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Flea: Honora

  • Foto do escritor: Gustavo Geraldo
    Gustavo Geraldo
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

É inegável que vivemos em tempos em que coisas inesperadas acontecem diariamente. Na verdade, essa constatação é um eufemismo para o grande teatro do absurdo que o mundo virou, mas esse não é o ponto aqui. Voltando ao inesperado: imagine que um dos artistas mais inventivos e explosivos da música, que passou os últimos 40 anos sendo a cola que une o funk-rock-rap-pop-psicodélico do Red Hot Chilli Peppers, resolva trocar o baixo pelo trompete para gravar um disco de jazz. Inesperado, não? Bem, se você conhece um pouco da biografia de Michael Balzary (a pessoa física por trás da pessoa jurídica Flea), isso não parece tão surpreendente assim.


O pequeno Michael cresceu em um lar disfuncional, barulhento, esquisito e cheio de música. Mais especificamente jazz. Dizzy Gillespie, Miles Davis, John Coltrane, Clifford Brown e todos os outros grandes do gênero faziam parte da coleção de Walter Urban Jr., seu padrasto. De um jeito um tanto sinistro, Walter será a primeira grande inspiração musical de Flea. O problema é que os surtos violentos de Walter deixaram marcas tão fortes quanto as jam sessions que fascinavam o garoto na sala de casa. Talvez seja por isso que Flea demorou tanto tempo para gravar um álbum do gênero que despertou seu amor pela música: algumas feridas precisam de (muito) tempo para cicatrizar.


Pequeno salto temporal: John Frusciante volta ao Chilli Peppers (de novo), a banda grava dois discos e sai em turnê. Em 2022, logo que os shows começaram, Flea prometeu para si mesmo que passaria os próximos dois anos estudando trompete, seu primeiro instrumento, e gravaria um álbum de jazz no final desse período. O resultado é um disco que une composições próprias e covers (de clássicos tanto do século passado quanto deste) sem nunca soar pedante ou confuso.


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flea honora
(Créditos: Divulgação/Reprodução)

Um dos grandes méritos de Honora (2026) é a criação de uma atmosfera que oferece coesão a uma série de canções aparentemente dispersas. É graças a essa unidade sonora que podemos ouvir uma música dos anos 30, como “Willow Weep for Me”, e um clássico moderno como "Thinkin Bout You", do Frank Ocean, sem pensar muito nas oito décadas que as separam. Um outro bom exemplo é “Maggot Brain”, o épico que abre o clássico homônimo do Funkadelic. A versão original com seu solo sônico, muito mais próxima do que Flea e Frusciante fazem no Chilli Peppers, ganha ares mais soturnos sem perder a força e o lugar no repertório do disco.


O segundo grande mérito é a capacidade de Flea de se cercar das pessoas certas. Boa parte da coesão do álbum é moldada pelas mãos do produtor Josh Johnson e dos instrumentistas que tocaram no álbum. Apesar da maior parte das músicas ser instrumental, dois convidados de peso cantam em duas delas. Thom Yorke adiciona sua voz em “Traffic Lights”, que poderia estar facilmente em um disco do Atoms for Peace. E Nick Cave interpreta o country-existencialista “Wichita Lineman" encarnando um crooner que flerta com a cafonice em alguns momentos, mas nunca soa cínico. Ah, sim, é o mesmo Nick Cave que disse que, quando ouvia algum lixo tocando no rádio e se perguntava quem era, a resposta era sempre "Red Hot Chilli Peppers". Eu disse que o tempo é um bom remédio para algumas cicatrizes, não?


No fim das contas, mais do que debater se Honora é ou não é um verdadeiro álbum de jazz, se seus covers estão à altura das versões originais ou se Flea é um compositor de primeira linha, o fato mais importante é reconhecer o feito que é a sua simples existência. Um baixista consagrado, com 62 anos, decidiu começar a praticar todos os dias o instrumento da infância que o fez se apaixonar pela música. 


Preparado ou não, ele entrou em um estúdio com músicos gabaritados e realmente gravou um disco de jazz. Não porque queria ser reconhecido como um músico de vanguarda ou alcançar milhões de plays no streaming. Ele fez isso porque aquela chama que ardia no pequeno Michael trancado no quarto, praticando escalas no trompete, ainda queima dentro dele. Nesse contexto, a última música do álbum cai como uma luva: o coro que canta “I’m free to be what I wanna be” não é da boca pra fora. Flea é mesmo livre para ser o que quiser. Sigamos o exemplo e sejamos livres nós também.



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