Antonio Neves & Thiaguinho Silva: Ladeiras de Santa Teresa
- Michele Costa

- há 2 horas
- 3 min de leitura
Uma das melhores maneiras de conhecer o Rio de Janeiro é caminhar pelas ruas de Santa Teresa. Há as ladeiras que obrigam o corpo a diminuir o passo, o bonde que atravessa o bairro como uma lembrança ainda em movimento, os bares, os ateliês, os casarões e a música que parece surgir de alguma esquina antes mesmo de ser possível encontrá-la. A geografia do local dá o tom de Ladeiras de Santa Teresa (Far Out Recordings, 2026), de Antonio Neves e Thiaguinho Silva.
Com pouco mais de 23 minutos e seis faixas, o EP parte da tradição do samba-jazz - música instrumental brasileira que floresceu entre o samba, a bossa nova e o jazz nos anos 1960 -, mas não se limita a reproduzir a sonoridade daquele período. A escolha faz sentido porque a dupla devolve o gênero às ruas, incorporando hip-hop, groove, improvisação e a informalidade carioca. É tradição sem reverência excessiva; memória sem transformar o passado em prisão.
Antonio e Thiaguinho chegam a esse encontro carregando importantes heranças musicais. Neves, filho do saxofonista Eduardo Neves, transita entre bateria, trompete, trombone, guitarra, composição e arranjo. Silva, filho do lendário baterista e percussionista Robertinho Silva, construiu uma trajetória marcada pela percussão e por uma escuta atenta aos diferentes sotaques da música brasileira. O encontro entre os dois começou a ganhar forma durante a pandemia e já havia deixado um primeiro registro em “Das Neves”, faixa gravada para a compilação Hidden Waters: Strange and Sublime Sounds of Rio de Janeiro, em 2023.
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O EP, porém, não é exatamente um trabalho de dois músicos isolados em torno de seus instrumentos. Embora os artistas estejam no centro da criação - com bateria, percussão, sopros e outros instrumentos assumindo diferentes funções -, Ladeiras de Santa Teresa se constrói a partir da colaboração. Luiz Otávio, Guto Wirtti, Oswaldo Lessa, Eduardo Santana e Eduardo Neves participam do disco, ampliando suas possibilidades melódicas e rítmicas. Kassin assina a mixagem, enquanto Marcelinho da Lua participa da gravação. A música parece, assim, obedecer à própria lógica do bairro que lhe empresta o nome: ninguém sobe uma ladeira sozinho por muito tempo.
“Das Neves”, que abre o trabalho, já apresenta esse princípio. Sopros anunciam a faixa antes de piano, baixo e percussão costurarem uma combinação de samba e jazz. Em “Fendas Vocais”, a cidade parece acelerar. O jazz-funk ganha protagonismo, a guitarra cria um movimento quase sinuoso e a percussão de Silva injeta uma pulsação que impede a faixa de se acomodar. É um dos momentos em que a proposta do EP se torna mais evidente: o samba-jazz não é tratado como uma linguagem encerrada em determinado período, mas como uma estrutura aberta a outros ritmos, sonoridades e gerações.
Em “Viagem de Trem”, a participação do rapper JOCA reforça essa abertura. O encontro entre freestyle e jazz funciona porque ambos dependem da escuta, do instante e da capacidade de reagir ao que acontece ao redor. Já “Romênia” percorre outro caminho. A faixa traz uma atmosfera de nostalgia e sofrência, fazendo a melodia crescer gradualmente até se tornar um dos pontos altos do EP. Há nela uma melancolia que contrasta com a vitalidade das faixas anteriores e amplia o alcance emocional do trabalho.
A narrativa criada em Ladeiras de Santa Teresa acompanha as subidas e descidas do bairro. Santa Teresa não funciona apenas como cenário, mas como uma espécie de princípio organizador das composições. O local possui uma longa ligação com artistas, músicos e casas dedicadas à música instrumental, e a dupla reconhece essa continuidade como parte da identidade do projeto.
Por isso, talvez seja equivocado ouvir Ladeiras de Santa Teresa apenas como um trabalho de música instrumental. Há uma dimensão urbana muito forte em suas seis faixas. Mesmo quando a voz aparece em apenas uma canção, existe uma narrativa: a cidade se move através dos instrumentos. O bonde poderia estar passando ao fundo; alguém poderia surgir de uma esquina; uma roda de samba poderia começar no bar ao lado; um rapper poderia improvisar algumas rimas antes de desaparecer pela próxima rua.
“Misericórdia”, responsável pelo encerramento, entende que nem toda ladeira precisa ser vencida correndo. Depois da pulsação das faixas anteriores, a música desacelera e encontra um samba-jazz mais delicado, conduzido por guitarra de nylon, baixo, trombone, piano, saxofone e percussão. É uma despedida que não encerra completamente o percurso deixa a sensação de que ainda há outra esquina a dobrar.
Antonio Neves e Thiaguinho Silva pegam uma tradição conhecida, retiram dela a poeira e devolvem-na à rua. O que se ouve, então, é menos uma reconstrução do samba-jazz do que uma fotografia sonora do Rio de Janeiro contemporâneo: imperfeita, inquieta, cheia de curvas e, sobretudo, ainda em movimento.
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