• Michele Costa

Impressões: Vermelho Amargo

A capa é dura e vermelha. O título carrega também a palavra “vermelho”. Vermelho como o sangue, o coração, a rosa, o tomate. Aliás, o tomate é a fruta que fez parte de toda a história de Bartolomeu Campos de Queirós. Em "Vermelho Amargo" (Global Editora, 2017), o autor narra suas memórias de infância e a dolorosa perda da mãe aos seis anos. Bartolomeu se derrete, sangrando como o sangue vermelho que está em nossos corpos - mas seu coração vermelho pulsa, transbordando também amor.


"Foi preciso deitar o vermelho sobre papel branco para bem aliviar seu amargor". É com essa frase que Bartolomeu começa a contar seu passado. O mineiro morava com os pais e os irmãos quando descobriu que o silêncio poderia ser amargo e a vida dolorosa. Ao perder repentinamente a mãe, sentiu-se só e foi com essa solidão, que carregou durante toda sua vida, que começou a escrever - "Começou a escrever quando estava exilado na França, na década de 1960, para aplacar a solidão", diz sua biografia.


Uma nova mulher aparece em sua vida. Casa com seu pai, tornando-se sua madrasta. Ao preparar o almoço, a mulher (de um jeito ou de outro estranha) sempre usava tomates vermelhos, como o sangue, o coração, a vida. Bartolomeu começa a contar a experiência do luto nunca vivido e como isso afetou a sua vida adulta. "Havia na cidade a madrasta, a faca, o tomate e o fantasma. A mãe morta ressuscitava das louças, das flores, dos armários, das cadeiras, das panelas, das manchas dos retratos retirados das paredes, das gargantas das galinhas."


Em 2009, Bartolomeu escreveu para o Manifesto por um Brasil Literário. Suas palavras foram: "É no mundo possível da ficção que o homem se encontra realmente livre para pensar, configurar alternativas, deixar agir a fantasia". Dedicou-se às palavras, pesquisas e aprendizagens. No silêncio, no luto, explicou sua existência e suas obras. Seus livros questionam a vida, o tempo e o significado da existência. É interessante também verificar que para o autor, a infância é o início das descobertas, porém, seus livros são criados para todas as idades, porque mesmo na fase adulta, os "adultos" têm dificuldades em se expressar.


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"Doi. Dói muito. Dói pelo corpo inteiro. Principia nas unhas, passa pelos cabelos, contagia os olhos, penaliza a memória e se estende pela altura da pele. Nada fica sem dor. Também os olhos, que só armazenam as imagens do que já fora, doem. A dor bem de afastadas distâncias, sepultados tempos, inconvenientes lugares, inseguros futuros. Não se chora pelo amanhã. Só se salga a carne morta."

Bartolomeu estudou as palavras e usou seus significados para colocar em suas obras - foi um modo que encontrou para se comunicar com o leitor. Sabendo disso, cada parágrafo da obra guarda uma lembrança, uma reflexão que é compreendida de modo distinto pelos diferentes leitores que conquistou durante os anos de escrita. Além disso, o autor usa metáforas e outras figuras de linguagem para enaltecer sua história, sensibilizando os leitores.


"Para alimentar a saudade do meu primeiro amor, comia retratos, rezava sem fé, mastigava hóstia, subtraia-me, entregava-me às amoras e seus aromas. Não havia mundo lá fora. Só amor, dentro e fora de mim. Virei dois, como a mulher de duas almas que visitava a minha rua. Faltavam-me rédeas para frear meu amor. Ele me roubava para o fundo do quintal, afogava-me nos rios, transportavam-me para os pastos, subia-me nos galhos das árvores, mesmo sem fruto para colher. Eu amava, ou melhor, por inteiro, eu era só amor."

Bartolomeu encontrou o amor ainda cedo e também utiliza o tema em suas obras. O amor salva? Talvez sim, talvez não - para o autor, a impressão é que o sentimento o tomou por completo e ele não consegue mais se separar dessa "praga" - e mesmo que ele tentasse, a mãe continuaria visitá-lo, dizendo que é possível amar, viver, sentir, conforme a vida humana.


"Vermelho Amargo" é um livro que contém 74 páginas e difícil de comentar, porém, conta com uma beleza nunca vista antes. A perda, o luto vivenciado em pequenos momentos, nunca tão sério, transforma em algo que vai além da obra, mas que é possível encontrar no vermelho do título, na capa dura e no tomate que Bartolomeu quando era criança.



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