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João Pimenta Gomes: Dois Desertos

Foto do escritor: Michele Costa
Michele Costa
há 14 horas
3 min de leitura

Existem cidades que se revelam aos poucos, nos ruídos que escapam das ruas, nas imagens que se acumulam pela janela e na sensação de estar em um lugar sem necessariamente fazer parte dele. Em Dois Desertos (Amor In Sound, 2026), novo álbum do artista visual e músico português João Pimenta Gomes, Los Angeles aparece sob essa perspectiva: menos como um território a ser decifrado do que como uma paisagem aberta à contemplação, atravessada por impressões, deslocamentos e possibilidades. Longe da urgência de registrar uma experiência, o músico transforma o encontro com a metrópole em um exercício de escuta, no qual realidade e imaginação parecem compartilhar o mesmo espaço.


O disco reúne nove faixas gravadas em um único dia, durante uma estadia do artista na cidade norte-americana. Sem agenda ou roteiro prévio, o trabalho nasceu de um processo espontâneo, conduzido pela experimentação e pela disponibilidade dos músicos para acompanhar os caminhos que surgiam durante a gravação. Com produção de Mario Caldato Jr. e participação de Abe Rounds, na bateria e percussões, e Gabe Noel, no contrabaixo e cello, Dois Desertos parte de partituras simples, algumas estruturadas apenas sobre indicações harmônicas. A aparente economia de elementos, entretanto, não limita as possibilidades da composição. Pelo contrário, abre espaço para que os instrumentos encontrem suas próprias direções, em uma construção que valoriza tanto a escuta quanto a liberdade de execução.


No centro dessa paisagem sonora está o cristal baschet, instrumento de origem francesa que produz sons por meio da fricção de varas de vidro contra chapas de metal. Em vez de assumir o protagonismo melódico, ele funciona como uma espécie de matéria atmosférica, produzindo texturas que atravessam as composições. João descreve seu som como “um rastro, quase como uma sombra”, definição que ajuda a compreender a presença discreta, mas determinante, do instrumento. Enquanto o cristal baschet estabelece essa camada sonora, o contrabaixo e o cello conduzem as melodias, alternando composições originais com passagens inspiradas em fados tradicionais, tratados de maneira aberta. A mixagem, também realizada ao vivo por Caldato Jr., acompanha esse espírito experimental, com efeitos e volumes trabalhados em tempo real, preservando a espontaneidade da sessão.


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A construção desse olhar estrangeiro sobre a cidade também encontra referências no cinema. Entre elas estão The Model Shop (Jacques Demy, 1969) e o filme-ensaio Los Angeles Plays Itself (Thom Andersen, 2003). Em comum, as duas obras investigam as maneiras pelas quais a metrópole se apresenta e constrói sua própria imagem, seja como cenário de experiências anônimas, seja como personagem de suas narrativas. Essas referências ajudam a compreender a perspectiva adotada por João: observar a cidade sem a pretensão de prendê-la por completo, reconhecendo a distância entre aquilo que se vive e aquilo que se imagina. 


João Pimenta Gomes desenvolve uma pesquisa artística que aproxima música, imagem e objetos, explorando as relações entre espaço e corpo por meio de sintetizadores modulares, vídeos e diferentes dispositivos analógicos e digitais. Em sua trajetória, a performance e os encontros ao vivo ocupam um lugar importante, ampliando a experiência artística para além da obra acabada. Essa investigação entre diferentes linguagens também se manifesta em Dois Desertos, no qual a experimentação sonora se aproxima de uma composição visual e sensorial, sem estabelecer fronteiras rígidas entre música e artes plásticas.


Entre a composição e o improviso, o álbum se recusa a oferecer uma conclusão definitiva ou a conduzir o ouvinte por um percurso inteiramente delimitado. Sua força está na capacidade de sustentar uma atmosfera sem transformá-la em mero exercício contemplativo. Se, por um lado, a economia das partituras e a repetição de determinadas estruturas podem tornar a experiência menos imediata, por outro, é justamente nessa contenção que o trabalho encontra sua identidade. 


As faixas formam uma peça em desenvolvimento, aberta às variações de quem toca e às interpretações de quem escuta. Mais do que traduzir musicalmente uma cidade, João Pimenta Gomes transforma a distância entre o lugar vivido e aquele imaginado em matéria sonora. Em Dois Desertos, a viagem não parece ter um destino: o que importa é permanecer em movimento.



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