Os territórios de Anaïs Sylla

Em Exil (Tony Gatlif, 2004), Zano propõe a Naima, sua companheira, atravessar a França e a Espanha para chegar à Argélia e conhecer a terra da qual seus pais um dia tiveram que fugir. A viagem, inicialmente pensada como um retorno às origens, se transforma em uma experiência de deslocamento entre territórios, culturas e identidades. Anaïs Sylla parte do filme para apresentar seu primeiro disco, Exil (Alá, 2026).
O álbum da cantora francesa, de ascendência senegalesa e radicada no Brasil, desloca o sentido do exílio para um campo mais íntimo. Estar distante não diz respeito apenas a um território, mas também à impossibilidade do encontro, à memória, à espera e à busca por novos lugares de pertencimento.
Iniciado durante a pandemia de Covid, Exil nasceu em um período em que o isolamento social transformou a relação com o tempo e com o outro. Enquanto o mundo experimentava uma espécie de exílio coletivo, a compositora encontrou na música uma maneira de criar espaços de encontro mesmo quando a presença física ainda não era possível. O processo atravessou perdas, silêncios e incertezas, que acabaram incorporados ao disco como parte de uma experiência que encontrou na criação uma maneira de permanecer em movimento.
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Ao lado do produtor musical Caê Rolfsen, Anaïs Sylla estabelece uma conversa entre diferentes territórios da diáspora negra. Referências do Senegal e do Mali se encontram com sonoridades que atravessam o Caribe e chegam ao Brasil, construindo uma linguagem que aproxima tradição e contemporaneidade.

As canções circulam entre diferentes idiomas e fazem da palavra mais do que um veículo para a narrativa: sua sonoridade, seu ritmo e sua origem também passam a integrar a música. Em um disco sobre deslocamento, as fronteiras linguísticas se tornam caminhos para aproximar experiências distintas.
Essa circulação se estende às participações do álbum: Jota.pê divide com a cantora os vocais de “Rêver”, enquanto Tiganá Santana se junta à Anaïs em “Je chanterai pour toi”, releitura da canção do músico malinês Boubacar Traoré. Já “Minha Irmã” conta com a participação de Anelis Assumpção em uma composição atravessada pela ancestralidade e pela relação entre diferentes gerações.
Exil nasce de uma experiência de deslocamento e suspensão que foi compartilhada por muitas pessoas durante a pandemia. Quando você percebeu que aquele momento poderia se transformar em um disco?
A ideia de Exil nasceu um pouco antes da pandemia, mas a pandemia impediu sua realização como previsto. E acabou ressignificando o repertório. Eu tirei músicas que perderam o sentido e compus novas como "La Mer" (2021), "Traversée" e "Rêver" (2022). A pandemia confirmou o nome Exil que quer dizer exílio em francês, entendi que estávamos todos e todas vivendo um exílio, uma impossibilidade de se tocar, de se ver, quando uma maioria não tinha escolha e tinha que continuar a sair apesar do perigo, do risco de morte.
O disco fala sobre deslocamento, mas também sobre pertencimento. Pode-se dizer que Exil é, de alguma maneira, uma tentativa de descobrir onde e como pertencer?
Exatamente, Exil é essa tentativa de buscar um refúgio poético.
Você descreve a criação do disco como uma maneira de “sublimar a existência”. O que a música conseguiu elaborar ou transformar naquele período que talvez outras formas de expressão não conseguiam?
Nesse período o canto se tornou um lugar de expressar a dor e ao mesmo tempo de sonhar, imaginar, fabular. Eu senti isso muito forte com “Rêver” e “Traversée”, melodias para me tele transportar num campo mais onírico, onde é possível sonhar.
A voz ocupa um lugar muito particular no disco, explorando diferentes timbres e possibilidades. Como foi essa pesquisa vocal e o que você descobriu sobre sua própria voz durante o processo?
Foi um processo muito forte, o Caê me acompanhou e me guiou muito bem, ele me ajudou muito a extrair possibilidades de vozes dentro de mim. Foi uma pesquisa em dois. Foi muito interessante investigar os timbres, as intenções que queria traduzir com a minha voz.
Os cantos tradicionais do Senegal aparecem como uma espécie de matéria viva dentro da produção. Como você pensa a relação entre memória, ancestralidade e sample na construção dessas músicas?
Eu acredito que a memória está imbricada a minhas melodias, gosto de imaginar que minhas melodias são sopradas por minhas mais velhas, aquelas que continuam ou já se foram. O sample abre um leque de possibilidades para atravessar as épocas, as fronteiras. Ele é pura alquimia, vem se fundir em composições, vai se decompor para compor algo novo. É muito mágico, ele remete algo que já existe e vai se transformar, ganhar um novo corpo. É infinito. Isso é ancestral.
"Criar um disco é vertiginoso e, ao mesmo tempo, foi uma maneira de sublimar a existência."
Exil transita por diferentes idiomas. O que muda na sua relação com uma canção quando você muda de língua?
Acho que muda um imaginário, em português eu sinto que as palavras têm mais beleza e me sinto muito mais vulnerável em português. “La Mer” e “Rêver” têm esse cruzamento de línguas do francês e do português, onde eu tentei confundir um pouco as duas línguas. Minha irmã foi escrita a quatro mãos, com a cantora e compositora espanhola Irene Atienza. Foi muito forte poder compor numa língua que não é a minha língua materna.
"Regards Croisés" traz gritos da multidão, mas de uma multidão em que já não é possível distinguir uma voz. Nessa imagem que você traz há uma reflexão sobre como, em determinados momentos, o coletivo pode apagar o indivíduo?
Exato, como em determinados momentos, a multidão, o pensamento de massa acaba silenciando as particularidades, as singularidades e nos alienando.
“Minha Irmã”, uma das canções mais bonitas do álbum, traz uma conversa entre gerações. O que você recebeu das mulheres que vieram antes de você e o que sente que está transmitindo para quem veio depois?
Muito obrigada, sim essa canção foi escrita como uma reza, um sussurro das nossas mais velhas. Eu sou muito conectada a minha avó materna, convivi muito com a mãe dela, minha bisavó, acho que eu recebi muita força delas, muita fé. Desejo transmitir isso, a possibilidade de imaginar outras maneiras de existir, de poder se deslocar, de poder se curar no encontro com uma outra língua, cultura para que outras paisagens internas possam nascer, renascer.
A ideia de que “todo mar é um início”, como canta em “Endroit Commun", conversa diretamente com a ideia de travessia presente em Exil. O mar pode ser compreendido como fronteira ou como possibilidade de passagem?
O mar é uma grande passagem, onde eu nasci e cresci o mar (mediterrâneo) é um cemitério a céu aberto até hoje no qual milhares de pessoas o atravessam para tentar uma vida mais digna. Aqui no Brasil o mar tem essa marca, essa memória de uma travessia trágica herdade da escravidão e ao mesmo tempo ele é essa mãe, esse lugar onde tudo pode renascer e se renovar.
Muitas das canções de Exil acontecem justamente no espaço entre duas pessoas - entre o “eu” e o “você”, entre quem parte e quem fica, entre quem ama e quem espera. O que te interessa explorar nesse território de encontro, onde também cabem distância, desejo, afeto e desencontro?
Acho que nesse disco eu tentei contar o que eu sentia profundamente, mas sempre no meio do coletivo, do que se passava fora. As músicas “Regards Croisés” e “Silhouette” têm essa dimensão de nós.
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