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Héloa: Árida

Foto do escritor: Michele Costa
Michele Costa
há 11 minutos
3 min de leitura

Ao longo do tempo, o sertão brasileiro foi marcado por um imaginário que o associa à escassez, à seca e à falta. Esse olhar, muitas vezes massificado e reproduzido, acaba por reduzir a complexidade de um território profundamente atravessado por memórias, culturas, saberes, tecnologias ancestrais e formas de resistência. Em Árida (2026), novo álbum da cantora, compositora e multiartista afro-indígena sergipana Héloa, essa perspectiva é confrontada por meio da música. Ao deslocar a aridez do campo da carência para o da potência, a artista constrói um trabalho que reivindica outras formas de narrar o Nordeste, suas populações e suas heranças culturais.


O disco dá continuidade a uma investigação iniciada em Opará (2019) e aprofundada em yIDé (2022). Se os trabalhos anteriores já apontavam para a relação de Héloa com suas raízes e com as culturas afro-indígenas, Árida amplia esse percurso ao estabelecer conexões entre as tradições nordestinas, as matrizes africanas e as influências árabe-africanas presentes na formação cultural brasileira.


A pesquisa se traduz em uma sonoridade que aproxima forró, baião, xaxado, rojão, rap, reggae e afrobeat. Tambores, pífanos e djembês convivem com beats eletrônicos, samples e camadas de vozes, compondo uma paisagem musical que alterna referências tradicionais e procedimentos contemporâneos. Sob a direção musical de Héloa e Yuri Queiroga, responsável também pela produção e por boa parte dos arranjos, o álbum encontra na percussão de Cauê Silva um dos elementos que sustentam essa aproximação.


A variedade de colaboradores reforça essa intenção. Mestrinho, Souto MC, Maestro Spok, Luedji Luna, Tiganá Santana, Jorge Du Peixe e o grupo indígena Sabuká Kariri-Xocó estão entre os convidados brasileiros, ao lado dos angolanos Jéssica Areias e Liu Kid. As participações ajudam a construir pontes entre diferentes experiências musicais e culturais. 


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"Tempo de Semente" dá os primeiros passos da narrativa do disco, mas é com "Dança N’kisi Dança" que o diálogo com Angola ganha destaque. Com Luedji Luna e Liu Kid, a faixa celebra o Candomblé Angola e evidencia a presença de vocábulos de origem angolana no português falado no Brasil. A música transforma a ancestralidade em movimento coletivo, aproximando palavra, corpo e ritmo. Nesse encontro, a herança cultural não aparece como vestígio distante, mas como presença que continua a produzir sentidos no presente.


As releituras também ocupam um lugar importante no repertório. “Flor de Mandacaru”, de Chico César, "Charles Ilê", de Carlinhos Brown, e "De Amor Eu Morrerei", de Dominguinhos e Anastácia, são revisitadas a partir da linguagem construída no álbum. Em "Flor de Mandacaru", que ganha destaque em Árida, a participação de Mestrinho reforça o vínculo com o forró, tratado não como uma tradição imutável, mas como expressão capaz de incorporar novas interpretações sem perder sua relação com a memória e o pertencimento. A referência às paisagens nordestinas e ao Rio São Francisco amplia essa dimensão territorial.


Em "Acenda Essa Fogueira", a presença de Souto MC e do grupo Sabuká Kariri-Xocó aproxima a música dos povos originários da Caatinga e das comunidades ribeirinhas do rio Opará. A canção evidencia a importância de reconhecer os povos indígenas não apenas como parte de uma herança histórica, mas como indivíduos contemporâneos, produtores de cultura e conhecimento.


Ao final, o álbum se apresenta menos como uma tentativa de definir o sertão do que como um convite a questionar quem historicamente teve o poder de representá-lo. Héloa articula memória, experimentação e criação coletiva para reivindicar outras formas de escuta, nas quais as culturas afro-indígenas e nordestinas não apareçam como referências periféricas, mas como forças vivas da música brasileira.



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