• Michele Costa

Os pedaços de Edith Elek

A primeira vez que ouvi o nome de Edith Elek, foi no meu primeiro trabalho, anos atrás, em um sebo. Uma cliente estava comprando o livro "Céu da Boca: Lembranças de Refeições da Infância", que relata a história de diversas pessoas que lembram refeições e sabores da infância e adolescente. De acordo com a cliente: "é um livro lindo, voltamos ao passado, lembramos daquilo que esquecemos num exercício sensorial de memória. Todo mundo deveria ler!". Por alguma razão, a capa me fez lembrar de minha avó, que mora no interior, que cozinha bem e que ao lembrar dela, revivi algumas memórias. Abraços, beijos, confissões, segredos e brincadeiras.


Talvez o trabalho de Edith seja esse: fazer com que o leitor relembre de seu passado, das memórias boas e ruins para não se esquecer. A vida é bonita, mesmo com perdas, tristezas e angústias. Viver é isso. Tudo e nada.


Leia também:

Literatura: as mutações de Liv Ullmann

Marcela Brandão e sua nova música popular brasileira

Mariana Godoy continua se afogando em Virginia Woolf


Edith vem de uma família de húngaros. Foi a única da família que nasceu aqui. Fez sua vida no Brasil: foi editora, escreveu para diversos veículos, trabalhou com livros - inclusive, foi tradutora dos livros "Jogo de Cena em Bolzano", de Sándor Márai, e "A Febre do Amanhecer" de Péter Gárdos, ambos saíram pela Companhia das Letras. É terapeuta, trabalhando com pessoas com câncer, mas seu verdadeiro dom está nas palavras.


A escritora acaba de lançar seu primeiro livro de poesia, "Pedaço de Mim", pela 7Letras. Escrito em diferentes momentos de sua vida, a obra aborda corpo e alma, doença e saúde, medo e desejo, perdas e ganhos, sonho e fantasia caminham juntos e vão aos poucos formando um mosaico vívivo de sensações. É impossível não se enxergar nos escritos de Edith.


Balanço

Morri muitas vezes,
sobrevivi outras tantas.

No caminho, cruzei descaminhos
mas sempre voltei a tempo da aurora.

Escorreguei em musgos e limos,
escalei montanhas rochosas.

Do céu não provei o gosto, mas tingi os olhos de azul
e cavalguei estrelas.

Plantei sementes, colhi frutos,
uns ácidos, outros maduros.

Espelho de fantasias, bumerangue de emoções,
fui tão longe quanto permitiu meu corpo.

Se valeu a pena?
Que o diga quem fica e me ama.
Meu destino era esse:
roçar com as asas estranhas
a alma de muita gente.

Antes de falarmos sobre o seu recente livro, gostaria de saber como e quando a escrita surgiu em sua vida.

Olha, eu comecei a escrever adolescente. Eu já escrevia poesia e na adolescência eu gostava muito de escrever, por prazer, simplesmente. Depois, teve períodos em minha vida que eu escrevi em outros eu parei, mas de alguma forma, eu sempre estava escrevendo, porque fui jornalista. Então, a escrita é uma coisa que sempre permeou a minha vida.

Agora, essa leva do livro [Pedaço de Mim], foi em um período, mais ou menos, entre 1980 e 1985 em que eu passei por muitas situações difíceis. Não era nem uma decisão minha de "vou sentar e escrever um poema", era uma coisa que vinha com uma força tão grande… Nesse período eu escrevi muito! Foi muito útil pra mim, foi muito bom, porque eu pus para fora aquelas emoções que estão confusas dentro de você.


Então, quando se encontrou na escrita, nunca mais parou…

Olha, parei. Fiquei sem escrever poesia durante um bom tempo. Alguns anos atrás, eu escrevi algumas que estão no livro. Recentemente também escrevi uma coisinha ou outra, mas tenho escrito muito menos poesia. Acho que aquele fluxo que eu tive, aquela chuva que teve em minha vida, foi só aquela vez. Mas eu escrevo outras coisas. Eu fui editora durante muitos anos, então você acaba fazendo um monte de coisa… Quer dizer, eu estava sempre escrevendo.

Alguns anos atrás eu comecei a escrever um livro sobre a minha vida, como filha de imigrantes. Minha família toda é da Hungria, e eles vieram a contra gosto e isso teve uma série de implicações em minha vida. Então, eu comecei a escrever textos. Eu fiz um curso de ensaio, um dia, e cheguei à conclusão que a minha forma era aquela - eu gosto muito de escrever ensaio! Então, eu fui escrevendo vários ensaios de episódios que lembrava a minha vida e nisso se transformou em um outro livro que sai ano que vem.


Para você, escrever é difícil?

Não, pra mim vem muito fácil. Ou vem ou não vem. Como é um processo muito profundo, de alma, não é uma decisão cerebral: "eu escreverei agora um texto", não é assim que funciona pra mim. Pra mim é uma coisa que vem como uma urgência, tô querendo falar alguma coisa - aí, sento e escrevo. Tenho escrito bastante, atualmente.

Quando eu tô angustiada com alguma coisa, acho que não sei fazer de outro jeito, a não ser escrever.


Você trata diversas questões em seu livro. O que te levou a colocar a frase "Pedaço de Mim" no título?

Porque eu gosto da música do Chico [risos] [“Oh, pedaço de mim / Oh, metade afastada de mim / Leva o teu olhar / Que a saudade é o pior tormento / É pior do que o esquecimento / É pior do que se entrevar”] Esse título surgiu um dia na minha cabeça… Ele ia ser do livro húngaro, sobre a Hungria, mas como eu não tinha título para o livro de poesia, achei que ia ficar bem nesse livro. E também, os poemas são pedaços de mim.


“Pedaço de Mim” trata a amargura e a doçura que é existir. Para você, escrever alivia o peso da existência?

Esses poemas me trazem um grande alívio sim. Você despeja para fora aquela dor que está dentro de você e que às vezes, você não consegue nem nomear. E o poema cria forma para aquela dor. Agora, também tem momentos de epifania, tem momentos de prazer, no meio da dor - sempre uma perspectiva da saída da dor. Acaba virando um processo que eu recomendo muito [risos].


Para você, a escrita surge, vem naturalmente. Quando ela não aparece, você não fica angustiada ao carregar tanta coisa?!

Eu respeito o tempo, cada momento é um. Tem momentos que você não consegue, tem momentos que você fica mais angustiada, arrastando aquela angústia… Tem coisas que vão mudando na vida da gente, né. A medida que a gente envelhece, a vida da gente vai mudando muito. No meu caso… Digamos que naquela época, eu era muito mais solitária e hoje em dia eu tenho muitas amigas queridas, pessoas que eu converso sobre essas coisas, diminuindo a minha necessidade de escrever. Hoje, eu converso mais, troco mais com as pessoas.


Um fato interessante do livro: "Pedaços de Mim" só ganhou vida por conta do escritor e filósofo, Rodrigo Petronio: "Eu fiz um curso de escrita com o Rodrigo e foi ele que pediu para ver alguns textos que escrevi e aproveitei para levar os poemas antigos. Ele ficou apaixonado e disse que deveria ser publicado", Edith me explica.

Ainda bem! Obrigada, Rodrigo, é o público que ganha com isso.


Para comprar o livro de Edith Elek, "Pedaços de Mim", clique aqui.

©2020 por desalinho. Criado com Wix.com