• Michele Costa

O mundo inteiro de Yo Soy Toño

Quinta-feira, 10 de junho de 2021. Um convite: estreia online de "Mundo Inteiro Ao Vivo", show-filme de Yo Soy Toño. Através do Zoom, único meio para se comunicar durante a pandemia, a sala está cheia - pessoas com câmeras ligadas e desligadas. Há uma rápida apresentação, explicando sobre o que será mostrado a seguir, em segredo, exclusivo. Minutos depois, o show-filme começa.


No pátio de uma casa espaçosa, em Maceió, Antonio Oiticica, criador da persona Yo Soy Toño, toca as canções de seu primeiro álbum, "Mundo Inteiro" (2020), ao lado de João Lamenha (baixo), Fellipe Pereira (bateria, backing vocal e programações), Igor Cavalcante (guitarra) e Lucas Mello (guitarra e backing vocal). A gravação ocorreu no início do ano, em um dia ensolarado. Aliás, o sol é um dos personagens secundários do projeto - assim como o piano, os móveis antigos, plantas e um violão. Há uma energia nostálgica no ar, talvez seja consequência da pandemia, e uma vontade de dar continuidade à volta ao mundo. Coragem é a melhor palavra para descrever a força de continuar fazendo arte no Brasil.


Jack Kerouac, principal integrante da Geração Beat, dizia que "a estrada é vida". Logo, compreendemos que estrada é um caminho que circula seres humanos e/ou meios de transporte. É por esse meio que Toño quer caminhar, mesmo já possuindo o mundo inteiro dentro dele. "Qual é a sua estrada, homem? A estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada.. Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância", escreveu em On The Road (L&PM, 2011).


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São dez anos trabalhando, fazendo música. Como você entrou nesse mundo?

São dez anos, não necessariamente como Yo Soy Toño (5 ou 6 anos), mas de música levada a sério, são dez anos. Eu conto a partir do primeiro show da minha antiga banda, que eu tinha em Maceió e marcou essa minha relação mais direta com a música - mas eu toco desde os 13 anos. Durante a quarentena eu até lembrei que aos dez anos eu fiz a minha primeira música e eu bloqueei essa imagem porque eu fiz uma música com duas primas e nos apresentamos em um show de talento e todo mundo riu da nossa apresentação. Eu lembrei agora porque eu tava lendo o "Caminho do Artista" (Julia Cameron, 2017), e veio essa parada aí…


É puro recalque que Freud fala…

Total! Eu fiquei "como assim?". Respondendo a sua pergunta de como eu entrei na música: Meu pai é artista plástico e professor da história da arte, então, ele tem uma vivência artística muito grande e acho que na minha casa a gente sempre teve essa coisa de viver uma vida artística. Então, de certa forma, não era um mundo totalmente estranho, talvez tenha sido como um mundo natural pra mim. Foi uma coisa de família, sempre fui motivado a fazer. Sempre desenhei muito quando era mais novo e meu pai dizia: "poxa, pensei que você seguiria no desenho". Em um dado momento, eu descobri a música e não larguei mais. Quando eu aprendi o violão, foi uma coisa… Eu sempre lembro de perguntar: "o que eu fazia antes de tocar violão?" - porque mudou a minha vida, parece que eu não entendia o que eu tava vivendo antes… Aí eu comecei a tocar, fui tocando e foi isso, abriu essa possibilidade. Mas escolher fazer isso… Eu fui indo, fui indo, fui indo, fui indo e meio que sem perceber... Isso pode ser uma coisa meio clichê, meio vago, mas eu fui percebendo… Eu tive essa condição mesmo e nesse ponto é ótimo que eu pude ter isso.


Muitos artistas falam mais ou menos o que você trouxe para cá. Você consegue fazer uma análise do que você era antes e depois da arte? Você mudou muito durante esses anos?

Eu acho que tem coisas que não mudaram mesmo. Acho que fui uma criança com muita imaginação, gostava muito de inventar histórias, escrever coisas, inventar brincadeiras… O meu vício, antes do violão, era criar liga de futebol imaginárias para jogar com o meu irmão [risos]. A gente inventava nome de jogador, criava tabela e eu ficava narrando a gente jogando e era como se ele fosse o time, sabe? Era como se ele fosse aquele time que tava jogando o campeonato e eu era todos os outros times. A gente ficava inventando essas coisas, então, eu adorava fazer isso… De certa forma, a música me deu uma chance de organizar essas histórias, essa imaginação toda me fez fazer músicas com todas essas pessoas que eu vinha olhando; o que eu queria falar sobre, acho que isso foi que me permitiu. Acho que isso é uma coisa que não mudou tanto assim… Eu sinto assim, que nos termos de Brasil, termos de fazer música, de estar nesse caminho… Vamos dizer que nesses dez anos, esse marco inicial, foi 2011, a gente tava no começo do governo Dilma, estávamos no auge do que havia de política cultural no Brasil, então, eu cresci e vivi durante esse governo... Na infância-adolescência, nesse maior momento de consciência que você vai desenvolvendo a sua personalidade e as lembranças mais vívidas talvez, eu estava me relacionando com a política do Brasil e foi nesse período… Foi muito efusivo. Eu sinto que isso me moldou bastante. Eu tava lembrando agora de outras coisas: eu morava em um bairro lá em Maceió, chamado Garça Torta, e nesse bairro tinha a "Casa da Arte". A gente conhecia a dona da "Casa da Arte", dona Edna, e era um ponto de cultura, dentro do projeto do Juca e Gil. Era um lugar que eu frequentava. Por conta da "Casa da Arte", eu consegui fazer outras coisas…

Eu morei na França por três anos, meu pai foi dar aula lá, e por conta disso eu conheci o meu melhor amigo lá e os pais deles são artistas, e eles vieram para o Brasil fazer na "Casa da Arte" uma oficina e depois a peça - e eu participei da peça - e a gente fez uma turnê por Alagoas… Ou seja, fui tudo nessa época. Nesse momento todo estava rolando muita coisa - envolvendo Brasil, cultura, governo, outras experiências… E a mudança de lá pra cá, eu acho que foi quando eu me afirmei como músico e tudo mais, coincidiu… Eu lembro que eu peguei… Eu comecei a me interessar por música e eu olhava muito festivais, editais... Aí eu comecei a perceber, fui desenvolvendo a carreira musical e os editais minguando, sabe [risos]. "Cadê aquele momento que tava aqui quando eu entrei nessa parada?". Mudou tudo! Eu sinto que em Alagoas a gente tem muito, não sei se sou só eu que me sinto dessa maneira, mas eu me sentia muito isolado. Tenho lembranças [há um ruído na transmissão] desses acessos à cultura, investimento governamental mesmo, investimento de empresas, em cultura que impulsionaram em muitos outros estados e Alagoas talvez tenha ficado um pouco de fora nesse debate. Quando acabou tudo, a gente ficou tipo "agora que a gente começou a falar sobre…" e não tá rolando mais.

Ainda mais agora!

Sim, exato. Eu acho que agora… A resposta mais clara seria essa: eu nunca não consegui não fazer música. Nesses últimos tempos, eu cheguei a pensar, sabe. Fiquei pensando: "putz, seria tão mais fácil se eu não fizesse música". Eu poderia ter férias, eu poderia estar correndo atrás de uma carreira estável…

E aceitável também, né.

Exato, exato! É isso que eu fico pensando: sempre que sobra um dinheirinho, vai pra música. Toda vez que sobra um tempo, vai pra música - e só sobra um tempo, porque o outro tempo tá todo dedicado a música. Eu fico nessa… Mas sabe, não dá! Acho que já aceitei isso. Agora também… E isso é o grande ponto: pela primeira vez na minha vida - eu não vivo só de música -, mas o dinheiro que eu tô ganhando hoje tá sendo com música. Além dos projetos... A gente fez "Mundo Inteiro Ao Vivo" pela Aldir Blanc e pela primeira vez na vida, eu tô tendo dinheiro para um projeto meu e além disso eu tô fazendo - eu trabalho com comunicação [Antonio é formado em jornalismo] - projetos de música. Meu dinheiro vem de música e hoje, quando eu olho para isso, eu vejo que é meu lugar. Eu sei fazer isso! Eu tô há dez anos fazendo isso, dez anos trabalhando nisso - acordo e durmo, no fim de semana… Eu amo fazer isso e não me cansa. Às vezes bate essa coisa do "será que não seria…?", mas é o que eu sei fazer e é o que eu gosto de fazer. E a vida sempre me puxou de volta para isso… [risos]


Durante a pandemia, durante esse isolamento, alguma coisa dentro de você sofreu uma mudança?

Difícil não dizer.... Eu acho que eu enfrentei o começo da pandemia muito bem! A música me ajudou muito. O meu final de ano, de 2019 para 2020, e o começo de 2020, foram excelentes! Fazia tempo que eu não tinha um momento… Eu tava super bem! Eu me mudei para o Rio em 2019, para fazer mestrado aqui, então passei um ano todo tendo esse momento, de mudança de cidade - isso afeta muito. Eu sou carioca, sempre vim para cá, mas eu nunca morei aqui. Essa mudança, de fato, para uma cidade muito maior, conhecer novas pessoas, todo esse processo, de ambientação... Pô, em Maceió eu conhecia todo mundo, era uma cidade pequena - e você conhece todo mundo naturalmente -, era muito fácil de circular, todos os atalhos, parcerias para fazer - coisas que eu não fiz no Rio. Não tenho nem ideia de como fazer no Rio! Acho que foi um momento de retração, de silenciar um pouco mais, se reencontrar… E esse ano culminou, no fim do ano, de fazer uma viagem com os amigos daqui do Rio, de carro, para Maceió…

Oloco!

A gente fez isso! Foi muito massa!

Deve ser maravilhoso!

Foi maravilhoso e recomendo! [risos] Era uma coisa que a gente fazia, sei lá, a gente tava na estrada e passava 700 km por dia assim, doze horas de estrada e não cansava. A gente ficava conversando, começava dirigindo a noite e a gente botava um podcast, dava dez minutos de podcast e a gente conversando - quatro pessoas no carro, conversando com o podcast! E assim foi [risos]. Essa viagem, a virada de ano com essa galera, depois a continuidade do ano em Maceió - eu fiquei um mês em Maceió, até voltar para o Rio, tudo isso… Muita energia. Eu não sei, eu olho pra trás e penso: "putz, eu entrei muito bem na pandemia…". Eu entrei na pandemia pensando: "eu tenho uma casa, tenho como me sustentar, tenho como ficar bem" - eu sei que eu tô num lugar muito privilegiado, diferente de muita gente. Eu fiquei pensando: "o que eu posso fazer também para…?". Eu fiquei pensando muito nisso e comecei uma parada que é musical: ficar nos stories todo dia, fiz isso por um mês, umas músicas que era legal de se ouvir [há um ruído na transmissão] e foi muito legal, muita gente veio falar: "pô, que massa!". Eu comecei a pandemia de um jeito muito alegre, muitas coisas boas, apesar de estar em um ambiente totalmente estressante como é o Brasil nesse momento… Meu movimento foi meio que dizer: "eaí, como tá?" - usar toda essa energia dessa maneira, de alegrar, de confortar outras pessoas que não estavam bem. Mas uma hora bateu e foi agora, em fevereiro de 2021. Eu fui para Maceió e passei um mês isolado lá e quando eu voltei, bateu um desespero muito grande. "Vai ser mais um ano disso!" De pouco a pouco, eu tô melhorando isso e foi por isso que fiz esse projeto de tocar música todo dia no instagram.



"Mundo Inteiro" conta com canções que retratam uma caminhada - seja ela pessoal, profissional, familiar ou apenas sonhos, dando liberdade para diversas interpretações. Como foi a construção desse álbum e o que te levou a abordar a trajetória?

Que massa essa leitura do "Mundo Inteiro" como trajetória. Sempre vi o disco em si como se fosse uma preparação de bagagem para fazer uma viagem e menos sobre a viagem em si. É a trilha sonora que você coloca enquanto arruma a mala. Acho que quando você tá arrumando a mala, quando tá planejando a viagem, você pensa justamente na trajetória. Pra mim, falar sobre isso, tem muito a ver com o fato de ter morado em Maceió e durante boa parte da minha vida em Maceió, assim como muitas pessoas ao meu redor... Acho que Maceió é preciso crescer para viver a experiência, mas quando você é jovem, você tem um um completo vira-lata muito grande, quer dizer, "preciso sair daqui". "Essa cidade não tem nada, não acontece nada, eu preciso ir para o Rio, para São Paulo…". Quando você é jovem essa é a grande parada. Essas músicas que eu fiz, a maioria delas entre 2010 e 2015, falam dessa coisa, do "preciso sair daqui, preciso ir para um lugar maior, meu lugar no mundo não é esse aqui". É muito engraçado porque hoje eu olho e fico assim: "pô, é tão legal Maceió". Acho que vai por aí essa questão, falar de trajetória é falar sobre a vontade de ir para o mundo - eu quero andar o mundo inteiro. "Eu tô em Maceió, mas eu sei que o mundo é muito grande e eu preciso fazer outras coisas". Aí hoje eu repenso sobre isso... Eu acho que ainda é sobre isso, gosto da ideia de conhecer outros lugares, estar por aí, embora isso não aconteça tão frequentemente, mas acho massa… Mas eu não preciso negar o meu lugar - e essa foi a grande mudança. Quando o Yo Soy Toño começou, em 2015 ou 2016, eu criei uma produtora que fazia shows locais e meio que a nossa missão era fazer a cena local do Maceió rolar. E acho que nesse processo, eu me reencontrei com a cidade, me identifiquei com a ideia de "eu não preciso sair daqui para fazer isso aqui e deixar do jeito mais legal, eu posso recriar". A trajetória foi nesse sentido, no reencontro desses dois motivos que flutuam nesses dez anos.


No meio desse papo, me deu a entender que quando a gente é jovem, a vida é muito bonita, nunca vai acabar, que somos indestrutíveis, etc. O que mudou da juventude para hoje em você?

Eu componho muito, então, tem música que eu já não gosto mais. As músicas que estão no "Mundo Inteiro" são só um pedacinho do que eu componho. Eu tenho me visto muito mais compositor do que músico de palco - não sei se é por causa da pandemia. Tem músicas que eu não toco mais hoje em dia.

Certamente minha visão mudou. Eu tenho 27 anos, não é nada, mas olhando para os 17, eu tô um pouco mais tranquilo comigo, sabe?! Eu sempre fui muito inseguro, muito agoniado, meio afobado, e hoje eu tô mais tranquilo, mais de boas.


Qual o tamanho do ser humano? É verdade que ele pode alcançar e dominar o mundo? Em "O Livro do Desassossego" (Editora Princípios, 2018), Fernando Pessoa - ou melhor, seu heterônimo, Bernardo Soares - escreve: "Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura". Já Carlos Drummond de Andrade, no poema "Mundo Grande", diz que seu coração não é maior do que o mundo, ele é muito menor - "Nele não cabem nem as minhas dores. Por isso gosto tanto de me contar. Por isso me dispo, por isso me grito, por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias: preciso de todos". Enquanto isso, Whitman celebrava todas as multidões que cabiam nele. Para Yo Soy Toño, o ser humano é/pode ser uma mistura de todas essas frases - com coragem se vai longe.


Agora te pergunto sobre o título, "Mundo Inteiro". Você falou que tá no Rio, já esteve em Maceió e na França. Existe o mundo todo em você?

Tem um poema do Drummond que eu gosto muito. Não querendo ser o palestrinha [risos], mas tem uma história muito boa por trás… Ele começa assim: "Meu coração não é maior do que o mundo". Sai daí o "Mundo Inteiro", eu acho. O "Mundo Inteiro" veio de "Hotel", a primeira música do disco que fala sobre essa coisa: "eu quero andar o mundo inteiro", basicamente essa vontade de querer dizer: "eu quero sair de Maceió". Esse é o Toño de 2015. Depois é "eu quero sair e voltar, eu quero poder estar". Respondendo a sua pergunta, acho que é essa coisa - meu coração não é maior do que o mundo, ele é muito menor e toda a sequência do poema que eu não vou lembrar agora, logo não vai ser um momento palestrinha [risos], acho que é um pouco isso, sabe?! Essa frase é muito boa; [ouvi] em uma aula de comunicação e foi em um dos primeiros períodos, a gente teve uma professora excelente, ela também era artista e ela recitou esse poema e isso me marcou muito! [A frase] era meio que nosso hino de curso. É muito engraçado você perguntar isso, porque eu não lembrava desse [há um ruído na transmissão] e a resposta é essa: o meu coração não é maior do que o mundo, ele é muito menor, mas eu tento circular. Meu pai fala uma coisa, fechando essa longa resposta, na França existia um lema que era: "ficar pequeno para sobreviver" - e acho muito interessante pensar nisso em um mundo capitalista que a gente vive - e é esse mundo que a gente vive; e tem a ver com o que você falou antes: "ser jovem e conquistar tudo" e pô, dá trabalho! Crescer, aumentar e conquistar… Eu lembro de outra coisa, um amigo meu, Vitor de Almeida, que foi meu orientador, ele falava sobre uma coisa que era: "a gente precisa saber o nosso tamanho". A partir daí, a gente sabe até onde alcança. Não dar um passo maior do que a perna e se frustrar. Aos pequenos, talvez, de alguma maneira, você ande o mundo inteiro e talvez não consiga, mas eu espero ter a vida toda pela frente e que eu consiga fazer essa andança.


Eu até ia te perguntar agora, qual o significado de mundo. A gente entende que mundo tem planetas, lugares, cidades, tudo… Será que a gente não consegue viajar dentro de casa com o fone de ouvido, com a literatura e etc?

Total! Isso é muito massa, né?! Quando a gente ouve alguma música, faz alguma parada, você sente essa conexão com algo que é maior que você, algo que transporta, algo que eleva, que te emociona de alguma maneira, provoca algo.

Quando eu penso em mundo, eu penso em algo imenso, sabe? Eu não sei, eu tenho essa relação com "algo além". Eu tive uma formação… Minha família e minha avó era muito religiosa, eu estudei em colégio católico e sempre teve esse debate… Eu gosto de pensar nessas coisas, [há um corte na transmissão] gosto de pensar em uma relação que vai além de mim. Eu não sei explicar muito bem o que é, mas eu vejo muito isso nas músicas, essas emoções que ela provoca e quando eu penso nesse mundo, eu penso em algo imenso, algo que tá fora, algo que está além… Não sei se está ali, eu penso em imensidão. O mundo inteiro causa em mim essa ideia de imensidão, mas não é uma imensidão que você não consegue alcançar ou que tá muito fora - é uma imensidão alcançável, compartilhável e essa é a ideia do "Mundo Inteiro".


(Foto: Yan Gama)


Como foi gravar "Mundo Inteiro Ao Vivo" sem uma plateia?

Esse é um grande ponto, porque eu tava pensando nisso antes da gente começar a conversar. Eu pensei muito em "Mundo Inteiro Ao Vivo" e, por mais que a ideia fosse inicialmente levar a experiência de um show para as pessoas que estão em casa, se isolando, e não podem ir para shows, eu fiquei pensando muito… Na verdade é uma coisa muito diferente, sabe?! É uma outra experiência. Não é a mesma do que um show, não tem nada vê - no show você tá lá, com a galera em volta, você tá cantando, tá tendo aquela troca e isso é uma questão que não dá para colocar na live. Por mais que sejam parecidos e que tenha a troca, é outra coisa. A live em si… Na verdade não é uma live, é um filme musical mesmo. A gente tem outros elementos no filme que fazem gerar outra experiência. No fim das contas, gravar sem plateia foi algo que soou normal, porque não foi tão diferente. A gente gravou tudo em um clique, gravamos várias vezes as versões das músicas… Pareceu mais uma gravação, talvez de até disco ao vivo, do que necessariamente de show. No show, pelo menos no meu show, eu falo com a galera, eu me deixo muito influenciar em como o público tá reagindo. Lá era mais uma coisa do tipo: concentração para tocar certinho, não pode errar. Foi outra forma de lidar mesmo. Não ter público condiz com um pouco do que a gente gerou e a experiência vai ser outra. Não é massa não ter público, mas é muito massa ter feito isso. Era uma coisa que eu já queria fazer, não muito tão claro, aí quando surgiu a oportunidade com a Lei Aldir Blanc no fim do ano, eu falei "vamos fazer" e ficou muito massa.


A gente vê outros elementos, como uma Super 8 gravando você no piano, tocando violão e alguns efeitos que dizem: "olha, isso aqui sou eu!". E aí te pergunto: existe alguma mensagem que você quer passar aos ouvintes? O que você espera que eles sintam ou tá livre para sentir o que quiser?

Acho que tá livre, porque na real não sei muito bem [risos]. Eu gosto de pensar que eu tenho essa resposta, mas eu não sei se tenho. Logo, eu não tenha mesmo. Eu tô procurando entender um pouco mais qual é a mensagem que eu quero passar. [longo silêncio] Eu quero andar o mundo inteiro - "preparem as malas, nós vamos viajar, vamos fazer esse percurso"; mas eu não sei... Eu sinto que revisito muito essa ideia e tô procurando melhorar - nessa conversa mesmo já vieram várias coisas que eu fiquei "é por aqui" [risos]. É coisa de Maceió e foi agora que eu entendi isso.


Agora faço uma provocação: será que a gente precisa de uma resposta ou alguma mensagem para entregar ao outro? Não vale a sensação de fazer?

Eu acho legal pensar não nessa resposta, mas nas perguntas ou nos indicativos. Talvez isso só sirva para mim mesmo… Por mais que eu falei "é isso, vai por aí", vai ter gente que vai falar: "beleza irmão, eu vou por aqui". [risos]. Às vezes é uma questão de tabela: eu tenho um significado, eu tenho um propósito, eu tenho esse objetivo. Eu gosto de pensar que eu tô procurando explicar pra mim mesmo o que indica tudo isso - não é uma resposta, não é uma coisa só. Quem assistir vai pensar de outra forma, vai assistir só como prazer de ver mesmo, abrir só uma cerveja e assistir - eu espero que no momento posterior, junto com as pessoas, vendo junto com as pessoas… Ou vai ser aquele momento do meio que eu falo um negócio e aquilo significou alguma coisa incrível... Aquela música… A forma visualmente… São vários estímulos. A ideia do "Mundo Inteiro" é essa: arrumar as bagagens. Onde vai parar? É a estrada que diz.


O "arrumar a bagagem" é: "eu quero arrumar a bagagem com vocês, ouvintes, e nós vamos juntos?" Algo nessa linha?

Eu adorei isso aí! É por aí. Eu vou usar isso a partir de agora [risos]. Acho que no fundo é coragem. Eu tenho me colocado muito numa coisa de coragem, sabe? [há um corte na transmissão]. É criar coragem para abrir a porta e ir para o mundo. Ainda mais em uma pandemia! Toda vez que eu saio para fazer compras no mercado, eu sinto que a minha trilha sonora tá tocando. É aquela coisa: o caminho que é super normal para se fazer, mas você tá fazendo algo que parece que é fora do comum, como usar uma máscara.


Sim. E tem aquele medo todo. Você não sabe o que vai acontecer, se você vai ser contaminado, se você vai conseguir pagar a conta, se o cartão… Por mais que seja parte da rotina, sempre vai ter um receio de tudo, né, porque nada é igual. Talvez eu esteja sendo a palestrinha…

[risos] Vamos nessa! A gente se reconhece, porque eu acho que é isso também. É uma coisa muito incerta - qual vai ser?! Tô tentando lembrar a pergunta inicial, acho que a gente arrumou a mala e foi para o caminho [risos].


Tá tudo bem não responder a pergunta e seguir outros rumos, aqui não tem caminho certo e nem errado. A gente só vai seguindo até fazer sentido ou não. É a vida!

Tem essa coisa do mapa também. Eu não sei se é exatamente dessa forma, eu posso tá cagando a regra, e tá falando totalmente errado, mas essa diferença entre o mapa e… Como se fosse o roteiro, um guia. A diferença entre as duas coisas é de que um lado, do roteiro, ele te guia para uma direção, é a "receita" de certa forma. E o mapa, na verdade, você o abre, você tem todas as direções, todas as coordenadas, você tem os caminhos, mas ele não te diz: "vá por aqui". Acho que é mais ou menos assim que a gente pode pensar… As diversas direções são as experiências, as trocas, as coisas de quem veio antes da gente.


Então, você segue esse mapa?

Seguir… [há um corte na transmissão]

Seguir, talvez, não seja a palavra certa, mas você prefere o mapa do que o roteiro…

Eu acho que eu ando no mapa… Eu gostaria muito, às vezes, de ter um roteiro. Eu fico pensando muito nisso, sabe… Talvez as coisas que eu tento fazer… Qualquer coisa que eu falo é uma tentativa de dizer… É a vida que eu gostaria de ter. Eu quero andar pelo mundo inteiro! Eu quero viver essas coisas… Mas tem vezes que eu falo: "pelo amor de Deus, me manda um roteiro! Eu não sei o que fazer" [risos]. Eu fico esperando um roteiro, mas no final das contas é um mapa mesmo.

Dá um medo também, né…

Ô! É essa coisa da coragem. Vamos ter coragem para andar pelo mapa, mas é fogo, velho… Não é assim e faz parte do crescimento, que a gente tava falando mais cedo, começar a entender um pouco que não é por aí… É descoberta e é isso.

Acho que todas as vezes que eu me propus a fazer alguma coisa, entendendo que não era tipo "fazer desse jeito", mas entender como refazer as coisas e me colocando da maneira... Me relacionando tanto com o que eu acho que poderia ser feito, do que me foi apresentado, essa relação entre as duas coisas, é que as coisas andaram, sabe?! Eu acho que quebro muito mais a cara quando tento reproduzir roteiros do que necessariamente, quando eu consigo entender o que tá acontecendo de fato.


E você consegue diferenciar o você pessoal do você artista?

Eu tento e tentei muito por muito tempo fazer essa diferença, mas… Eu não sei se… Eu acho que as coisas se colocam juntas. Eu criei esse nome, Yo Soy Toño, que às vezes acaba sendo até um nome de uma banda - tem muita gente que vem falar: "gostei muito do som de vocês!" e eu falo "pô, obrigado, vou agradecer os outros Toños que tem em mim". Eu gosto dessa coisa de ter um outro nome, que parece que é um projeto, porque me abre a possibilidade de fazer as coisas como Antônio Oiticica, que eu uso para assinar trabalhos, documentos, e aí separa um pouco as coisas. Eu tento separar, mas acho que no fim das contas, mistura um pouco.

Dá para não ser Yo Soy Toño quando você conhece alguém que não sabe que você tem um projeto artístico. Quando eu fiz as aulas de mestrado aqui no Rio, ninguém sabia que eu cantava, então, são outras referências que você acaba criando com a galera. Mas quando eu vou para Maceió, tem uma galera que não me chama de Toño e nem de Antonio, me chamam de Yo.

Aí entra, o que a gente tava falando mais cedo, sobre o mundo inteiro, né. Tem um mundo inteiro em você! Você pode ser todas as personas em todos os lugares e tá tudo bem, é bonito isso.

Acaba que é isso. O primeiro contato pode ser disso, como Yo Soy Toño, ou alguém que me conhece por conta de uma música ou alguém que me conhece não pela música… Mas no final das contas, eu vou ser essa pessoa que eu tô sendo aqui com você. No final das contas, me leva para um lugar só que sou yo.

No final das contas há verdade e se há verdade é o suficiente.

Exato. É o que é a gente é, não tem escapatória.


Você falou muito de coragem. Você continua com essa coragem para dar continuidade a vida, aos projetos musicais, as suas canções no futuro?

Continuo, porque eu tenho muita música que eu quero lançar. Eu tenho muita coisa para lançar e eu quero continuar lançando, mas varia. No dia da sessão do "Mundo Inteiro Ao Vivo", deu um gás incrível! Eu fiquei falando com o Duda e a gente organizou as ideias que tivemos no processo todo de chegar no produto. Ouvir o Chase [produtor] foi muito legal e me deu um gás muito legal. Eu tenho sentido umas coisas… Assim que eu gravei "Mundo Inteiro Ao Vivo", lá em fevereiro, a semana seguinte - e depois da sessão, na live que eu fiz em março -, é de um cansaço enorme! A semana depois do DVD, eu passei uma semana sem conseguir fazer nada. Acho que foi a semana que desencadeou um pouco do desespero, sabe? Mesmo assim, a coragem continua aqui, sabe?!


"Porque, no final, você não vai se lembrar do tempo que passou trabalhando no escritório ou aparando a grama. Escale aquela maldita montanha", escreveu Kerouac em "Os Vagabundos Iluminados" (L&PM, 2004). É possível fugir, por um breve momento, da realidade: arrume as malas e coloque "Mundo Inteiro" no fone de ouvido e viaje pelo mundo de Yo Soy Toño - ele é imenso. Suba a montanha sem medo, a paisagem é bonita.


A produção musical de "Mundo Inteiro Ao Vivo" é assinada por Fellipe Pereira, enquanto a direção e montagem é de Duda Bertho. O projeto foi realizado através do apoio cultural da Secretaria da Cultura do Alagoas, através do incentivo federal da Lei Aldir Blanc.


"Mundo Inteiro" já está disponível em todas as plataformas de streaming de música. "Mundo Inteiro Ao Vivo" estará disponível no Youtube, nessa quinta-feira, 24 de junho, às 21h.



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