Duo Violeta faz da escuta atenta uma narrativa em Mar Pequeno
- Michele Costa

- há 1 dia
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Entre o sopro da escaleta e as cordas do violão, o Duo Violeta encontrou um mar. Não um oceano de grandes tempestades ou horizontes épicos, mas um território íntimo, habitado por pequenas descobertas, silêncios e escutadas atentas. É nesse ambiente que surgiu Mar Pequeno (The Citadel House, 2026), primeiro álbum da dupla formada por André Sant'Anna e Rafael Campanaro.
O disco nasceu de um retiro criativo realizado em Ilha Comprida, no litoral de São Paulo. Foi nesse ambiente, atravessado pelo imaginário do mar e da vida caiçara, que surgiram algumas das primeiras ideias do disco. O próprio título dialoga com uma escuta íntima e próxima, em que pequenas ideias puderam emergir, crescer e, aos poucos, se transformar na identidade sonora do disco. Dessa maneira, a dupla transforma gestos mínimos em matéria-prima para a criação.

A sonoridade de Mar Pequeno dialoga com diferentes tradições da música brasileira. Baião, ciranda, catira e bossa nova aparecem como pontos de partida para composições que também absorvem elementos do folk e do rock. Em vez de reproduzir gêneros, porém, o Duo Violeta utiliza essas referências como caminhos para construir uma linguagem própria, marcada pelo constante equilíbrio entre familiaridade e surpresa. Inclusive, essa sensação de deslocamento atravessa todo o trabalho. As músicas alternam momentos luminosos e expansivos com passagens mais introspectivas, conduzindo o ouvinte por narrativas sem palavras, onde a contemplação ganha espaço.
"Este é um trabalho muito baseado em escuta, experimentação e troca. Uma das ideias centrais é justamente a de 'escala íntima', sugerida no próprio título do álbum. Houve um interesse em trabalhar com materiais aparentemente simples: pequenos fragmentos melódicos, células rítmicas, ideias concisas, e investigar como poderiam se desdobrar, ganhar densidade e gerar percursos expressivos mais amplos.", afirmam Sant'Anna e Campanaro.
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Vocês se conhecem desde 2010, mas a formalização do duo só ocorreu em 2019. O que precisou amadurecer para que o projeto finalmente acontecesse?
Rafael: Acho que o principal foi o amadurecimento da nossa própria relação musical. Desde que nos conhecemos, em 2010, sempre compartilhamos muitas referências, conversas sobre música e experiências artísticas. Ao longo dos anos, fomos desenvolvendo nossas trajetórias individuais como músicos, compositores e educadores, mas continuamos trocando ideias e acompanhando os caminhos um do outro.
André: O Duo não nasceu de uma decisão imediata nem de um plano muito definido. Ele foi surgindo aos poucos, a partir das experimentações com violão e escaleta, sem grandes pretensões, movido pelo prazer de criar e descobrir o que essa formação poderia oferecer. Com o tempo, algumas ideias começaram a ganhar forma e percebemos que havia uma identidade musical própria se desenvolvendo.
Rafael: Um momento importante foi o retiro criativo que fizemos em Ilha Comprida, em 2019. Lá gravamos as demos de duas músicas, e mais algumas ideias. Acho que foi nesse momento que passamos de algo intuitivo para algo mais concreto. Ali percebemos que aquela combinação entre violão e escaleta já não era apenas uma experimentação, mas estava ganhando uma sonoridade própria e desenvolvendo uma identidade artística.
André: Depois, em 2022, o trabalho que realizamos para a Yamaha Musical também foi importante nesse processo. Fui chamado para divulgar novos modelos de escaleta e apresentamos uma dessas músicas em um novo formato. Com o retorno que tivemos, percebemos que havia interesse por esse encontro entre os instrumentos e que fazia sentido seguir aprofundando esse caminho como Duo Violeta.
O próprio título do álbum, Mar Pequeno, sugere uma escuta íntima e próxima. Como vocês chegaram a esse conceito e de que forma ele orientou a construção da narrativa do disco?
Rafael: O título nasceu dessa nossa experiência em Ilha Comprida. Durante o período em que estivemos lá, acabamos criando uma relação com aquele ambiente, e isso atravessou o processo de composição. Mar Pequeno é o nome dado ao braço d’água que corre entre a Ilha Comprida e o continente, separando da costa. Então, ao mesmo tempo em que cria uma divisão, também é o que estabelece a ligação entre os dois lados. Gostamos de pensar que o álbum faz algo parecido ao ter raízes na música brasileira, mas também de abrir para influências e sonoridades vindas de outros lugares. A ideia de um "mar pequeno" nos interessa justamente por carregar a ambiguidade de algo que parece contido, mas que conecta diferentes margens e abre caminhos. Embora as músicas tenham origens diversas, existe entre elas um fluxo comum, uma sensação de continuidade que acabou orientando a forma como pensamos o álbum como um todo.
André: Isso também se relaciona diretamente com o processo de composição. Muitas das músicas nasceram de materiais muito simples: pequenas ideias melódicas, ritmos ou fragmentos que foram se transformando aos poucos. Existe uma valorização do detalhe e da escuta atenta que atravessa todo o disco. Nesse sentido, o "pequeno" não está relacionado a uma possível conotação negativa da palavra, mas é compreendido como potência. A narrativa do álbum foi sendo construída justamente a partir dessa tentativa de mostrar como algo íntimo, pequeno e aparentemente simples pode ganhar novos significados e se transformar. Acho que essa é uma das ideias que atravessam o álbum.
Algumas composições surgiram no retiro que fizeram e demoraram anos para chegar ao público. Essas músicas, agora apresentadas, mudaram ao longo do tempo?
Rafael: Algumas músicas chegaram ao álbum muito próximas daquilo que surgiu no retiro. Inverno no Mar, por exemplo, mudou pouco desde a demo que gravamos naquela época. Também houve uma escolha consciente nossa de preservar essa composição quase como ela nasceu, porque ela carrega de forma muito fiel a experiência daquele momento e o clima que vivemos durante o retiro. Já Para Ilha teve um percurso diferente. A música nasceu ali, mas foi se modificando ao longo dos anos, passando por diferentes versões até chegar à gravação que entrou no álbum.
André: Acho que, mais do que as músicas terem mudado, fomos nós que mudamos. Registramos diversas ideias durante o retiro e elas foram ganhando forma de maneiras diferentes porque, ao longo desse tempo, fomos amadurecendo como compositores, adquirindo mais experiência e novas referências. Vale lembrar que tivemos a pandemia, que interrompeu nosso fluxo de composição por um tempo. Quando ouvimos essas gravações hoje, percebemos esse processo de amadurecimento com mais clareza. De certa forma, o álbum também registra essa trajetória.
"A música vai se organizando como um jogo de aproximação e distanciamento, entre reconhecimento e transformação. Muitas peças se estruturam a partir de contrastes de caráter, momentos mais abertos e luminosos que se contrapõem a trechos mais introspectivos, criando uma escuta que se desloca, quase como uma narrativa sem palavras."

O álbum é descrito como um registro de percurso, não de chegada. O que essa definição revela sobre o Duo Violeta?
André: Acho que revela a maneira como entendemos a criação artística. Nenhuma obra representa um ponto final. Mar Pequeno registra um momento específico da nossa trajetória. Quando ouvimos as primeiras demos e depois ouvimos o álbum, percebemos tanto continuidades quanto transformações. Estamos, como dupla, sempre em movimento, aprendendo, ouvindo coisas novas e descobrindo novas possibilidades. Por isso gostamos da ideia de percurso: o álbum é menos uma chegada e mais uma fotografia de uma etapa da caminhada. Há muito para explorar.
Mar Pequeno é um disco baseado em escuta, experimentação e troca. Como esses elementos se manifestaram na prática durante a composição?
Rafael: Desde o começo, buscamos um processo em que os dois tivessem liberdade para propor, experimentar e também transformar aquilo que o outro trazia. Às vezes eu chegava com uma frase, uma proposta de harmonia ou uma ideia inicial, e o André explorava caminhos a partir dali, revelando possibilidades que eu talvez não tivesse imaginado. Em outros momentos, ele trazia um tema ou uma harmonia mais desenvolvida, e eu experimentava outras formas de conduzir aquilo pelo violão. Essa troca foi essencial para a construção do disco. As músicas não nasceram de uma divisão rígida de funções, como se um instrumento apenas conduzisse e o outro apenas acompanhasse. Elas foram se formando a partir da escuta entre nós dois, do diálogo entre escaleta e violão e também daquilo que cada ideia parecia pedir ao longo do processo. Acho que Mar Pequeno carrega um pouco dessa dinâmica. Ele nasce de uma troca entre nós, mas continua de alguma forma em quem escuta o álbum.
O disco foi construído a partir de pequenas ideias melódicas e rítmicas que se expandem ao longo das faixas. O que atrai vocês nesse processo de desenvolver algo aparentemente simples?
André: Acho que existe uma beleza muito particular em trabalhar a partir de materiais simples. Muitas vezes uma pequena ideia melódica ou rítmica já carregam uma identidade muito forte. Em vez de buscar constantemente novas ideias, nos interessa investigar profundamente uma mesma ideia e descobrir o que ela pode revelar. Esse processo tem algo de contemplativo, eu diria. Observar como um elemento aparentemente pequeno pode se transformar, gerar contrastes, criar tensões e abrir diferentes percursos.
Também existe uma relação direta com a forma como enxergamos a composição. Nem sempre a complexidade está na quantidade de informações, mas na maneira como elas se desenvolvem ao longo do tempo. Em Mar Pequeno, várias composições nasceram desse princípio. Gostamos da ideia de que um material simples possa funcionar como uma semente, capaz de crescer organicamente e construir paisagens sonoras mais amplas.
Rafael: Para mim, essas pequenas ideias melódicas têm algo parecido com jogar uma pedra dentro de um lago. O gesto inicial é pequeno, mas ele cria um movimento que se espalha e aos poucos transforma toda a superfície da água. Acho que nos interessa justamente acompanhar esse movimento. Quando uma música nasce de um material simples, o ouvinte também consegue perceber melhor suas transformações. Por exemplo, como uma frase muda de sentido, como um ritmo abre outro caminho, como um detalhe passa a ocupar outro lugar. Existe a possibilidade de observar o processo, de ser conduzido por essa escuta mais próxima e isso combina muito com o espírito do álbum.
Vocês comentam no release que a gravação da escaleta exigiu muitos testes e descobertas. Qual foi o maior desafio técnico durante as gravações?
André: O principal desafio foi encontrar uma forma de captar o som da escaleta preservando seu timbre e expressividade. Como não existe uma tradição consolidada de gravação desse instrumento, passamos muito tempo testando diferentes soluções. Dependendo do posicionamento e do tipo de microfone, ela pode soar muito diferente do que realmente é ou perder nuances importantes da interpretação. Por isso nos dedicamos a encontrar combinações de posição e microfonação que valorizasse a sonoridade das diferentes escaletas utilizadas. No fim, cada combinação revelou timbres e características sonoras distintas do instrumento, o que também foi incrível. Então, curiosamente, essa dificuldade acabou se transformando em parte da identidade sonora do álbum.
"Emergiu" homenageia Hermeto Pascoal e Gilberto Gil. Como esses artistas influenciam a maneira como vocês pensam composição e experimentação musical?
Rafael: Ambos nos inspiram pela liberdade criativa e pela maneira profundamente brasileira com que constroem suas obras. Hermeto nos ensina que a experimentação pode ser ilimitada, que qualquer som pode se tornar material musical e que a curiosidade é uma força criativa fundamental. Gil, por sua vez, nos inspira pela capacidade de transformar ideias sofisticadas em algo fluido, acessível e capaz de tocar as pessoas de forma muito profunda. Acho que os dois compartilham essa habilidade de tornar o complexo algo natural, que chega nas pessoas. Em muitos sentidos, Emergiu tenta dialogar com essa maneira de pensar a criação.
As músicas do álbum parecem contar histórias sem palavras. Vocês enxergam cada faixa como uma narrativa própria ou o disco funciona como uma grande narrativa contínua? Aliás, o que esperam despertar no ouvinte?
André: Acho que as duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Cada faixa possui sua própria identidade e sugere narrativas e paisagens. Mas, quando colocadas lado a lado, elas também constroem um percurso mais amplo, ligado ao mar, ao litoral, à memória e à experiência que vivemos durante o processo de criação. O que esperamos despertar no ouvinte não é uma interpretação específica, mas a possibilidade de criar suas próprias imagens e histórias. Talvez uma das grandes qualidades da música instrumental esteja justamente aí: ela oferece caminhos, mas deixa espaço para que cada pessoa complete a viagem com sua própria imaginação.
Depois de Mar Pequeno, quais novos mares vocês pretendem explorar?
André: Acho que Mar Pequeno tem tido uma ótima recepção do público e da crítica, então estamos muito focados na divulgação desse trabalho. Por isso, estamos dedicados em lançar materiais que dialoguem com o álbum. Temos dois clipes de músicas prontos e o primeiro será lançado dia 30 de junho. Há também um minidoc em fase de pós-produção, que mostra como foi a gravação do disco no estúdio. Nossa ideia com ele foi de aproximar nosso público da vivência que tivemos nesse processo.




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