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O encontro de Sinuhe LP e João Albino

Foto do escritor: Michele Costa
Michele Costa
há 15 horas
15 min de leitura

Em "Famigerado", conto de Primeiras Estórias (Nova Fronteira, 2001), João Guimarães Rosa transforma o encontro entre dois homens em uma experiência atravessada pela linguagem. Damázio, um jagunço que desconhece o significado da palavra que dá título à narrativa, procura um médico para descobrir se foi elogiado ou ofendido. O que começa como uma dúvida sobre uma palavra se torna um encontro entre mundos diferentes. Inspirados na narrativa, Sinuhe LP e João Albino encontram um ponto de partida para contar a própria história. Amigos de longa data, os dois músicos de Bauru (SP) encontraram na música um território compartilhado e, agora, transformam essa amizade em São Ão Tem Razão (2026), EP sobre as muitas formas de encontrar alguém e também de se perder, se reconhecer e abrir caminhos.


O título nasce desse desejo de transformar o encontro em personagem. "São Ão" é uma entidade inventada a partir da sonoridade da desinência "-ão", tão presente em palavras que atravessam a experiência humana: canção, relação, afirmação. A brincadeira com a língua encontra uma referência direta em Guimarães Rosa.


Na literatura do escritor mineiro, a palavra nunca fica parada, ela anda, ressoa e abre espaços. Em São Ão Tem Razão, Sinuhe LP e João Albino partem de um movimento semelhante: ampliar uma pequena terminação até transformá-la em universo. O "-ão" deixa de ser apenas sufixo e vira lugar de passagem.


"A canção por si só é uma entidade de qualidade poética, símbolo da arte do encontro. Muitos artistas brasileiros já falaram da vida como a arte do encontro e isso também resume a canção muito bem. É como se a literatura e a música estivessem sentadas, uma de frente para a outra, para um jogo de damas, na praça central da cidade, ao lado de um coreto, de uma igreja, e de uma sorveteria. Esse é o universo das canções do nosso EP.", destaca Sinuhe LP. 


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Vocês são amigos de longa data e já tocaram juntos em outros projetos. Como esse projeto surgiu especificamente? 

João: A gente se conhece há dez anos. A nossa vida se encontrou pela música. A gente já meio que tinha se esbarrado antes desses dez anos, mas nunca conversamos. E aí, por intermédio de uma pessoa conhecida em comum entre nós, ela falou “cara, eu conheço uma pessoa que tem um interesse em música também, acho que faria sentido ter esse match.” [gesticula com as mãos] Foi aí que a gente se encontrou e já nasceu uma música, que inclusive tá no EP, que é “Hoy No”. E aí, o projeto surge porque... A gente teve a banda Os Últimos Escolhidos do Futebol que foi ali de 2020 até 2024, por aí… E a gente foi compondo coisas que talvez não se encaixavam necessariamente dentro da linguagem dos Últimos - e essas coisas ficaram guardadas. E aí, tem um interesse em comum também de músicas que a gente admira e artistas que a gente gosta, que não se encaixavam necessariamente dentro dos Últimos, e aí, meio que a gente foi tentando entender... Eu acho que essas músicas eram legais demais pra estarem guardadas, né? Então, eu acho que em algum momento a gente falou “ah, vamos colocar em algum lugar.” E aí, começou a virar. [gesticula com as mãos] Antes de ter qualquer conceito sobre São Ão, qualquer coisa sobre seu encontro e tal, a gente tinha o desejo de fazer essas músicas que a gente encontrou que não se encaixavam dentro dos Últimos. 

Sinuhe: Então, entre idas e vindas, o encontro com esse projeto, conseguiu acontecer no ano passado e este ano. Porque aí a banda terminou, a gente tá num hiato, né, e aí a gente conseguiu dar vazão a esse projeto. Então, por isso que o encontro, ele acontece nesse momento. Acho que foi o momento que a gente conseguiu que ele viesse a emergir porque antes a gente tava tomado por uma série de coisas que não parecia ainda ser o momento para o registro dessas canções. Chegamos até a falar em algum momento de fazer, aí não foi pra frente e tal, e aí agora, finalmente, no ano passado, a gente sentou pra que a coisa acontecesse mesmo. 


sinuhe lp joão albino
(Créditos: Divulgação/Reprodução)

Essa ideia de encontro, ele tá presente desde o início. Ela foi modificada durante a pandemia ou ela segue com o mesmo propósito?

João: Acho que é um bom ponto. [olha para o lado direito] Muitas canções nasceram na pandemia. Eu acho que muitas das canções que estão… Mas eu acho que a ideia do encontro foi amadurecendo, pensando nesses últimos tempos. A gente tá morando em São Paulo há alguns anos já, e eu acho que vai um pouco dessa questão da vida adulta, porque a gente convivia muito tempo junto. Eu, Sinu e os meninos da banda, a gente convivia muito tempo junto e eu acho que entra um pouco dessa questão da vida adulta da dificuldade [gesticula as mãos] de se encontrar. Eu acho que o primeiro ímpeto vem disso, assim, essa questão. E aí, a gente começou a entender que o significado desse encontro, muitas vezes, levava pra algo além,  algo meio que transcendia pra algo muito especial, né? Tipo, fazia sentido a semana. Tipo, um grande domingo faz sentido ter um domingo na semana. [sorri] 

E aí, eu acho que essas ideias foram sendo acumuladas com o amadurecimento nosso, inclusive, das dificuldades de se encontrar em São Paulo hoje, da importância desses encontros que a gente tem, dessas pessoas que são muito quistas, assim, muito queridas da nossa vida e tal. E aí, quando a gente chegou pra produzir o EP, produzimos num lugar que é muito significante pra gente, que foi no sítio do Paulo [Nunes], que é um amigo nosso, inclusive, fez parte d’Os Últimos, a gente reuniu, tipo, um megazord [risos], um grande conjunto de pessoas que foram muito especiais. Eu acho que ali tem um clique de falar “cara, a gente só conseguiu viabilizar isso porque a gente conseguiu colocar essas pessoas aqui junto”, “a gente tá aqui junto e é difícil estar junto hoje em dia.” Eu acho que meio que nessa questão de dificuldade, nesses pontos, a gente foi entendendo o significado da coisa e eu acho que ali ficou um pouco mais materializado do porquê da celebração, o encontro, sabe? 


O mais curioso do trabalho é a palavra que vocês usam: encontro. Em nenhum momento passou pela cabeça ter outro nome, talvez, parceria, amizade ou outro sinônimo? Por que encontro? 

[breve silêncio] Sinuhe: Olha, eu não sei, eu acho que o que vem, Michele, é justamente dessa questão do sítio. Eu acho que se a experiência não tivesse sido no sítio, não seria o encontro, a palavra. Aí eu acho que poderia ter sido parceria, eu acho que não teria sido essa questão do São Ão, sabe? Eu sinto que essa questão de encontro, do conceitual sobre encontro, aconteceu no sítio, dessa experiência que foi transformadora, de fato, pra nós, como o João falou. O momento da gente vivendo juntos, uma coisa meio espelhada a Novos Baianos, né, tipo no sítio,  juntos, conectados, eu sinto que foi desse lugar, porque antes... Aí, Johnny, não sei se você lembra, mas eu não lembro da gente tá  tocando em assuntos de encontro antes disso… 

João: Não, acho que não - respondo direto. [sorri] Mas uma coisa que me veio Michele, com essa pergunta que você trouxe, é que pra mim, o projeto, é um terceiro. Tipo assim, porque existe o projeto Sinu, que é uma linguagem do Sinu, e tem um projeto que é meu, que é uma linguagem minha, né, duas carreiras que a gente vai colocando coisas, solo ali, e aí existe São Ão que é uma terceira coisa porque ela tem uma questão pop, mas tem a questão de literatura, que é muito do Sinu, mas tem uma questão pop que é muito minha que eu gosto muito. Então, tipo, eu acho que tem um pouco da linguagem [gesticula as mãos rapidamente] das coisas que se fundem e produzem uma coisa, porque não é parceiro… Pra mim, São Ão existe e é uma terceira coisa pra além de nós - por isso, pra mim, o encontro cabe melhor porque produziu algo que não é só Sinu ou só João, é uma outra coisa que mistura os dois e tem outra questão, outro significado, sabe?


"Nós nos encontramos na música e acreditamos nela, por isso estamos colocando esse novo projeto no mundo. Lá em Bauru nós já abrimos muitas portas dos encontros, agora queremos descobrir quais outras podem ser abertas aqui na capital." João

Encontros podem mudar vidas, inclusive, o encontro entre vocês continua impactando vocês dois. Há algum encontro - pessoal ou artístico - que tenha mudado definitivamente os caminhos de vocês? 

Sinuhe: Cara, completamente. Se eu não tivesse o encontro com o João, eu não estaria aqui, eu não teria feito metade das coisas que eu fiz da minha vida por conta desse encontro com o João. Eu já tinha admiração pelo João tocando em banda - até com coisas de banda, eu tinha uma e ele outra, a gente queria ser tão bom quanto ele, sabe? -, isso em 2013, a gente ficava admirando e queria fazer igual, imitar, ir no mesmo estúdio etc. A partir do momento que o João entra na banda, tudo muda, porque a gente teve que reordenar a banda, repensar na forma que a gente tocava porque, querendo ou não, o João contribuiu muito artisticamente à banda… Foi um encontro de divisão de águas. Um professor meu de história dizia que não existia hipótese na história, não existia o e se, mas se o João não tivesse entrado, talvez a banda não tivesse tanta continuidade como teve [sorri] e não estaríamos aqui, eu e ele [aponta para a tela do computador]. É um encontro transformador. 

João: Total! Quando os encontros são saudáveis, eles são engrandecedores para a própria caminhada dos dois, dos três, de todas as pessoas. Pra mim, uma coisa que dá significado ao encontro, é quando esse encontro abre possibilidades múltiplas que você não conseguia enxergar como a caminhada tava acontecendo. Com o Sinu, pra mim, é um encontro que coloca em outro lugar: a música brasileira, a literatura. Quando a gente se encontrou, esse universo [gesticula com as mãos] formou outro universo. Hoje, pra mim, os encontros são fundamentais. Eu não consigo pensar hoje na minha vida sem os encontros - pra mim, um encontro mais construtivo é quando ele consegue trazer esses novos ares. 


Se a música é “arte do encontro”, o que acontece quando duas pessoas se encontram através de uma canção? Aliás, o que a música consegue aproximar? Ela é mais fácil do que dizer palavras?

João: Ih, acho que música não é fácil não. [risos] Tem muita competitividade na música, então, não é fácil encontrar essa parceria, esse jeito de se encontrar, essa energia dentro da música. Acho que só acontece quando - baseada em uma relação construtiva -, de fato, bate muito a ideia. Isso foi muito louco porque a primeira música que a gente fez, faz dez anos e a gente continua fazendo música, porque não tenho outra parceria como essa que eu tenho com o Sinu. Isso não é comum, eu não consigo ver isso em outros lugares. Óbvio, a gente se espelha em parcerias que levaram muito tempo [aponta para a câmera e ri], algumas parcerias que a gente se inspira deram chabu - inclusive, tava vendo que João Bosco e Aldir Blanc já tretaram uma vez. 

Sinuhe: Eu também tenho uma sensação hoje - eu sou uma pessoa muito nostálgica, gosto muito de ter saudade - que eu gostaria muito de saber que outras canções podem vir minhas e do João, sabe? [sorri] Isso pra mim é muito inspirador, isso me inspira e me motiva. Eu queria saber quais outros temas [vão aparecer], como vão nascer as canções, quais outras letras que vamos propor, outras melodias e tal… Acho que isso é mágica, tá em lugar que tá além do que a gente pode se aproximar, sabe? Temos ideias já, mas quando se junta pra propor vem uma outra coisa. Eu quero muito ver isso e que legal que existe essa parceria longeva. Eu admiro essas coisas que eu ainda não conheço.  

No final das contas, tudo vira música ou vocês vão para outras linguagens? 

João: Eu vou falar na minha perspectiva que deve ser um pouco diferente da do Sinu. Pensando em linguagem de arte, pra mim é música - eu sou da música e gosto de pensar em música. Mas eu tenho uma brisa de pensar também na introdução da música [gesticula com as mãos],qual o arranjo que tá por trás, como fazer esse arranjo, quem fez e porquê fez… Tudo que eu penso, de alguma maneira, reflete dentro disso. 

Sinuhe: Eu curto principalmente a parte da literatura, eu sempre via um pouco a música um pouco nesse lugar também. A parte do audiovisual eu também gosto bastante, essa parte de arte e criação audiovisual, como também pensar no show… A gente já teve experiências [olha para cima] que já tentamos fazer, tipo, passar um texto que eu escrevi pro João e ele tentar fazer uma música [baseado no texto] ou ele me dá um rastilho para eu fazer uma fogueira, uma coisa maior… Isso é muito legal. “Dona Dilce” é uma composição nossa que eu amo [ênfase na palavra], lembro que o João tinha comentado comigo que ele queria falar sobre benzedeiras, sobre as benzedeiras de Bauru, e é muito louco porque o João foi benzido em Bauru por uma senhora e eu também fui benzido por outra senhora e eu comecei a entrar nessa brisa de lembrar da Dona Dilce me benzendo, da infância, que morava na rua do João… 

João: Isso é muito louco. 

Sinuhe: Eu gosto de pensar, de imaginar, que essas coisas já estavam meio organizadas, predestinadas. O João tinha essa melodia e ele tentou passar para um outro projeto que a gente tá fazendo com outras amigas, não rolou, ninguém se mexeu, mas quando ele me mandou, me tocou. E é isso: é muito interessante porque nessa melodia a gente não colocaria uma benzedeira, o tema benzedeira, numa melodia tão animada, mas fica uma coisa artística e bem original da carreira solo do João. 

João: Lembro que surgiu primeiro a melodia e eu tinha jogado e ninguém tinha engajado e isso acontece muito também [risos], mas eu gostava muito dela e eu sabia que tinha que fazer alguma coisa com ela em outro momento. Lembro uma vez que a gente tava conversando sobre benzedeiras e, sei lá, senti cheiro de arruda um dia e o cheiro de arruda me lembra o benzimento… A gente começou a conversar, bateu o santo, e foi muito louco como ela foi surgindo… Quando deu um significado pra ela, surgiu muito rápido. 


O que, especificamente, na obra e na linguagem de Rosa provocou em vocês durante o encontro e que continua provocando enquanto compositores? 

João: Vou falar a minha perspectiva: um dia eu estava lendo Primeiras Estórias, li todos os contos, mas teve um que eu amei e que tem uma questão cômica por trás… Achei interessante como ele vai criando uma tensão até o final e ele dá um [bate uma mão na outra] puch no final que é o “Famigerado”. É o meu preferido até hoje e eu falei isso pro Sinu - nisso já tava o conceito do encontro, já tinha um fio da meada ali, só precisava dar um título -, e dentro da linguagem do Guimarães Rosa, o Sinu falou “acho que tem uma ideia de um nome aqui.”

Sinuhe: Tem uma questão que esse conto, “Famigerado”, é um conto sobre encontro na terra de São Ão. Guimarães Rosa é uma grande referência pra mim. Eu não me vejo fazendo uma letra [baseada em] Guimarães - eu lembro que conheci uma compositora que ela dizia que pegava um livro do Guimarães Rosa, abria e escrevia uma letra. Eu nunca vou querer simular esse texto do Guimarães Rosa, porque isso é ele, ele nasceu em Cordisburgo (MG) e eu em Bauru. [risos] Eu acho que Guimarães Rosa tem uma obra profundamente conectada ao encontro. Grande Sertão Veredas (Nova Fronteira, 2015), por exemplo, é marcado por encontros: Riobaldo e um senhor da cidade hiper letrado que vem para ouvir sua história, mas tem a questão do Riobaldo enquanto menino encontra seu pai que não é pai [gesticula com as mãos], enfim, é tudo sobre encontro. É um autor que tem tudo a ver com o que a gente tá falando aqui e é também um cara que sempre liga a espiritualidade - é um cara que vai dizer: “Tudo pra mim é viagem de volta” ou “As pessoas não estão terminadas”; a minha parceria com o João não tá terminada, a gente tem coisas por compor pra que fique completo, pra que sinta o todo. 


A frase emblemática de Grande Sertão: Veredas, “o sertão está em toda parte”, traz a ideia de que determinados espaços podem existir dentro de nós. Podemos dizer que os encontros de São Ão tem Razão constroem também seus próprios sertões, ou seja, lugares de travessia e descoberta? 

João: Eu acho que sim, cada uma das composições tem um tipo de encontro. A gente consegue olhar com essa perspectiva… Nesse universo de diferentes tipos de encontro, pra mim, é onde mora o barato da coisa. “Infância”, pra mim, é um encontro com essa questão do passado e como esse diálogo continua vivo. [gesticula com as mãos] Fazendo terapia por muitos anos, [vi] como esse passado continua vivo. “Hoy No” é a questão do desencontro ou a necessidade de repensar alguns encontros. “Um Quarto de Mim” é um encontro que quer acontecer - ela foi tomando outro significado ao longo do caminho -, algo do tipo “quero fazer acontecer esse encontro, a gente dá um jeito”; e “Escola de Jorge” é um encontro com as referências, com as coisas que nos ditam de alguma maneira ou ajudaram a guiar o nosso caminho e que estão além do que a gente não consegue ver. São quatro diferentes tipos de encontros. 

Sinuhe: Concordo muito e complemento a fala do João dizendo que as canções também são lugares que a gente acessa. Quando você acessa a infância com “Infância” você tá se teletransportando para o lugar que não é o sertão, mas é um lugar daquelas imagens que constam naquela canção, naquela guitarra que o João trouxe e que me transporta para outro lugar. A gente trouxe a porta como conceito do projeto e é isso: as quatro canções são quatro portas distintas para quatro lugares diferentes que se comunicam, que se conversam e que fazem parte de um todo, mas apontam para lugares distintos. 


"O EP é uma dessas chaves para abrir essas portas e promover novos encontros." Sinuhe

Em “Um Quarto de Mim” vocês cantam “a gente tem medo de caber em qualquer lugar.” Do que exatamente temos medo quando encontramos um lugar - ou alguém - que finalmente podemos caber? 

[breve silêncio] Sinuhe: Minha terapia já foi de manhã, Michele. [sorri] Esse verso é ambíguo porque, primeiro, pode ter uma interpretação “eu tenho medo de caber em lugar qualquer”, [ou seja] eu não quero caber em qualquer lugar, quero caber no lugar. E uma segunda interpretação é “qualquer lugar que eu for me encaixar, eu tenho medo.” Acho que penso nessas duas coisas quando eu escuto esse verso… Tudo que é novo e a gente se propõe a caber, provoca medo - o medo faz parte também, não acho o medo ruim. 

João: Eu acho interessante porque dependendo do dia esse verso bate de um jeito diferente. Dá pra ver nessa perspectiva do receio em si, mas também tem um lugar de “já ocupei alguns lugares e entendo o lugar que quero ocupar agora” - depende do dia pode bater de um jeito diferente e aí a terapia pode ajudar de um jeito diferente. [risos] 

Sinuhe: É! E pra quem eu quero liberar um quarto de mim? Esse é o grande ponto. 


Já em “Infância”, o encontro acontece entre o adulto que vocês são hoje e a criança que foram. Ao revisitar esse lugar que um dia pareceram enormes e hoje se tornaram miniaturas, o que vocês descobriram sobre as pessoas que se tornaram?

João: Pô, tá puxando uma sessão de terapia. [risos] Esse lance de infância, essa questão de revisitar o passado Michele, tem um ponto interessante porque ela surge visitando uma casa antiga - a ideia surgiu, Sinu foi trazendo a letra e a gente foi conversando - que eu morei, inclusive, a gente se encontrou nessa casa pela primeira vez. Quando eu volto pra essa casa, ela me traz dois lugares: 1) entender como esse passado ainda é presente de diferentes maneiras - a porta está no meu imaginário, ela ainda está ali de uma maneira presente e isso é importante porque me descreve de alguma maneira - e 2) talvez o bicho papão da infância, que tenha vindo de crenças da infância, eu consigo contrastar com o que acredito, com o que eu sou hoje. Tem momentos em que eu olho pra “Infância” e penso “olha, que gostoso era chutar a bola no quintal dessa casa” e, ao mesmo tempo, tem o bicho papão que vieram com estigmas e coisas que ficaram na cabeça que é legal contrastar pra evoluir de alguma maneira. [Em seguida, João sai da conversa para retornar ao trabalho] 

Sinuhe: Tem a questão que a infância também tem esses momentos que estão nas outras canções. “Hoy No” é o amadurecimento da criança, dizer os primeiros nãos - acho que “Hoy No” é um pouco sobre isso, dizer não. 


Ainda na mesma canção tem o verso “me mudei de tantas formas que a figura se esqueceu”. Essa transformação pode ser entendida como um desencontro com quem fomos? Ou revisitar a infância seria justamente uma maneira de reencontrar essa pessoa para fazer as pazes ou não? 

Sinuhe: Eu acho que sim. O motivo dessa canção, como o João falou, foi ter ido até a casa que ele morou e, de repente, a porta que era grande, na verdade, é uma porta pequenininha. Quem atribuiu que a porta era grande ou que a porta era pequenininha? A mesma pessoa que também não é a mesma pessoa, por isso, “criatura e criador” que também é criador e criatura. É sobre essa mudança de olhar.


“Escola de São Jorge” reúne fé, proteção, coragem e memória familiar. Pedir a benção para abrir os caminhos é também uma forma de reconhecer que nenhum caminho é percorrido completamente sozinho? 

Sinuhe: Totalmente. Jorge Drexler vai dizer que a gente tem que “amar mais a trama do que o desenlace.” [verso da canção "La Trama Y El Desenlace", disponível no disco Amar la Trama (2010)] A gente tem que gostar mais da travessia de Grande Sertão: Veredas do que de fato chegar ao final, ao símbolo do infinito. Tudo começa de novo. O legal da coisa é justamente essa passagem que nós fazemos juntos.


O encontro dos dois amigos segue ecoando e travessando todos que os ouvem. Em novembro, a dupla apresentará São Ão Tem Razão em São Paulo. Acompanhe o Instagram para não perder nenhuma informação.



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