpol encontra uma maneira madura de olhar para o próprio passado e, ao mesmo tempo, seguir adiante.
This Mirror Weighs a Ton não é apenas um retorno. É a prova de que algumas bandas não precisam abandonar aquilo que as tornou reconhecíveis para descobrir novos caminhos.
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