Living in the Shit retorna para um Brasil diferente

No início dos anos 1990, o Brasil ainda vivia os primeiros anos da redemocratização e enfrentava uma profunda instabilidade econômica e política. Na época, Fernando Collor assumiu a Presidência como o primeiro presidente eleito diretamente após a ditadura civil-militar e colocou em prática o Plano Collor, que, entre outras medidas, confiscou temporariamente depósitos de poupança e contas correntes. A política econômica foi acompanhada por recessão, desemprego e (mais) inflação.
Foi nesse ambiente de insatisfação e mobilização que, em Maceió, os irmãos Marcelo e Eduardo Quintella formaram a Living in the Shit. A banda nasceu em meio às manifestações pelo impeachment do presidente e estabeleceu, desde o princípio, uma relação direta com o momento político. O próprio nome escolhido para o grupo expressava a insatisfação com o período, especialmente, com as condições sociais e econômicas do Nordeste, que os músicos associavam à precariedade, à corrupção e à falta de investimentos.
O punk e o hardcore foram os primeiros pontos de partida, mas a LIS logo ampliou suas referências, aproximando o peso das guitarras de elementos da música negra, de ritmos regionais e do manguebeat. A mistura de linguagens ajudaria a construir uma identidade própria e a inserir a banda na cena independente brasileira dos anos 1990. Cinco anos depois, lançaram Chá Magiológico, primeiro álbum, consolidando uma sonoridade que transita por diferentes gêneros sem se limitar a uma única classificação.
A história, porém, seria interrompida alguns anos depois. Em 1998, Marcelo Quintella deixou a banda quando a Living in the Shit trabalhava na pré-produção do que seria seu segundo álbum. As composições daquele período permaneceram guardadas, junto à sensação de que havia um trabalho ainda inacabado. Quase três décadas depois, parte desse material voltaria ao centro do processo criativo da banda.
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A Living in the Shit nasceu no início dos anos 1990, em um contexto de efervescência política e cultural. O que vocês lembram daquele momento que ainda segue ecoando - culturalmente, sonoridade, etc - na banda atualmente?
Não foi apenas efervescência política; foi uma verdadeira crise política. O que ressoa em nós? Fomos inseridos no movimento manguebeat no início da nossa trajetória. Corais reflete a influência que esse movimento exerceu sobre nós. Vivemos o retorno de um certo clima político, especialmente agora, com a internet e a disseminação de “fake news”.
A banda nasceu em meio às manifestações pelo impeachment de Collor. Mais de 30 anos depois, o Brasil continua atravessando crises políticas e disputas de narrativas. O que mudou na forma como vocês enxergam políticas e, consequentemente, na construção das canções políticas?
Há dois efeitos ao olhar para o passado e avaliar o presente. Nossas músicas dos anos 90 evidenciam as divergências políticas que sempre existiram em uma nação tão vasta quanto o Brasil. O que mudou desde então — e é relevante hoje — é que a internet oferece um espaço em que qualquer pessoa com um celular pode se expressar. Devido ao funcionamento dos algoritmos, torna-se muito fácil para as pessoas criarem e habitarem as mesmas câmaras de eco de mentalidade conservadora ou liberal.
Nossa música é para todos — sejam conservadores ou liberais —, pois as letras não buscam definir, de forma simplista e absoluta, o que é "bom" ou "ruim". O objetivo de nossas composições é proporcionar aos ouvintes a oportunidade de questionar e refletir criticamente sobre o que veem, ouvem e vivenciam: política, "tendências", comportamentos, destruição ambiental, disseminação de informações falsas e muito mais — elementos que favorecem quem detém o poder e mantêm as classes de menor renda e nível de escolaridade na ignorância e sujeitas à manipulação.
Nos anos 1990, protestar nas ruas e formar uma banda eram formas bastante concretas de ocupar o espaço público. Hoje, a rua continua presente, porém, parte desse enfrentamento acontece nas redes sociais. Vocês acham que a música perdeu ou ganhou força política nesse deslocamento?
A música não ganhou nem perdeu. Ela convive (e compete) com outras formas de expressão cultural. A música perdeu força política na era das redes sociais, pois deixou de ser o único meio de disseminar mensagens políticas ou de servir como forma de auto expressão. Observando a trajetória da música — de onde veio, onde está agora e para onde caminha no futuro, especialmente com a IA —, a LITS testemunhou as mudanças que a cultura da internet provocou na mentalidade da geração atual, a qual continua sendo influenciada por fontes que ditam o que pensar.
A banda começou muito próxima do punk e do hardcore, mas foi incorporando ritmos e referências muito diferentes ao longo do tempo. Quando vocês perceberam que não queriam mais pertencer a uma única linguagem musical?
Depois que aprendemos a compor, percebemos que nos limitávamos ao restringir nosso som apenas ao punk e ao hardcore. Em vez disso, canalizamos essa mesma energia (punk, hardcore e a filosofia “DIY”) para incorporar outros estilos musicais que refletissem as personalidades e preferências individuais dos integrantes da banda. Em Corais, damos continuidade à tradição da LITS de mesclar estilos musicais diversos — do moderno e arrojado ao tradicional e regional —, o que, em essência, constitui um microcosmo da própria história e cultura brasileiras. Esse aspecto, somado às letras, é o que torna nossa música inesperada e difícil de classificar, mas, acima de tudo, relevante nos dias de hoje.
"Mesmo depois de sair da banda, em 1998, fiquei com a sensação de que a pré-produção do que seria nosso segundo álbum deveria ser terminada. Eu acreditava que, se na época houvesse mais verba e pudéssemos ter trabalhado mais naquelas composições, teria saído um material incrível. A partir daí, resolvemos fazer releituras daquelas composições e, posteriormente, sentimos a necessidade de também compor novas músicas. A ideia era que [as novas composições] tivessem uma sonoridade próxima àquela que tínhamos buscado naquela pré-produção em 98, mas também uma conexão com o nosso primeiro álbum, Chá Magiológico."
O retorno da Living in the Shit

A Living in the Shit retoma a atividade de estúdio com Corais (2026), álbum que reúne 12 faixas: sete composições inéditas, incluindo a introdução “9º 41’00’’ Sul 35º 43’00’’ Oeste”, e cinco releituras de músicas das demos Quentura e Catengologroove. O disco também marca o retorno de Marcelo aos vocais e à composição da banda.
A decisão de revisitar as canções não representa apenas uma recuperação de material antigo: o processo permitiu colocar as composições do final dos anos 90 em diálogo com o presente. As novas faixas procuram estabelecer uma conexão com a sonoridade que a Living in the Shit desenvolvia naquele período e com o universo de Chá Magiológico, mas incorporam questões que atravessam o Brasil e o mundo atuais.
O país que recebe o retorno do grupo é diferente daquele em que a banda surgiu, mas continua marcado por disputas políticas e sociais. Este ano, o Brasil atravessa mais um ciclo eleitoral em um ambiente no qual a circulação de desinformação e o uso de inteligência artificial na produção e disseminação de conteúdos políticos ocupam espaço central no debate público.
É nesse cenário que a crítica social da Living in the Shit ganha novas formas. Se, no passado, a banda respondia à crise política, econômica e social do período Collor, Corais volta seu olhar para questões contemporâneas como exploração ambiental, turismo de massa, manipulação de informações, fake news e os efeitos das relações mediadas pelas plataformas digitais. As circunstâncias mudaram, mas o interesse em observar as estruturas que organizam a vida social e questionar seus efeitos permanece.
O álbum também recupera outro elemento presente na trajetória da banda: a colaboração. Wado, Fábio Trummer, LoreB, Jurandir Bozo e o percussionista Wilson Santos estão entre os artistas que participam do disco. As parcerias aproximam diferentes gerações da música nordestina e retomam uma lógica de troca que esteve no centro da cena manguebeat.
Em Corais, vocês buscaram uma sonoridade que estabelecesse uma ponte entre Chá Magiológico e aquilo que a banda pretendia fazer em 1998. Como foi encontrar um ponto de equilíbrio entre memória e presente sem simplesmente tentar reproduzir o som de uma banda de 30 anos atrás?
A tecnologia nos permitiu superar o intervalo de 30 anos entre nossos álbuns. Nossas fitas demo e o Chá Magiologico refletiam aquela época — um período de amadurecimento, tanto como compositores quanto como pessoas. Havia letras perspicazes e inteligentes, aliadas à nossa sonoridade característica de alta energia. Hoje, Corais é um álbum conceitual. Revisamos nossas canções antigas e vislumbramos novas interpretações. Felizmente, a tecnologia nos permitiu trabalhar com mais calma e incorporar colaboradores talentosos, utilizando ao mesmo tempo os samples de áudio característicos da LITS e sons eletrônicos para enriquecer nossa música. Naturalmente, nossa forma de compor também evoluiu desde a adolescência. Abordamos as composições, as letras e a sonoridade com a sabedoria e a experiência de vida adquiridas ao longo dessas três décadas, dando Corais um nível de sofisticação musical. Seria praticamente impossível simplesmente recriar o que fizemos 30 anos atrás, sabendo que dispúnhamos de toda a tecnologia e habilidade musical para produzir algo notável e novo.
Como foi reencontrar artistas como Wado, Fábio Trummer e Jurandir Bozo dentro de um trabalho que também apresenta uma nova geração, como LoreB?
Para contextualizar, alguns dos colaboradores — Wado, Fabio Trummer, Jurandir Bozo, Carlos PXT, Wilson Santos e GlauberX — eram, antes de tudo, nossos amigos. Já havíamos colaborado com alguns deles de alguma forma no passado. Foi uma alegria, para dizer o mínimo, compartilhar o espaço criativo nas composições e gravação de Corais com eles em Maceió, uma espécie de reencontro. Cada um deles trouxe algo verdadeiramente único para enriquecer as composições musicais das quais participaram.
Reiteramos os fundamentos do manguebeat. Ao trazer participações de artistas tão diversos, reafirmando os fundamentos do manguebeat como uma cena cultural antropofágica — incorporando tanto a cultura pop quanto a regional — e o seu espírito de cooperação e troca.
Quanto a LoreB, a primeira vez que a ouvi foi quando a escutei — junto com um grupo de rap chamado Liga Parallela — fazendo uma releitura de “Pessoas Bad Communication”, do álbum Chá Magiológico. Fiquei impressionado com suas habilidades vocais e originalidade.
Sair do Nordeste e viver fora do Brasil modificou a maneira como vocês passaram a enxergar o próprio lugar de origem?
Ao criar uma certa distância — não apenas geográfica, mas também cultural —, espera-se que você passe a enxergar o mundo de outra forma. Tenho uma compreensão mais clara das questões globais. Por ter vivido no Reino Unido e nos EUA, e viajado pela Europa e pela América Latina, vivenciei como o mundo funciona para além das fronteiras geográficas e culturais do Brasil. Essas experiências me transformaram profundamente e fizeram de mim a pessoa que sou hoje. Elas me permitiram transitar entre dois mundos — mantendo sempre o Nordeste brasileiro como referência, mas sendo capaz de observar as coisas com uma visão de mundo mais ampla e um olhar distanciado. Da mesma forma, posso falar com propriedade sobre a experiência de ser imigrante nos EUA, e especialmente sobre como é essa vivência em 2026. É justamente sobre esse estar e existir entre dois mundos que trata a música Agridoce, a qual demonstra meu orgulho de ter crescido no Nordeste, com o refrão marcante de "Tres Cocos" para unir todos esses elementos.
A faixa “9º 41’00’’ Sul 35º 43’00’’ Oeste” transforma as coordenadas do Farol da Ponta Verde em uma introdução instrumental. O que existe nesse lugar que representa a banda e o universo de Corais?
Essas coordenadas correspondem ao farol de Maceió — um dos marcos mais reconhecíveis da cidade. No entanto, metaforicamente, um farol existe para guiar e proteger. O farol está construído sobre um dos maiores recifes de coral do mundo, que vem sofrendo pressão devido à exploração do turismo de massa e à escassa regulamentação ambiental. A imagem do farol em chamas na capa do nosso álbum serve como metáfora para o fato de que aquilo que nos guiou no passado pode estar em chamas, alertando-nos sobre a nossa própria potencial destruição.
Já em “Catenga Land”, vocês afirmam: “não esquecemos o que aconteceu aqui”. Ao longo da trajetória da banda, essa memória parece estar ligada à inconformidade e à necessidade de não aceitar determinadas coisas como naturais. Como preservar a raiva, o incômodo e os próprios ideais sem permitir que esses sentimentos endureçam a gente ou nos transformem justamente naquilo que combatemos?
Preservamos a raiva e a canalizamos por meio do nosso processo criativo. Compusemos as músicas e as letras do álbum Corais com uma bagagem de anos de experiência musical e de vida. Com Chá Magiológico, criamos uma narrativa que deu voz a uma geração nos anos 90. Com Corais, criamos uma trilha sonora para todas as gerações — não com o intuito de pregar, mas de despertar a consciência e estimular um pensamento crítico aguçado sobre o nosso mundo.
Depois de quase 30 anos sem um disco novo, o que significa voltar: continuar uma história, reescrevê-la ou descobrir que ela nunca terminou?
Com Corais, tem sido maravilhoso trabalhar em releituras das nossas músicas dos anos 90, mas com a possibilidade de ampliá-las ainda mais graças a colaboradores, recursos e tecnologias que não estavam ao nosso alcance naquela época. Nos anos 90, as bandas ficavam presas a grandes gravadoras e às exigências do mercado; as gravadoras podiam pressionar ou ditar o que as bandas podiam ou não fazer — e o que podiam ou não dizer — em busca do sucesso comercial. Ao trabalhar com um selo independente como a Underground Signal, de Nova York, tivemos total liberdade criativa para expandir nossa trajetória e reescrever um novo futuro para a LITS.
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