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Maglore: Fluxo Natural

Foto do escritor: Michele Costa
Michele Costa
há 1 dia
4 min de leitura

Se há quase duas décadas a Maglore se mantém em movimento, Fluxo Natural (2026) parece menos uma afirmação do que a constatação de um percurso. O sexto álbum da banda chega depois de diferentes fases, referências e reinvenções, mas sem a necessidade de anunciar uma nova identidade a cada passagem. O fluxo, aqui, é justamente esse: continuar avançando, absorvendo o que ficou para trás e deixando que as canções encontrem seu próprio curso.


Esse movimento já estava presente em V (2022), mas sob outra perspectiva. Havia uma aproximação mais evidente com diferentes momentos da música brasileira e com uma tradição que ajudava a iluminar os caminhos percorridos pela própria banda. Quatro anos depois, Fluxo Natural não abandona esse diálogo - a diferença é que aquilo que antes aparecia como investigação agora parece incorporado à linguagem do grupo.


O passado deixa de ser destino e passa a ser parte da paisagem. Rock, mpb, pop, folk e diferentes referências da canção brasileira atravessam as onze faixas sem que o quarteto precise se deter em cada uma delas. Há uma familiaridade maior com esses elementos, como se a banda já soubesse o que fazer com aquilo que encontrou pelo caminho. É justamente nessa segurança que o disco encontra sua personalidade.


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"Sul-Americano" abre o álbum com a coragem como ponto de partida. Inspirada na trajetória de Ney Matogrosso, a faixa imagina um sujeito que precisa perder o medo de sonhar para conseguir atravessar as próprias fronteiras. "Farol", por sua vez, funciona como uma espécie de guia para o que vem depois: entre perdas, desapego e a necessidade de continuar sonhando, a canção estabelece uma relação mais íntima com a passagem do tempo e dá ao disco uma de suas imagens mais precisas.


É, porém, em "Palestina Nos Seus Olhos" que Fluxo Natural ganha força. A canção aproxima cenas domésticas - café, cuidado, o gesto de ninar - de imagens de guerra, impérios e destruição. Em vez de tratar o amor como uma abstração romântica, a Maglore o coloca diante de uma realidade concreta de violência. O contraste amplia o alcance do álbum: aquilo que até então parecia uma jornada individual passa a dialogar com um mundo atravessado por conflitos. O afeto deixa de ser apenas tema e se transforma em uma forma de resistência.


Depois da guerra, o disco retorna ao território do sonho. "Sonho Real" brinca com a fronteira entre fantasia e vida concreta, fazendo do amor uma espécie de passagem para outra realidade. A ideia poderia facilmente cair em uma balada romântica convencional, mas a faixa ganha pela ambiguidade: não fica claro se sonhar é uma fuga do mundo ou uma maneira diferente de habitá-lo. Nesse sentido, prolonga a pergunta apresentada anteriormente: diante de uma realidade difícil, o que significa continuar acreditando em alguma coisa?


"Raio de Sol" leva o amor para uma escala ainda maior. A composição de Lucas Gonçalves transforma os movimentos da Terra e a aparição da lua durante o dia em metáfora para a possibilidade de um amor duradouro. É uma imagem bonita, embora menos surpreendente do que as melhores construções do disco. "O Rio e O Mar", por outro lado, recupera a água como imagem central. Tempo, memória, saudade e reencontro aparecem reunidos na ideia de que algumas relações continuam existindo mesmo diante da distância ou da ausência. Aqui, a metáfora deixa de ser apenas decorativa e passa a organizar o próprio disco: o rio não retorna ao ponto de origem, mas também não abandona completamente aquilo que encontrou pelo caminho.


"Para Lô" muda o eixo novamente e assume a tradição como matéria explícita. A homenagem a Lô Borges parte da imagem de "Trem Azul" e ganha um arranjo inspirado na fase oitentista de Caetano Veloso. É uma faixa que poderia soar excessivamente reverente, mas funciona justamente porque evidencia aquilo que Fluxo Natural faz melhor: não reproduzir suas referências, mas reorganizá-las. A tradição deixa de ser uma moldura e passa a integrar a própria linguagem da banda.


Já "Tudo Bem", uma balada de atmosfera oitentista, procura oferecer conforto para quem está cansado do mundo. "Caravelas" encerra o percurso levando tudo de volta ao mar. A composição descreve uma paisagem de verão nas praias da Bahia, entre a baía e o alto-mar, com as ondas transformadas em montanhas de água. Depois de atravessar medo, sonho, amor, violência, memória e transformação, o disco termina diante de uma paisagem que continua em movimento. Não há uma resolução, mas uma imagem de continuidade, como se a história não terminasse quando a última faixa acaba.


O álbum não constrói uma narrativa linear, mas estabelece uma trajetória emocional: começa pela coragem de partir, atravessa as perdas e os afetos, olha para as contradições do mundo, revisita referências e termina diante do mar. Dessa maneira, a banda não precisa mais escolher entre permanecer e mudar. Seu fluxo está justamente nessa capacidade de absorver o que veio antes sem ficar presa a ele. O rio segue para o mar, a banda segue seu lindo caminho.



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