• Michele Costa

Os caminhos de Matheus Noronha

O cantor e compositor Matheus Noronha precisou caminhar muito pela cidade argentina de Carlos Paz, localizada na província de Córdoba, em 2015, para apresentar o recente single "Camino de Carlos Paz", disponível em todas as plataformas de streaming de música, com a participação dos músicos Pedro Borghetti e Rodrigo Carazo.


No centro da cidade de Carlos Paz, a atração fica por conta do Relógio Cuco. Dizem que as pessoas se aglomeram em volta do ponto turístico para ver o cuco anunciar as horas. Não são todos que conseguem ver o animalzinho saindo de seu casulo para fazer o seu "trabalho". Não sabemos se Matheus passou por ali, também não precisamos saber, já que dentro da sua mochila há muitas histórias e sentimentos. No meio da jornada, sentiu de tudo, até que um dia a solidão o invadiu - até o destino colocar duas crianças em seu caminho.


Após breve conversa, o músico conseguiu passar a noite na casa da família, onde jantaram juntos, conversaram e Matheus tocou e cantou para os anfitriões. No dia seguinte, Noronha voltou para sua caminhada, continuando seus passos. Mais tarde, conseguiu outra carona e mais uma vez a sorte estava ao seu lado: o motorista estava indo para a cidade de Mina Clavero, a próxima parada de Matheus. "Parece até mentira, mas foi assim, e em 2016 a história virou letra e canção", explica. Ele lembra com carinho da experiência e diz que a ocasião fez "melhorar a estima pelas pessoas", pois na época andava desacreditado e magoado.


Em "Caminhar: Uma Filosofia" (É Realizações, 2011), o filósofo Frédéric Gros faz uma reflexão sobre caminhar, explorando junto a literatura, a história e a filosofia, apresentando a importância da caminhada para grandes pensadores. Em um determinado momento do livro, o autor escreve: "A experiência da caminhada constitui sem dúvida uma reconquista, porque, ao submeter o corpo a uma atividade demorada - que traz alegrias, mas também cansaço e tédio - faz surgir, com o descanso, a plenitude, essa segunda alegria, mais profunda, mais fundamental, ligada a uma afirmação mais secreta: o corpo respira tranquilamente, eu estou vivo e aqui".


Ao caminhar, Matheus Noronha estava vivo, juntando seus pedaços para encontrar o seu próprio caminho - o Camino de Carlos Paz.


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No início do mês, você lançou o single "Camino de Carlos Paz", baseado em um mochilão que fez. Como surgiu a ideia de fazer essa viagem e como ela te influenciou na sua carreira musical?

A viagem surgiu como ideia em 2014, logo após terminar o curso de fisioterapia. Queria novas experiências e andava bastante chateado com algumas pessoas e eventos que tinham acontecido. Decidi sair para compartilhar dos meus conhecimentos, tempo, e para conhecer a cultura latino americana de perto. O Brasil possui essa barreira linguística e geográfica, e queria entender melhor o nosso continente com vivências. O estímulo inicial foi justamente a música e a língua ibero-americana.


"Camino de Carlos Paz" conta com participações de Pedro Borghetti e Rodrigo Carazo. Como você chegou na escolha dos músicos?

Tive a oportunidade de conhecer os dois em um festival muito especial de cancionistas que acontece no Uruguai, chamado "Festiva Serenadas". Fui dois anos seguidos e tive um primeiro contato com ambos em 2019. Em 2020 estive mais próximo do Pedro pela função de organização de casas e a galera que já foi reunida. Rodrigo Carazo também foi sempre muito receptivo e super aberto às conversas. A escolha do Rodrigo foi pelo fato de que a história da canção se passa em Carlos Paz, cidade da província de Córdoba/Argentina, onde Rodrigo atualmente mora. Ao fazer o convite mandei junto uma cartinha contando como a canção surgiu. Ele topou e me explicou que Carlos Paz também havia feito parte da vida dele de maneira especial. O Pedro surgiu como uma ideia por ele ter como instrumento principal o Bombo Leguero, que é de origem Argentina. Pedro toca de maneira muito especial, única. Não tinha como pensar em outra participação. Assim como o Rodrigo, que eu considero um dos melhores cantautores que já ouvi. Foi muito fácil pensar neles. O difícil foi convidar, mas felizmente eles aceitaram!


Suas músicas são compostas com diversos elementos, como o folk, o indie e milonga. Como esses gêneros musicais surgiram na sua vida e o que te levou a colocá-los em suas canções?

Entraram com o consumo de artistas que transitam entre os gêneros. As audições de Vitor Ramil foram um marco na minha vida e ali comecei a tomar gosto pela milonga. Do Vitor fui pra cancionistas que também trabalham com o folclore da Argentina, Uruguai e Rio Grande do Sul. Passei a beber muito desta fonte, e o folclore acabou sendo incorporado naturalmente. Por incrível que pareça não tenho milongas compostas, mas sem dúvida foi ela que iniciou no folclore. Não sou um folclorista tradicional, e acredito que minha canção se encaixe no gênero indie justamente por não tratá-la de maneira tradicional, além de também ter referências em artistas indie/folk que trabalham com elementos do folclore tradicional, como o violão nylon. Um exemplo desses artistas seria José Gonzales, artista nascido na Suécia mas de família argentina radicada no país.


Suas canções são acompanhadas de uma história, algo que você passou. Podemos entender que o seu processo de criação é extremamente pessoal, já que você precisa vivenciar o momento para depois transformar em música?

Eu acredito que esteja muito vinculado ao meu processo inicial de composição. Hoje já não trato as vivências com tanto peso. Procuro compor de maneira mais "técnica" - eu acredito que tenho mudado bastante a maneira com que enxergo meu processo de criação. Possuo mais ferramentas para criar e também para expor as minhas experiências nas canções. O EP teve um processo longo de criação muito por inseguranças e pelo fato de as canções terem uma carga emocional muito grande.



Você escreve canções em português, espanhol e inglês. Existem diferenças no momento de escrever? O que te levou a compor em outros idiomas?

Eu percebo que costumo escrever as canções em espanhol e inglês referenciado em livros ou alguma fonte de informação mais pontual. A canção "Flotoando", escrita em inglês, foi totalmente baseada no livro "The Yearning", da escritora sul-africana Mohale Mashigo. Acredito que seja um processo até menos complexo do que escrever em português, porque como tenho um vocabulário mais delimitado na minha prática e experiências, tudo se torna mais direto. Eu dou aulas de inglês há alguns anos e sempre tive contato com a língua por interesse ou necessidade. Traduzo trabalhos na área da saúde e ponho muita energia nas minhas viagens. Sou curioso! Acho que isso me levou inicialmente a compor em inglês.

O meu repertório, desde a adolescência, sempre conteve muito do inglês, comecei escrevendo em inglês por achar interessante. O espanhol entrou mais recentemente, depois de viajar pela América Latina em 2015. Aprendi consideravelmente bem o "argentino". A minha experiência foi muito marcante em córdoba/arg, onde fiquei mais tempo, e depois nos países que passei. Não falava quase nada de espanhol antes de viajar e depois que me apaixonei pela cultura e pela língua foi difícil parar de ler e me envolver com o espanhol. Curioso porque o espanhol entrou na minha vida junto com a vontade de me aperfeiçoar como músico e logo depois com a vontade de trabalhar profissionalmente nas minhas canções.


Em "Flotoando" e "I Saw You" é possível verificar o mar, a necessidade de mergulhar (literalmente) para alcançar e/ou transformar em algo. O ato de mergulhar me parece importante para você. Você pretende fazer com que o ouvinte mergulhe junto com você?

Apesar das canções terem sido criadas em processos muito singulares, todas convergem para uma mesma sensação de algo que está sendo aberto, iniciado. A busca de vínculo entre elas no EP, mesmo que não seja conceitual como em um álbum com processos bem definidos, é justamente para tentar as sensações que tive com esse início de carreira. As canções tiveram processos de produção muitas vezes densos para tentar buscar o que tem de mais genuíno. Claro, como primeiro trabalho é difícil ser "claro" com essa tentativa, mas o mergulho do ouvinte é tudo o que um compositor quer. Espero que as pessoas possam mergulhar nos detalhes das letras e dos arranjos. Aproveito para fazer o convite de um mergulho por aqui também.


Suas canções não se prendem em apenas um fator, elas seguem diferentes caminhos, lembrando que é possível sentir e mergulhar nas diferentes questões que surgem e é bom para voltar com mais forças. Para você, mostrar essa questão, aumenta a pressão para criar novas canções que dialoguem com o público e com o momento em que estamos passando?

Não sei dizer se aumenta a pressão. O trabalho teve características do período pandêmico que vivemos, fizemos muitas coisas isolados sem compartilhar sentados um ao lado do outro. Porém, não criei nada expressamente relacionado ao momento atual. O vínculo com o público acredito que esteja sendo construído agora e é o trabalho em si, tenho como objetivo esse diálogo com as pessoas que me ouvem. Assim como eu sinto reconhecimento em sons que ouço, quero muito que as pessoas se sintam abraçadas ou contempladas no que está sendo dito. Acho que aí mora o trabalho como compositor, criar esse vínculo com coisas que a gente vive e sente.


"Camino de Carlos Paz" é o último single a ser lançado. O EP de Matheus está sendo finalizado e será lançado em maio pelo selo Escápula Records. Serão quatro canções, sendo duas inéditas.


Seu EP sai no mês que vem! O que podemos esperar dele?

Podem esperar o desenvolvimento da minha estética musical, uma assinatura sendo criada. Além, claro, das participações de artistas incríveis. Também uma cara nova para uma canção que já havia sido lançada, chamada "El Paso Que Va Cambiando" e um projeto gráfico lindo que tem feito muita diferença no processo de lançamento.


Após o lançamento do EP, o músico pretende fazer algumas lives com a banda para compartilhar com o público sua caminhada. Além disso, ele também está no processo de pré-produção de um novo álbum que pode sair no ano que vem. Agora, é só esperar a vacina para caminhar ao lado de Matheus Noronha.

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