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  • Foto do escritorMichele Costa

A janela laranja de Felipe Parra

Janelas existem em diversas partes e vão além de uma simples abertura. Explico melhor: as janelas são vistas em casas, estabelecimentos, livros, sonhos e pessoas. Ao deixá-las abertas, é possível sentir, viver e começar uma nova história - seja ao lado de outras pessoas ou sozinho. 


Após dois anos de Estrela, seu primeiro álbum, Felipe Parra compartilha sua trajetória - acompanhado de artistas com vivências parecidas - em Janela Laranja, EP lançado em janeiro deste ano. Nele, o músico traz o som da periferia dos anos 90 que o moldou como indivíduo. Além disso, o disco traz beats que alinham jazz e R&B com melodias delicadas, contribuindo na intensidade do cantor, que alcançou seu ápice como compositor abordando com carinho e dedicação o que lhe apaixona e com dureza o que sempre precisou lutar contra. 


As janelas de Felipe Parra foram transformadas após aceitar um desafio bem particular para a construção do EP: compor totalmente em estúdio junto de outras pessoas. Dessa maneira, Felipe precisou compor em cima dos instrumentais que iam nascendo na hora, com a missão de construir um trabalho único, fruto daqueles momentos que passavam juntos. Assim, surgiu Janela Laranja que conta com participações de Uterço, figura lendária do rap nacional, Mel Duarte, escritora e poeta, e a rapper Preta Ary. 


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Em 2022, você lançou o álbum Estrela e, agora, apresenta Janela Laranja. O que mudou de lá pra cá?

Acho que mudou o meu jeito de escrever. A gente segue evoluindo, né? Hoje eu me sinto muito mais à vontade para falar de assuntos que antes eram mais difíceis pra mim. Falar de questões mais pessoais, de tristeza, de ansiedade. Acho que muita gente acaba se relacionando com isso. Além disso, tem a parte sonora. A gente explorou muito esse som de baile brasileiro dos anos 70 - Tim Maia, Cassiano, Hyldon - pra fazer Estrela. Com Janela Laranja eu me permiti aprofundar mais na linguagem do hip hop, que é algo que sempre foi muito importante pra mim. 


Janela Laranja traz a sonoridade da periferia dos anos 90 e participações especiais. Como foi trabalhar com essa sonoridade e outras pessoas? 

Sempre busco fazer uma música que seja popular e acessível. Tenho muita bronca desse conceito de "música boa'' porque, pra mim, ele vem junto com uma carga elitista enorme. Geralmente o que é bom pra essas pessoas não é popular, então esse é sempre um direcionamento pra mim. Fazer algo de fácil identificação, o que não necessariamente quer dizer ser simples.

E trabalhar com Uterço, a Preta Ary e a Mel Duarte foi fantástico. Eu sou fã do trabalho deles e curto muito quem chega pra somar. Não gosto muito de direcionar as pessoas que trabalham comigo. A graça, ao meu ver, é justamente aproveitar o olhar das outras pessoas na minha música. E ter artistas tão incríveis foi maravilhoso. Gosto muito do que fizemos juntos. 


Aliás, me pergunto o significado do título do álbum. O que é uma janela laranja?

Janela Laranja pode ser aquele pôr do sol bonito que só uma cidade poluída como São Paulo pode nos proporcionar. O feio que se torna belo. Mas também é um jeito de olhar pra frente, pro horizonte, pro passado e pro futuro, tudo no mesmo lugar. Cada um tem sua própria Janela Laranja pra olhar, não é?


O processo de criação para esse EP foi alterado: você se uniu com os músicos para compor juntos. O que achou desse desafio? Pretende seguir esse modelo no futuro? 

Achei bem interessante, porque é uma forma de criar novos caminhos criativos pra minha cabeça. Buscar novas soluções. É algo muito mais exposto do que já chegar com tudo pronto, mas acho que essa espontaneidade faz com que a gente consiga coisas muito legais. Pretendo fazer mais dessa forma sim, ou talvez misturar um pouco dos dois modelos.



Janela Laranja é um trabalho mais maduro e único. Como você tem se sentido após colocá-lo no mundo? 

Me sinto muito feliz e orgulhoso. É legal a gente sentir que conseguiu colocar no mundo algo que é tão sincero e único pra mim. Esse sentimento é bem gratificante. E mais legal ainda por sentir que muita gente tem se identificado, curtido e tudo mais. 


Foi difícil compartilhar suas vivências e sentimentos com o público?

Sempre é difícil. Mas não dá pra titubear. Se ficar com a sensação de dúvida ou hesitar se deve se expor ou não, acaba criando uma espécie de autocensura que deixa o trabalho muito mais amarrado. Arte é pra ser sentida, né? Obviamente, cada pessoa vai interpretar de uma forma diferente aquilo que eu escrevi, então essa nóia de se sentir exposto nem faz tanta diferença no final das contas. É mais um bloqueio que temos que superar com a gente mesmo. E eu acho que vale a pena demais.


O que você espera para o futuro? É possível que a janela fique mais colorida? 

Tomara que sim :) Mas é bom lembrar que tem dias bons, dias ruins e todos eles são importantes pra gente seguir por aqui. Pro futuro eu espero seguir fazendo música, seguir trabalhando com quem eu admiro, seguir sendo ouvindo, seguir sonhando. Em resumo, seguir. Tenho muita sorte de estar onde estou e sou muito grato a cada pessoa que pára pra me ouvir. 

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