top of page

Cigarro Mata estreia em disco olhando para dentro e para o cotidiano

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

O nome já avisa: cigarro mata. E, embora possa parecer o tipo de frase que você encontra estampada em uma embalagem ou em um cartaz de campanha de saúde pública, a história é bem menos séria, começou em uma mesa de bar. "Cigarro Mata surgiu numa mesa de bar. Estávamos comemorando o aniversário do Joãozinho e refletindo sobre como odiávamos o nome antigo da banda, nome que já tínhamos decidido mudar, mas faltava uma alternativa que a gente realmente gostasse. Todos da mesa começaram a brincar com opções de nomes sobre coisas que estavam em cima da mesa, uma pior que a outra. Em algum momento alguém pegou um maço e falou "Cigarro Mata". Mudamos o nome do grupo do WhatsApp da banda na mesma hora", explica o trio por e-mail.


Criado a partir do humor, o nome acabou ficando e, desde 2018, a banda de Campo Mourão, no Paraná, vem provando que, apesar do aviso, ainda há muito o que fazer antes de morrer.


cigarro mata
(Créditos: João Iritsu)

Atualmente formada por João Marcelo (guitarra e voz), Luiz Fernando (contrabaixo) e João Victhor (bateria e voz), a Cigarro Mata construiu sua trajetória na cena independente paranaense entre shows, experimentações e lançamentos. Ao longo desse caminho, dividiu palcos com nomes como Polara, Menores Atos, 43Duo, Hoovaranas e Sugar Kane, além de lançar EPs e singles. Agora, depois de anos de estrada, o trio finalmente apresenta seu primeiro álbum, Cigarro Mata (2026), que reúne dez faixas e afirma a sonoridade de uma banda interessada em fazer do rock um lugar amplo o bastante para caberem suas contradições.


Gravado em 2025, no estúdio Costella, em São Paulo, o trabalho teve produção de Alexandre Capilé e masterização de Gabriel Zander. Ao longo das dez faixas, a banda transita por diferentes vertentes do rock, misturando indie, psicodelia, hardcore, distorções e grooves quebrados. O resultado preserva uma sonoridade crua e orgânica, capaz de alternar momentos mais contemplativos com explosões de energia.


Em vez de se prender a uma única vertente, o disco deixa as diferentes referências conviverem. Há peso, psicodelia, melodias mais delicadas e momentos em que a banda parece simplesmente interessada em aumentar o volume. Essa liberdade também aparece na relação com suas influências: o trio absorve elementos de diferentes momentos do rock e os reorganiza dentro de uma identidade própria, sem transformar referência em fórmula.


Leia também:


Vocês estão na ativa há quase dez anos. Nesse tempo, vocês lançaram quatro EPs e um single. Por que tanto tempo para lançar o disco? 

O disco demorou por vários motivos, nós passamos por muitas mudanças tanto como banda e como pessoas. Tiveram mudanças de formação, mudança de nome, faltou verba, nunca parecia o momento certo. Alguns anos atrás viramos um trio e tivemos que nos redescobrir como banda, nisso a gente se viu no melhor lugar que já estivemos desde o começo desse projeto, musicalmente e pessoalmente entre nós. Sentimos que finalmente nos encontramos na hora certa e com as pessoas certas para realizar esse sonho.


Falando em tempo, o que mantém uma banda independente em momento durante tantos anos, especialmente antes de chegar o primeiro álbum?

Ser independente é uma coisa linda e assustadora. É o poder de fazer tudo da forma que queremos porque queremos, e a noção de que temos que fazer tudo que tem que ser feito porque ninguém vai fazer para a gente. Acho que isso tudo para nós é uma das partes mais interessantes desse processo de ser "artista". E nessa estrada tivemos o prazer de conhecer tantos artistas independentes talentosos que viraram amigos e parceiros, tem um grande senso de comunidade e pertencimento nesse meio que a gente ama.


O cotidiano e as relações interpessoais aparecem como matéria-prima das canções. O que existe de mais interessante em transformar situações diárias em música?

Acho que como compositor é a dualidade entre ser verdadeiro com as coisas cotidianas que nos afetam, e o "desafio" de se expressar de uma forma autêntica sobre assuntos e sentimentos que já viraram arte tantas vezes.


Ao escreverem canções que abordam o cotidiano, vocês procuram respostas ou estão mais interessados em registrar essas questões que permanecem sem respostas?

De certa forma ambos. Não procuro intencionalmente respostas, mas colocar em palavras o que estou sentindo ou pensando nas letras muitas vezes me fez entender melhor o que estava acontecendo naquele momento ou situação. Outras tantas vezes só seguem as dúvidas.


"É um álbum meio raivoso e contemplativo em certos momentos, justamente por conta da imensa realização que foi pra nós estar gravando essas músicas juntos, especialmente em um estúdio como o Costella."

O disco parece voltar diversas vezes à ideia de fugir, se perder e depois tentar se encontrar novamente. Por que o desaparecimento - físico e emocional - parece ser uma imagem tão poderosa para falar sobre relações e sobre nós mesmos?

Não se encontrar nas próprias atitudes e pensamentos é uma coisa esquisita e assustadora, te faz pensar "em que momento eu deixei de ser daquele jeito?" ou "eu mudei por mim ou por outra pessoa?". O quanto dessas atitudes sou eu mesmo. Eu penso que esse desaparecimento é não se ver mais em si mesmo da forma como você se entende por gente. Acho que essa sensação de perda é agoniante e a busca por se reencontrar inspiradora.


cigarro mata
(Foto: João Iritsu)

Em "Cedo Demais" vocês cantam: "vou me encontrar de novo". A frase pressupõe que esse encontro com quem somos pode ser interrompido. Vocês acreditam que mudamos de verdade ou que, em algum momento, apenas precisamos reaprender a reconhecer quem já fomos?

Acredito que não só precisamos reaprender quem nós somos, mas também entender o quanto de você agora é a outra pessoa, da mesma forma que um tanto dela agora é você. Acho que essa troca que acontece nas relações, seja de trejeitos, expressões, gostos, desgostos, é uma das coisas mais interessantes de se relacionar. Nós nunca sabemos como vamos marcar uma pessoa de verdade e o quanto seremos marcados. E aí resta saber de verdade quem você é depois dessa troca, só você ou um pouco dos dois?


Ainda na mesma música, vocês trazem a estrofe "deixa eu mentir pra mim mesmo". Existem momentos em que mentir para si mesmo é uma forma de sobrevivência? 

Acho que faz parte da negação de que algo chegou ao fim ou está te fazendo mal. Mentir pra si mesmo pode trazer um "conforto" temporário mas no final das contas a verdade chega e te faz tomar decisões difíceis.


Em "Tanto Faz" os gritos rasgados aproximam a banda do hardcore; em "SAC Para Relações Mal Resolvidas" aparecem grooves distorcidos e quebrados. O que vocês procuram quando experimentam essas diferentes possibilidades dentro de uma mesma identidade?

Acima de tudo a gente procura fazer músicas que nós gostamos de ouvir, antes de qualquer estilo ou tema, nós queremos nos divertir compondo e tocando. Somos influenciados por o que estamos ouvindo ou curtindo no momento e isso traz sons diferentes. Acaba que isso faz com que a gente passeie entre estilos e ideias, mas sempre com a nossa cara.


Já em "Tava Bom" fala, em um momento, de uma expectativa interessante: querer partir, mas ainda desejar que exista alguém esperando pela nossa volta. O que essa contradição revela sobre os vínculos que construímos?

Por um tempo um relacionamento quebrado ainda pode parecer um porto seguro. "Fins" nem sempre são fáceis de lidar, são incômodos e incertos, às vezes é mais fácil querer lidar com um "mal certo" do que com a imprevisibilidade do novo. 


Agora que Cigarro Mata está no mundo, o que vocês sentem que começa agora?

Para nós esse disco é uma prova para nós mesmos do que a gente é capaz de fazer, estamos diariamente numa luta interna entre curtir o processo e pensar no que vem pela frente, e vem coisa. Queremos fazer essas músicas chegarem ao máximo de pessoas possível, tocar por todo lado e conhecer todo tipo de gente.



Apoie financeiramente o desalinho e ajude a manter um espaço independente dedicado à crítica, às entrevistas e à divulgação da cultura independente. Toda contribuição faz diferença.

Comentários


©2020 por desalinho.

bottom of page