• Michele Costa

Para Ana Cristina,

Imagino uma criança com os olhos verdes e o cabelo castanho curto correndo por um apartamento grande, localizado em algum bairro nobre do Rio de Janeiro, enquanto cria uma história para seus brinquedos. Essa menina, tão pequena, encontrou-se nas palavras que sua mãe, professora dedicada, ensinou desde que saiu de seu útero naquele dois de junho de 1952. Seu pai, um sociólogo, contribuiu no ensinamento ao contar sobre a história do Brasil, país tão rico e descuidado. O apartamento carioca vivia cheio de gente, de diplomada à estudantes. A criança, que soava como uma adolescente questionadora, era poderosa, autêntica.


Ela interrompe seu processo de criação por um momento. Olha a parede branca da sala e levanta a sobrancelha. Surge uma dúvida: qual é a melhor palavra para descrever a angústia silenciosa da personagem principal de sua história? A pequena sabe, desde sempre e para sempre, que a única certeza da vida é a morte - um estudante que estava em um jantar da semana passada, disse ao seu pai que não tinha medo de morrer. "Morte é quando as cortinas se fecham", ela explicava para a tia. Com a sua boneca preferida na mão esquerda, a garota corre e invade o escritório onde a mãe está corrigindo as provas de seus alunos e questiona: "Mamãe, existe uma palavra para descrever uma pessoa angustiada que sofre em silêncio?". A mãe fica perplexa.


Você dizia que as "cartas e biografias são mais arrepiantes que a literatura" - agora, te pergunto: quando adicionamos ficção, o que vira? Qual o resultado? Criei uma menina inspirada em você, Ana. Em minha mente, você era assim: ainda na primeira infância, não tinha medo de se expor, de sentir, de demonstrar que era gigante. Aos seis anos, você já ditava poemas para sua mãe! Aos sete, teve um de seus poemas publicado no Jornal Tribuna da Imprensa do Rio de Janeiro. Penso que as palavras, a escrita, seus poemas, eram seu refúgio, porque não é possível evitar a vida - já dizia Virginia Woolf.


Temos algumas semelhanças, Ana C. O mesmo segundo nome, a obsessão por Sylvia Plath, a necessidade de fugir dos padrões, o peso das palavras e a necessidade de escrever para não matar. Veja que te trato no presente, não como um passado, uma morta - assim como outros escritores, você continua aqui. Em "Poética" (Companhia das Letras, 2013), seu amigo Armando Freitas Filho fez uma linda apresentação - transcrevo aqui algumas palavras: "Ana Cristina Cesar morreu há trinta anos. E está cada vez mais viva, vivíssima neste volume que devolve à circulação seus livros de prosa/poesia, em grande estilo para os novos leitores (...)". Passa ano, entra ano, e você continua sendo descoberta.


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Continuamos em plena decadência, Ana. Eu, você e os outros estamos em plena decadência. Nossas existências são ameaçadas diretamente. Quando digo isso tranquilamente, é sinal de terra à vista. Porém, nem tudo é um naufrágio na vida - ainda existe força para lutar. Tem dias em que a gente se afoga no álcool, mas a vida ainda nos chama. Celebramos! A gente se segura.


Desde o início da pandemia, releio suas prosas e poesias e descubro uma coisa nova. O entendimento mudou desde o dia em que você entrou em minha vida. Não existe mais a inocência e a estupidez da adolescente ferida; agora, Ana, me apego a qualquer migalha de vida, pois me recuso a morrer durante esse governo genocida. Você sentiu isso durante a ditadura civil militar? É claro que a depressão piorou, mas morrer quando os generais estão no poder… Será que o sentido da vida foi alterado para muitas pessoas?


Ana, escrevo, apago, escrevo e dou voltas para te dizer algo. Em alguns momentos, dar volta é necessário para encontrar um caminho. "(...) teria o gosto estranho das palavras / que brincamos / e a seriedade de quando esquecemos / quais palavras (...)" Aqui, as palavras escorrem como líquidos, como a vida, lubrificando os novos caminhos, a nova vida.


Ana, releio suas obras e o que seus amigos escritores falam de você. Todos gostam de vocês. Todos gostavam de você. Eu gosto de você. O poema que Drummond fez para você é lindo. Tudo que você fez é lindo. O movimento marginal continua sendo importante e tão presente em outros livros, em outros escritores. Você continua por aqui, mais viva do que antes.


Mesmo sendo jornalista, formada, com um diploma que não diz nada, confesso que tenho dificuldades com as palavras, Ana. Elas pesam. Penso mil vezes antes de rabiscar os diversos cadernos que tenho. Se expressar é fácil, mas descrever tudo que carrego dentro de mim… Aí é outra história. De um jeito ou de outro, de forma estranha, digo que há muito de você em mim. Nós continuamos em decadência, Ana, mas celebrando - há diversas multidões dentro de nós.


Leio pra mim as cartas que vou mandar e repito suas frases: "Perdoe a retórica. Bobagem para disfarçar carinho". Feliz aniversário, Ana Cristina Cesar.


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