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Terminal Guadalupe: Ensaio Sobre a Urgência

Foto do escritor: Michele Costa
Michele Costa
há 12 minutos
5 min de leitura

Há mais de duas décadas, o Terminal Guadalupe acompanha as movimentações do país e as contradições que atravessam a sociedade brasileira. A banda curitibana fez da observação crítica do presente uma marca de sua trajetória e, em Ensaio Sobre a Urgência (8-Bics, 2026), transforma essa disposição em seu sexto álbum, o mais explicitamente político de sua discografia. Com dez faixas concebidas a partir de acontecimentos recentes, o grupo volta o olhar para o avanço de pautas ultraconservadoras, a banalização da violência e as disputas de poder que ultrapassam as fronteiras nacionais.


Produzido pelos integrantes Allan Yokohama e Dary Jr., o álbum segue um método que a banda define como instant songs: canções compostas no calor dos acontecimentos, sem o distanciamento que costuma acompanhar a elaboração de um disco. A urgência, nesse caso, não significa necessariamente pressa ou superficialidade. Trata-se de uma escolha estética e narrativa que aproxima as músicas do fluxo contínuo de notícias, escândalos, discursos e disputas ideológicas que compõem o cotidiano. Em vez de apresentar um tratado sobre a política contemporânea, o Terminal Guadalupe reúne episódios e personagens que, vistos em conjunto, revelam padrões de comportamento e relações de poder.


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A abertura com “O Bebê de Mussolini” estabelece o tom do trabalho. A música parte da expressão “bebê reborn do fascismo”, usada pelo influenciador Jones Manoel para se referir a um jovem parlamentar mineiro associado à disseminação de notícias falsas. A contundência da crítica encontra correspondência no arranjo, que combina mudanças de dinâmica e guitarras em uma das faixas mais incisivas do álbum. Em “Cristão, Esposo, Pai e Patriota”, o foco se desloca para a violência cotidiana e a distância entre a imagem pública e as ações individuais. A letra descreve a rotina de um empresário que matou um gari em Belo Horizonte, contrapondo os valores morais que dão título à canção à gravidade de seu ato. Com uma combinação de punk e violões, a faixa expõe a banalização do mal sem recorrer a uma construção excessivamente elaborada: a própria contradição entre discurso e comportamento sustenta a crítica.


A hipocrisia também orienta “Love Me Like Gold”, inspirada em um político latino-americano que, segundo a apresentação da banda, deixou para trás sua trajetória como drag queen para defender pautas homofóbicas e transfóbicas no Partido Republicano dos Estados Unidos. Entre o glam rock e referências ao pop dos anos 2000, o Terminal Guadalupe constrói um contraste entre a leveza do arranjo e a gravidade do tema. A ironia evidencia as contradições de uma atuação política que, na leitura proposta pela banda, transforma identidades e experiências pessoais em instrumentos de conveniência ideológica.


terminal guadalupe Ensaio Sobre a Urgência
(Créditos: Maurício Peixoto)

Nem toda crítica, porém, depende de personagens específicos. Em “Mundo Sin Dueño”, o rock latino, atravessado por uma pitada de Pixies, amplia o horizonte do álbum para além das fronteiras brasileiras. Cantada em espanhol, a faixa manifesta solidariedade aos povos de países vizinhos que enfrentam as consequências da eleição de representantes da extrema-direita. A escolha do idioma também recupera uma tradição da discografia do grupo, presente desde “El Pueblo No Se Va”, de 2007, e reforça a aproximação entre diferentes realidades latino-americanas.


A dimensão internacional reaparece de maneira mais sombria em “Da Venezuela ao Irã”. A letra parte de afirmações atribuídas a Jeffrey Epstein sobre Donald Trump e se transforma, na interpretação da banda, em um mantra melancólico sobre a cortina de fumaça que pode se formar em torno de invasões e conflitos. A faixa se aproxima de uma das preocupações centrais do disco: a maneira como crises e disputas de atenção interferem na percepção dos acontecimentos. Nesse caso, a força da composição também depende do contexto extramusical que a originou, exigindo do ouvinte alguma familiaridade com os episódios mencionados.


A tragédia palestina ganha destaque em “Dia dos Berços”, que retoma uma preocupação já presente em “Recorte Médio-Oriental”. Com arranjo próximo do rock progressivo, a faixa encontra na bateria de Luciano Vassão e na voz de Allan Yokohama momentos de tensão que acompanham o peso do tema. A violência contra a população palestina integra uma reflexão mais ampla sobre conflitos prolongados e a vulnerabilidade de populações submetidas a eles. A abordagem musical expansiva permite que a canção desenvolva sua atmosfera sem diluir a gravidade do assunto.


Em outros momentos, o disco prefere o absurdo à solenidade. “Não Falha Um” experimenta a bossa nova para narrar as desventuras de um pastor evangélico apresentado como moralista, mas envolvido em uma situação que contradiz a imagem que projeta. Já “A Grande Família” aposta no drum and bass, novidade na trajetória da banda, para transformar em uma longa vinheta uma mensagem atribuída ao filho mais velho de um ex-presidente e enviada a um ex-banqueiro envolvido em um escândalo. A faixa nasceu de uma brincadeira entre Allan e Dary: um áudio de mais de seis minutos de guitarra ruidosa acabou convertido em trilha para o material. O episódio ilustra como o grupo incorpora o acaso e o improviso ao processo criativo, fazendo do ruído uma extensão da própria confusão política.


O encerramento com “Acabou” condensa a tensão entre celebração e alerta. A canção comemora uma condenação que a banda associa à responsabilização por crimes contra a população palestina, enquanto o verso “Não deixe acontecer de novo” desloca o foco para a fragilidade da democracia e o risco de repetição. Os vocalizes de Gabe Salmazo ampliam a dramaticidade do desfecho, que não se limita à celebração de um resultado: a faixa também adverte para a possibilidade de que as condições responsáveis por determinadas violências e ameaças democráticas permaneçam presentes.


Gravado de maneira artesanal, com cada integrante registrando suas partes em seu próprio estúdio, Ensaio Sobre a Urgência também reflete uma forma de produção coerente com a trajetória independente do grupo. Além de Dary Jr. nos vocais e Allan Yokohama nas guitarras, violões, teclados e vocais, o álbum conta com Gabe Salmazo, do Not An Ideal Boy e das Bravonas, no baixo, na escaleta e nos vocais, e Luciano Vassão, da Jully et Joe, na bateria. A mixagem e a masterização ficaram a cargo de Matheus Bittencourt, no estúdio Casa do Fundo, em Curitiba.


Ao combinar rock brasileiro e latino, punk, glam rock, bossa nova, drum and bass e passagens próximas do rock progressivo, o Terminal Guadalupe evita que a dimensão política do álbum se traduza em uniformidade musical. As diferentes escolhas de arranjo acompanham os assuntos abordados e conferem personalidade às composições, embora algumas faixas dependam mais diretamente do conhecimento dos acontecimentos que as inspiraram. Essa relação imediata com o noticiário dá atualidade ao trabalho, mas também pode limitar a compreensão de certas referências com o passar do tempo.


Ainda assim, Ensaio Sobre a Urgência encontra sua unidade na disposição de observar criticamente o presente. Depois de mais de duas décadas de trajetória, o Terminal Guadalupe transforma a indignação em matéria musical sem abrir mão da ironia, da experimentação e da reflexão social. A urgência do título está menos no volume das guitarras do que na necessidade de prestar atenção ao que acontece ao redor. Ao reunir episódios de violência, contradições morais e ameaças à democracia, o disco reafirma a política como parte indissociável da vida cotidiana - e a música como uma forma de interpretar as tensões de seu tempo.



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