• Michele Costa

Possa Nova: a persona madura de Filipe Mariz

No dia 8 de março de 1959, o país conheceu o carioca João Gilberto. Com um fundo verde menta, a frase "Chega de Saudade" é destacada com o tom forte do vermelho, fazendo com que os nossos olhos compreendam, primeiro, o título do primeiro álbum do cantor que revolucionou a música brasileira. Já o nome e sobrenome do músico, ganharam a cor do mar da praia de Copacabana, azul. Ao lado, João posa com os cabelos penteados e a mão direita sobre a bochecha, enquanto os olhos focam na câmera do fotógrafo.


Corta para 2021, sessenta e dois anos depois do lançamento de João Gilberto. Em 6 de abril, o cantor e compositor Filipe Mariz homenageou um dos principais músicos da MPB em seu segundo álbum, "Possa Nova". A estética é parecida, mas com um diferencial: Filipe apresenta o melhor da cena autoral de Maceió. No disco, "Possa", apelido do músico, compartilha com os ouvintes um novo Filipe, maduro e pronto para cantar e tocar sobre suas últimas experiências.


Quando pergunto sobre a ideia de trazer João Gilberto em sua obra, o músico me responde: "Meu pai é muito fã desse tipo de música, que meio que entrou na minha vida ali por osmose. Mas, na real, a capa do disco era pra ser eu numa bicicleta bonitona em movimento, mas um amigo lançou o disco dele com a mesma capa, aí voltei pra ideia da capa do João. O disco não é bem um disco de bossa, mas ele bebe dessa fonte e acho que tô um charme na capa, sabe?!".


Ao lado de LoreB, Yo Soy Toño, Robson Cavalcante, Leo Bomeny e Felipe De Vas, Possa embala canções de amor(es), construindo uma obra para ser compartilhada com os amantes sonhadores, ou seja, indivíduos que são capazes de sentir, sofrer, reconhecer, viver e, principalmente, amar.


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Você é conhecido como "Possa" e o seu novo álbum tem o título de "Possa Nova". Pode-se entender que o álbum apresenta uma nova versão sua?

O apelido "Possa" começou por volta de 2014 e ficou até hoje. Em Maceió, eu trabalho com eventos de todos os tipos, desde festivais culturais a festinhas muito loucas e acabou que o "Possa" remeteu muito a isso, sabe? Conhecem a "Festa do Possa" e muitas pessoas não sabem nem que meu nome é Filipe [risos]. Então, pode-se dizer que o "Meu Nome Não É Possa" (2018) [seu primeiro álbum] é justamente nesse sentido de dizer: "Ó, o Possa também é o Filipe aqui que canta músicas de amor" e o "Possa Nova" é um novo ciclo que tô passando nesse exato momento.


Suas novas canções contam histórias de amores. Como foi escrever essas músicas que também traz sua biografia? Alias, trazer suas vivências foi em algum momento difícil?

São sentimentos comuns a todos nós. Quem nunca se apaixonou ou sofreu por amor? O meu primeiro disco, eu sinto mais inocente, sabe? Tava descobrindo o que era amar uma pessoa muito especial que guardo com muito amor até hoje. No "Possa Nova", escrevo músicas sobre uns cinco relacionamentos diferentes. Criei esse hábito de, sempre que tenho um sentimento muito forte, escrever no bloco de notas já para sanar minha ansiedade. Algumas delas foram pontos finais, pois tenho muita dificuldade de desapegar de uma pessoa que gosto, outros foram pontos de partida. Eu sei que amei, fui amado de volta, mas também senti na pele a rejeição e o medo dela. Mas, de tudo que vivi, guardo aqui comigo no coração as pessoas que amei, que amo e que talvez nunca deixe de amar.


Neste álbum, você reúne diversos artistas contemporâneos. Você já tinha trabalhado com alguns no primeiro álbum. Como foi esse reencontro e quais motivos para continuar trabalhando com parceiros?

Eu comecei a gravar as músicas meio sem saber quem ia cantar. Propus a algumas pessoas que acabaram deixando pra depois ou não combinando com a música, mas o critério de escolhas foi admiração mesmo - pela voz, pelo trabalho, pela amizade. Gosto muito de todos e fico muito feliz por ter dado voz a pessoas que são muito talentosas e ainda não se lançaram na carreira da música, além dos meus parceiros de longa data. Maceió é pequena, sabe? Meio bairro, acaba que quem está trabalhando de verdade se conhece, apesar de como toda "cena" ter seus núcleos e grupos de afinidade. Em resumo, tenho a certeza que escolhi muito bem as participações e tenho um carinho e afeto real por elas.


Você lançou um álbum durante a pandemia. O isolamento social influenciou no processo e no lançamento? Criar, mixar, montar um álbum durante esse momento foi difícil?

O processo foi bem solitário, não pude reunir uma banda, então gravei o disco todo antes de gravar de verdade. Tava com tempo, né? [risos] Depois, fui chamando os músicos que colocaram os instrumentos individualmente, alguns de forma remota, outros presencialmente - mas com os devidos cuidados.



"Possa Nova” foi produzido por meio do apoio da Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas (Secult/AL) e do incentivo federal da Lei Aldir Blanc. Inclusive, é com esse álbum que ouvimos a voz do cantor e conhecemos a fundo Filipe, concluindo que não é possível separar o criador da obra.

Você é uma das vozes mais importantes e conhecidas da cena independente de Maceió. Tem alguma pressão que foi imposta em você e tu precisa entregar um resultado esperado para os ouvintes, principalmente nos dias sombrios que estamos vivendo?

Nossa, sim! Eu sou muito engajado na música em Maceió, e isso me traz uma cobrança bem doida. Imagina eu lançar um disco que tem algum erro grotesco? O que meus clientes de áudio vão achar de mim? Em resumo, masterizei esse disco oito vezes! Todos os dias encontrava algum erro, ou algo que me incomodava, e entre num loop de perfeccionismo até chegar aonde estou agora, que eu não mudaria nada! Evito até ouvir novamente pra não me arrepender de alguma decisão que tomei, isso tem sido bem positivo pois estava ausente do estúdio antes da pandemia, me dedicando mais a produções de eventos por ser um nicho que estava me dando mais retorno financeiro. Hoje, o estúdio está com agenda cheia e fico muito feliz pelo feedback que meus clientes me deram, espero continuar entregando coisas boas pra eles.


O setor da cena independente cresceu, mas ainda passa por diversas dificuldades. Quais são as dificuldades que você passou e/ou passa e qual o impacto da internet em sua carreira?

Eu escuto reclamações sobre algoritmos diariamente, as pessoas falam muito sobre isso, né? Como o Mark Zuckerberg tenta obrigar a gente a pagar pelo alcance, por exemplo. Mas não tenho o que reclamar não, o disco tá sendo ouvido e tá muito do boca a boca mesmo. Apostei no engajamento orgânico, em pessoas divulgando para pessoas, cada músico(a) e artista compartilhou com sua rede de relacionamentos e tornou esse disco um fator que parou o Instagram no dia que foi lançado, tem gente que nunca mais vai querer ver a minha cara novamente.


Para esse ano, você pretende fazer lives, apresentar o disco pela internet? E quando todo mundo estiver vacinado, podemos esperar shows?

Tenho algumas coisas em gatilho, por esses dias saí um clipe, tenho um vídeo live e em breve o show em formato live também, só estou esperando as coisas melhorarem um pouco por aqui, não tem como fazer o show que espero sem reunir pessoas, sabe? Quero alguns cantores presentes e, quando tudo isso passar, pode ter certeza que vou fazer um grande show, num teatro gigante com um terço das cadeiras ocupadas [risos].


"Posa Nova" está disponível em todas as plataformas de streaming - e já entrou para o top 10 de melhores álbuns nacionais do Desalinho. Ouça, compartilha e viva a (B)Possa Nova!

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