Os fantasmas de Yuri Costa

Uma caixa torácica pintada à mão ocupa o centro da capa de Meio que Todo Mundo é o Fantasma de Alguém (2026), primeiro álbum de estúdio de Yuri Costa com banda. Sobre o fundo escuro, pinceladas contornam os ossos, expondo aquilo que costuma permanecer escondido sob a pele. Sem rosto ou corpo que permita reconhecer quem um dia esteve ali, a imagem sugere uma presença pela ausência. Há algo de familiar e inquietante nessa estrutura: mesmo quando a matéria deixa de existir, restam vestígios de sua passagem. Em seu novo disco, o carioca persegue essas marcas: as pessoas que partiram, os afetos que mudaram de forma e as versões de si mesmo que continuam a acompanhá-lo.
A trajetória do compositor começou em 2013, quando, aos 15 anos, lançou Fita Perdida. Desde então, Yuri construiu uma discografia independente, muitas vezes com apenas voz, violão e um celular. Foram oito trabalhos entre álbuns e EPs, além de singles e gravações que circularam pelo YouTube. A simplicidade desses registros não impediu que as canções encontrassem outros ouvintes, aproximados por letras confessionais e melodias que pareciam guardar algo de cada um. Em 2023, esse vínculo ganhou uma expressão coletiva com Ninguém é Forte Sozinho (Seloki Records), compilação que reuniu artistas independentes de diferentes partes do Brasil em homenagem à sua obra. As músicas, antes restritas ao gesto individual de compor e gravar, já habitavam outras histórias.
Produzido ao lado de Arthur Xavier, o álbum foi desenvolvido ao longo de dois anos, com gravações no LF Studio, na Vila Vintém, Zona Oeste do Rio de Janeiro, e em outras locações. Metais, flautas transversais, sintetizadores e atabaques ampliam a sonoridade de um repertório que atravessa referências ao jazz, ao samba, ao blues e ao bolero. Os novos arranjos, porém, não apagam a delicadeza das primeiras gravações. As pausas e os silêncios continuam a ocupar espaço nas canções, como se nem toda ausência precisasse ser preenchida. Entre os instrumentos, a voz e aquilo que permanece suspenso, o disco preserva a proximidade de quem parece cantar não apenas para alguém, mas também com tudo aquilo que o acompanha.
Parte das composições foi escrita há cerca de dez anos e circulou durante muito tempo em versões acústicas, como “Joy Division”, “Vermelha”, “Perturbação Psíquica” e “Geografia”. Ao reuni-las em um mesmo trabalho, Yuri Costa reencontra canções que atravessaram diferentes momentos de sua vida e que também ganharam significado para quem as escutava. O passado, aqui, não aparece como um território encerrado, mas como algo que insiste em retornar. O compositor que escreveu essas músicas já não é exatamente o mesmo que agora as interpreta, embora reconheça nelas os vestígios de quem foi. As canções mudam de corpo, ganham outros instrumentos e novas camadas, mas preservam algo de sua origem - como fantasmas, seguem presentes sem precisar permanecer iguais.
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Ao longo desses anos, você lançou músicas, álbuns e EPs sem necessariamente seguir o percurso tradicional da indústria musical. Em que medida a liberdade de fazer música nos seus próprios termos moldou a sua identidade artística?
Eu nunca segui um caminho, um trajeto. Eu comecei a gravar músicas com meu Ipod, lançar no Soundcloud e movimentar comunidades, ou melhor, criá-las. Eu comentei sobre o Ipod porquê só fui ter um telefone celular mais velho, aos dezoito anos. Sinto que isso moldou minha forma de lidar com as redes, eu tinha um encanto com as possibilidades da conexão e eu sempre fui muito tímido. Lembro que comecei a fazer música para me soltar mais e conseguir me comunicar, e isso moldou minha forma de fazer música. Assim, gravei em casa, com aparelhos disponíveis na época das minhas primeiras demos. Eu ficava buscando no YouTube como gravar em casa, quais as melhores formas de captar um áudio de celular, como usar o Garageband (aplicativo nativo do IPhone para gravação e edição de músicas). Eu acho que estava bem distante da indústria musical, mas alinhado à um tempo. Surgiam artistas estrangeiros com “bedroom pop” e o termo “lo-fi” ficou mais popular. Eu sinto que estive nesse bolo da década passada, mas, enquanto o termo tomava lugares de estética para mim, caminhava como necessidade e uma forma de fazer. Eu queria demonstrar que podemos fazer, mesmo que não haja todos os instrumentos a nosso favor.
Você descreve Meio Que Todo Mundo é o Fantasma de Alguém como um fechamento de um longo ciclo artístico e pessoal. O que precisava ser encerrado para que esse disco existisse? Você sente que conseguiu dizer algo agora que talvez não fosse possível ter dito antes?
Eu li essa pergunta tantas vezes e eu busquei peneirar minhas respostas para que sobrasse algo mais real, talvez eu mude de ideia depois, mas vamos lá: adolescência. Engraçado pensar como dez anos não significam nada na história individual, mas ao serem encarados por outro prisma podem ser bem maiores. O encerramento da adolescência não é necessariamente a idade, até porque dessa passei faz tempo, mas é que o disco já nasce ironicamente morto. Mais da metade das músicas foram escritas a quase uma década, elas reverberam alguns sentimentos que já não estão mais presentes, mas que assumem outro posto.
Se eu considerasse o tempo de produção das letras poderia desenhar uma linha que começa comigo sendo um recém ingresso estudante na graduação e termina comigo agora pai e professor. Algo meu morreu e renasceu muitas vezes aí, e assim eu sinto que agora consigo dizer de forma mais sincera do que anteriormente. Algumas das canções me embaraçam um pouco, mas é esse o poder também da adolescência, sentir que está certo em tudo! Esse impulso é lindo! Mas, agora sinto que sei reconhecer até onde me excedi.
É o seu primeiro álbum com banda. Quando você percebeu que as canções precisavam de outros instrumentos e uma sonoridade mais ampla?
Eu deveria ser mais estratégico, mas eu não sou. Certo dia um amigo me propôs a ideia de formar uma banda para cantar minhas músicas, e eu me questionei por um bom tempo se fazia sentido. Ganhei uma oportunidade para participar de um programa chamado MTRock, que tinha como premissa apresentação de bandas, assim, eu lembrei dessa história de formar uma banda e criamos. Foram anos de laboratório e contribuição coletiva para arranjos a partir de músicas que já eram conhecidas. Lembra que eu falei que criei uma comunidade? Então, fiz isso via redes, mas também em vias presenciais, conheci muitas pessoas nos últimos dez anos. Outros artistas e tive o prazer de que viessem a minha casa e pudéssemos trocar ideias, músicas e etc. Logo, formar uma banda com os meus amigos pareceu tão natural quanto um dia de encontro. Eu queria que fosse leve, que tivéssemos um clima bom, pudéssemos ensaiar, marcar shows e que isso fluísse. A partir dos ensaios e do lançamento do meu primeiro EP com banda Anjo Elétrico (2024) comecei a me inspirar mais para arranjos com banda completa e assim houve uma aproximação do meu já amigo e agora produtor Arthur Xavier para esse disco.
O título do álbum surgiu em um sonho, durante uma viagem a caminho da Central do Brasil. O cotidiano, nesse caso, parece ter aberto uma passagem para algo quase sobrenatural. Você costuma encontrar suas ideias nesses momentos de deslocamento, quando está fora do lugar habitual?
Eu me encontro quando costumo buscar me perder, é me perder de forma consciente. Então, eu costumo estranhar as coisas, estar atento para sinais, palavras que se repetem, imagens que não saem da minha cabeça. A música está ali em algum lugar esperando para ser ouvida. Sei que existem os métodos de construção de uma canção, não às descarto, mas no processo inicial enquanto nada existe me coloco em suspenso para poder observar a mim assim vasculho os sonhos, os livros e o que vier.
O título sugere continuarmos existindo na memória de outras pessoas, mesmo quando já não fazemos parte das suas vidas. Para você, ser um fantasma é permanecer como lembrança ou também significa continuar interferindo na vida de alguém, mesmo à distância?
O Fantasma no título vai além do processo palpável, é como se estivéssemos constantemente convivendo com o Fantasma e nós também somos ele em coisas menores, não de forma intencional. Não uma interferência intencional, quero dizer. É quando sinto o cheiro de um perfume que alguém muito próximo usava ao passar na rua e identifico esse cheiro em um desconhecido. É um conhecido que também é desconhecido, algo novo e velho ao mesmo tempo. É observar os traços da idade na sua mãe em uma conversa ocasional, você mesmo que queira não conseguirá evitar de pensar, mesmo que queira evitar o Fantasma voltará sem consulta.

Você menciona ex-amores, amizades que se distanciaram e familiares que partiram como presenças que continuam a nos habitar. O disco parece tratar a memória menos como um arquivo do passado e mais como algo que permanece em movimento. Como essas relações antigas continuam transformando quem você é atualmente?
Elas me testam. Eu tô sempre me questionando se estou certo, apesar de sempre estar certo pra mim, até me confrontar. Ironicamente, cantar sobre uma coisa por tanto tempo te testa quando você retorna ao fundamento daquilo que você canta ali. Eu penso se fui tão bom, se eu poderia ter mudado algo, se a outra pessoa tivesse feito e se e se se e se, até acordar de um torpor e encara que tenho o aqui e agora. Aí, ao retornar nas músicas eu as vejo como fotos de outras época que eu abri para que o público encare como espelho e possa ver ele mesmo o que ele quer ver.
A ideia de fantasmas costuma estar associada ao medo, aquilo que não conseguimos resolver ou deixar para trás. No disco, essas presenças também aparecem carregar afeto e pertencimento. Você acredita que algumas lembranças precisam continuar nos “assombrando” para que não desapareçam por completo?
Engraçado, algumas das músicas eu escrevi num processo de luto pela morte da minha avó. Aos poucos vamos esquecendo das coisas, das coisas imediatas, das brigas e sobram outras. Sobram lembranças tão específicas e que podem nunca alcançar outras pessoas. Certo dia, brincando com minha filha que hoje tem quatro anos, falei com ela sobre minha avó. Me toquei que ela nunca conheceu e nem saberá quem é sua bisavó, tentei ensinar a dançar miudinho. Não sei se é preciso uma arbitrariedade de memórias que nos assombram, mas que elas nos movam e nos tirem de estado de torpor através do espanto. Somos finitos, que sejamos memórias felizes e que alguém algum dia tente traduzir isso. Tentei explicar para minha filha quem era sua bisavó, e depois chorei ao som de "Foi Batendo o Pé na Terra" [presente em Rastilho (2020)] de Kiko Dinucci ao lembrar como minha vó sambava miudinho.
No relato sobre a origem do título, você termina com uma pergunta: “quem assombra quem?” Pensando nas relações humanas, será que somos assombrados pelas pessoas que perdemos ou também pelas versões de nós mesmos que deixamos para trás?
Galera… Cês me lembraram que preciso marcar uma sessão com a psicóloga. Sinto que são ambos os casos, mas, o peso de ser assombrado pelas suas versões pode ser pior caso não haja uma conciliação. Isso é bem difícil. Um filme que me deixa sempre pensativo sobre é o Os Fantasmas de Scrooge (Robert Zemeckis, 2009), os fantasmas dos natais. Mas, tal qual o perfume, o Fantasma do disco não espera datas, ele apenas irrompe do nada, sem aviso. É muito mais difícil quando você sente mais medo do espelho do que do escuro.
"Não sei se é preciso uma arbitrariedade de memórias que nos assombram, mas que elas nos movam e nos tirem de estado de torpor através do espanto. Somos finitos, que sejamos memórias felizes e que alguém algum dia tente traduzir isso."

A frase “o meu outro que também sou eu não se sinta tão só”, de “Aderência (Dispersão do Espírito)”, existe uma espécie de diálogo entre diferentes versões de uma mesma pessoa. Como você entende essa relação com o próprio outro? É possível pensar a identidade como uma convivência, nem sempre pacífica, entre aquilo que somos e aquilo que imaginamos ser?
Penso numa mistura de tanta coisa, acho que uma visão muito bonita que guardo de forma visual é o final da minissérie Capitu (Luiz Fernando Carvalho, 2008) em que Bentinho é Casmurro, mas também toda a família. A casa de Matacavalos construída tal qual a primeira. Aprendi que não há vitória, não há linha de chegada, mas isso não basta para ambição de querer ser exatamente aquilo que posso ser, e sem querer tudo que eu tanto quis ser me ultrapassa e eu deixo de ser quem fui e agora sou o que nunca sonhei. Esse disco é isso: quantas noites adolescentes eu sonhei com meu primeiro disco? Muitas. Ele é o que sonhei? Não, é melhor por nunca ter sonhado. Eu não sei bem que eu sou.
Ainda na mesma música, você diz que está criando vícios imaginários, apontando para refúgios que inventamos. Em que momento a imaginação deixa de ser apenas uma fuga e passa a funcionar como uma maneira de compreender o que acontece ao redor?
Sinto que para isso eu criei um filtro, é quando eu sinto que já estou na trilha do que imaginei. Eu não acredito que a imaginação sozinha resultará em muita coisa, sem a aplicação, mas imaginar para mim é como motor. Não sobreviveria sem imaginação, porque não poderia reconstruir pouco a pouco aquilo que eu acredito.
Já em “Geografia” você canta “criei meu mundo, o grande mundo, sem conhecer um escritor”. A frase é interessante porque existe uma leve contradição entre inventar um universo próprio e descobrir depois, que outras pessoas já haviam encontrado palavras para experiências semelhantes. Como a literatura e a ficção científica transformaram a maneira como você compreende a si mesmo e o mundo?
Eu costumo ler bastante poesia, livros de romance e de ficção científica. Gosto também de livros teóricos, atualmente tenho gostado muito de ler Oráculo da Noite do Sidarta Ribeiro. A frase é uma referência direta a poesia “Mundo Grande” de Carlos Drummond de Andrade em que diz: “De que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias entre o fogo e o amor”, assim, a literatura vai sendo costurada nas poesias de forma consciente e outras vezes eu mesmo me surpreendo com alguma referência escondida de uma época em que eu estava lendo mais alguma coisa ou outra.
A imagem que você cria em “Perturbação Psíquica” através da estrofe “sinto a infiltração na parede da minha alma”, transforma o sofrimento em algo que atravessa lentamente uma estrutura aparentemente sólida. Você costuma encontrar imagens concretas para traduzir sentimentos difíceis de nomear?
Eu acho mais fácil tentar me aproximar do que eu sinto através do que já existe, dos objetos, das paisagens, cenários e cores. Sinto que não encontro as imagens, sinto que eu tropeço nelas, é como se já existissem e a partir do outro olhar são reveladas. A imagem da infiltração, do mofo, de certa forma são muito comuns em casas do subúrbio, são também a permanência de algo que sempre volta. Essa é uma canção que fala sobre essa insistência, e é a única que eu não escrevi totalmente. Quem escreve é minha companheira Danca Mesquita, mãe da minha filha, a quem tanto admiro, mas que na época era apenas uma colega de faculdade que ao me ouvir falar sobre sonhos constantes com minha ex-namorada tornou poesia e eu traduzi como música.
O verso “tudo que eu escrevo não cabe nas palavras”, de “Vermelha”, sugere um limite da própria composição: mesmo quando tentamos traduzir um sentimento, alguma coisa escapa. Você escreve para compreender o que sente ou porque a sensação de não conseguir compreender completamente também faz parte do processo criativo?
Eu sinto que o que escapa é meu motor para continuar escrevendo, tal qual um pintor que repetia o mesmo cenário, mas com outras tintas, outras épocas do ano e assim vai. Tipo Monet. A visão, a luz, o cenário e as cores, e ainda assim, algo escapa. Não sei se foi o processo intensivo na literatura psicanalítica do último ano, mas tenho ficado mais em paz com isso. Ao que escapa eu dedico ao Fantasma.
O disco parece transitar entre dois movimentos: a tentativa de preservar o que passou e a necessidade de seguir adiante. Existe alguma contradição entre esses desejos? Para continuar vivendo, precisamos deixar certos fantasmas para trás ou aprender a conviver com eles?
Existe uma tensão tão grande entre esses estados de passado-presente-futuro. Eu me torno semente e espírito, e acredito no caos. Ao começar a busca por uma capa não havia ideia do que seria, tinha alguns rascunhos e imagens de referência de colagens e uma cor principal [a cor verde], assim, sabia ao menos de algo, busquei a pintora Isabela para consultar e ela por coincidência havia começado o esboço de uma caixa torácica, o que ela não sabia que por questões de saúde eu precisei realizar diversos exames e dentre eles um que havia realizado era um raio-x do pulmão, assim senti o Fantasma. Era como se minha vida em vigília fosse a do sonho, ou vice-versa, era um sinal, assim aceitei o que escapava. Ainda é tenso, seguir em frente não é o mesmo que largar tudo para trás, existem os símbolos, signos e outros penduricalhos que carregamos conosco. Eu preservo como casa, ruína, igreja, terreiro, terreno baldio, primeira infância e colo de mãe, tal qual John Ruskin um dos teóricos do restauro que estudamos no curso de museologia, adoto uma postura meio de não restauro e conservação de afetos.
Não retornaremos ao momento inaugural - e quem sabe ele nem tenha existido de verdade -, me encanto com o desgaste e com a alteração da natureza, por isso admiro tanto Daniel Johnston - apesar de jamais seguir sua obsessão, consigo ver sem sua discografia como ele olha para uma mesma pessoa de diversos ângulos e sentimentos. Ele em uma passagem internado grava a si cantando para uma marca de refrigerantes e esbraveja que lá vem os demônios, para mim, deixo apenas o fantasma.
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