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  • Foto do escritorMichele Costa

A multiplicidade de Thays Prado

A primeira vez que falei com Thays Prado foi em março de 2021, ápice da pandemia, pelo hangout do Gmail. Retorno o contato dois anos depois, agora pelo Zoom, para falarmos sobre o seu primeiro álbum, Falta de Jeito, que teve início em 2019 e foi lançado em outubro deste ano.


A timidez do primeiro contato ficou para trás, ou seja, a cantora está mais solta e comunicativa. Iniciamos o papo falando sobre o tempo e como ele influencia nossas decisões, além de ser a melhor medida para curar feridas e amadurecer ideias. Após dois anos e meio de isolamento, o ser humano continua correndo contra o tempo para recuperar o tempo perdido e viver intensamente ao lado das pessoas que gosta. Podemos incluir Thays neste grupo: por mais que sua carreira carregue apenas o seu nome, ela prefere estar acompanhada de amigos que contribuam para novas interpretações e ensinamentos.


Ao lado de João Pedro Cé, Eduardo Lara, Aline Araújo, Josué Oliveira e Lu Mello, a artista apresenta sua multiplicidade em diversos gêneros musicais. A calmaria e a solidão de Vals de Los Abuelos e Popô, singles lançados em 2021, ficaram para trás; agora Thays Prado utiliza ritmos dançantes para retratar as várias esferas da vida contemporânea. Ou seja, Falta de Jeito é um disco que retrata nossas angústias e histórias com uma boa pitada de humor.


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A primeira vez que nos falamos, vivíamos em uma pandemia e achávamos que nunca passaríamos por aquilo, mas deu certo! Já estamos vivendo outro período, você lançou o seu primeiro álbum... Como você tá?

Tô bem feliz, né?! Eu acho que realmente… Enquanto tava em suspenso por vários momentos parecia que não ia rolar, né. E agora, ter conseguido terminar ele e ter feito o show de lançamento foi bem clichê, mas foi um sonho realizado, foi bem maluco. Enfim, por razões geográficas, acabei fazendo o final da produção sozinha, porque o produtor [João Pedro Cé] tava em Salvador e ele veio para tocar no show [realizado no dia 18 de outubro] e foi também muito louco, porque quando ele foi pra Salvador eu pensei: "pronto, nunca mais vou tocar esse disco". Quando ele disse que tava vindo e que dava pra gente fazer isso, a gente meio que correu com o lançamento pra encontrar essa data, então, foi uma maratona que meses atrás eu nem pensava que eu estaria fazendo.


E o que mudou daquele tempo, de quando nos falamos pela primeira vez até hoje?

Eu acho que especificamente [foi] em relação à música. Desde aquela época o que mudou foi uma espécie de chavinha que girou pra mim em termos de performances, sabe? Eu acho que tenho menos insegurança sobre eu estar ou não fazendo isso, porque eu acho que desde o começo é normal, mas eu ficava me perguntando se toda aquela trabalheira fazia sentido para os outros, o que eu tava oferecendo de fato ou se eu não tava viajando na batatinha. Desde que eu comecei a tocar com As Inquilinas, em novembro do ano passado, parece que eu consegui entender o que é fazer uma coisa que a gente quer fazer, né. E que isso é suficiente e que contagia as pessoas - não é esperar que as pessoas queiram, é justamente querer tanto que as pessoas passam a querer junto contigo. Acho que isso tem sido muito mais fácil de trabalhar agora que eu me dei conta disso [risos].


Como é sair daquela solidão e ter mais contato e ter uma banda ao seu lado?

Essa é a melhor parte na verdade, porque quando eu toco com o violão sozinha, em geral, é só pra mim mesmo. O trabalho com a banda do disco também foi nesse sentido: eu compunha as coisas sozinha em casa, mostrava para o João primeiro e depois pra banda, conforme fomos criando essa intimidade e o pessoal fazia aqueles arranjos todos com base nesse sonzinho pelado que eu mostrava. Aí teve esse momento da pandemia em que eu voltei para essa coisa de tocar sozinha, que não é meu chão, não me considero uma instrumentista maravilhosa, mas eu acho que como cantora até me garanto, mas como instrumentista eu sempre fico meio assim, né... Pra mim é muito bom estar com mais gente, porque realmente me sinto mais segura quando tem mais gente fazendo som. Voltar a ensaiar é uma nostalgia muito engraçada, porque a gente começou a gravar em 2019, antes da pandemia, o instrumental tava todo pronto e eu gravei as vozes este ano. É muito doido! É como quando você escuta uma música muito velha, da tua infância e que você não lembrava, sabe? É uma sensação bem engraçada, bem boa.


Imagino que também não tenha sido fácil você revisitar as canções e ter falado "esse trabalho vai continuar dentro de uma gaveta que ninguém vê". Aí você volta com ele e com força. Como foi a sensação de ter voltado? Aliás, em algum momento você pensou em desistir?

Sim, sim [risos]. Acho que isso passa pela cabeça da maioria de nós, né. Eu converso com as amigas também... Eu acho que desistir em si é impossível, porque mesmo que eu pare de lançar coisas, é muito difícil imaginar minha vida sem ficar cantando musiquinhas sobre o que tô pensando e sentindo. Acho que são coisas diferentes, eu não me sinto capaz de desistir de fato - e lançar é um passo. É um passo mais público, mas eu acho que esse fazer é uma coisa que eu não tenho como desver da minha vida. Acho que vou tá sempre brincando de fazer isso.


thays prado
Foto: Divulgação

E teu processo mudou? Existe uma vontade de explorar mais ao lado da banda?

Isso é muito louco, especificamente do Falta de Jeito. Tem muitas letras nele que pincelam o fim do mundo, né? Mesmo que ele seja muito animado, eu sinto que ele vem de um lugar que já não é exatamente otimista, mas que ao mesmo tempo tenta fazer essa limonada. Acho que essa volta ao convívio social me deu muita vontade - aliado ao momento histórico - de aproveitar o que der, enquanto der. E é sobre tá junto com as pessoas que eu gosto e das pessoas que eu ainda vou descobrir... Esse potencial me anima bastante e tá aprendendo sobre produção, quanto as coisas custam, como funciona para circular... Acho que eu tô, aos pouquinhos, entendendo que isso não é tão inviável quanto eu pensava; se organizar direitinho dá pra fazer uns empréstimos, adquirir umas dívidas e quem sabe fazer alguma coisa [risos]. Mas tudo ao seu tempo, sem pressa.


Me chama atenção que antes de você lançar seu álbum, os singles tinham um ritmo mais calmo, com uma sonoridade diferente. Então, chega Falta de Jeito com letras reflexivas e animadas. Essa transformação da calmaria, vamos dizer assim, para uma coisa mais agitada, foi orgânica ou foi no meio do processo que você descobriu que queria desse jeito?

Então, acho que a transformação foi ao contrário: como esse disco é de 2019, o que tava acontecendo é que quando eu comecei a mostrar minhas músicas para os meus amigos, a banda que se formou foi essa banda super animada. Eu lembro que na época eu pensava que eu não tinha as tripas, para não dizer culhões, necessárias para bancar toda essa animação. Aí foi muito louco porque começou a pandemia, eu comecei a fazer as coisinhas que eu conseguia fazer, e quando eu voltei para esse som eu já me sentia muito mais apta para fazer essa barulheira do que eu me sentia lá em 2019. Eu até brinquei com o João: "agora que eu banco este som, você fostes embora", mas é assim, o timing de Deus é piadista. Acho que é um pouco isso, eu sou muito fã de me deixarem influenciar pelas ideias dos outros, eu não tenho uma coisa que eu quero fazer porque eu preciso fazer assim. Eu gosto de cantar e o que eu conseguir cantar, eu canto. E o que as pessoas da minha volta [fazem] vai determinar muito como eu vou fazer - e o meu foco é tocar com o maior número de gente possível. O que eu conseguia fazer na época dos singles era daquele tamainho e daquele jeitinho e muito porque eu tava sozinha, né. Agora, voltar para esse coletivo tá sendo muito legal. Não considero tanta transformação, mesmo que eu saiba que as músicas são diferentes, pra mim são aspectos da mesma coisa. Eu tenho essa vontade de fazer alguma coisa e aí: como fazer? Se for com pessoas vai ser de um jeito, se for sozinha vai ser de outro jeito, mas estamos ali fazendo.


É um álbum que dá vontade de sair dançando, mas ao mesmo tempo ele é reflexivo, porque traz diversas questões sobre a vida. É isso que você também quer passar, no sentido "temos as incertezas, mas vamos dançar"?

Olha, acho que sim [risos]. O mais engraçado é isso: cada uma dessas canções é um momento que eu vivi, seja aquelas que são mais autobiográficas, sejam aquelas que são mais exercício de escrita e que não tem necessariamente um objeto dentro delas, mas eu acho que cada uma delas tem uma historinha dentro da minha cabeça e juntar elas nesse álbum tem a ver com o que minha amiga disse: às vezes o primeiro álbum das pessoas é um best off até ali que não é necessariamente um conceito. E acho que foi um pouco disso também , eu não tinha uma intenção clara quando eu comecei o álbum. Eu fico feliz que ele seja multifacetado porque eu realmente não tava mirando em uma coisa só. Mas não tinha como ser uma coisa só e se fosse foi sem querer e daí, provavelmente, seria meio monótono... Eu tenho muita vontade que o próximo seja uma coisa mais conceitual, que eu consiga planejar ele, um segundo álbum com foco, mas tudo é seu tempo.


Você trabalha com o seu nome, mas a capa do álbum conta com a banda. Ao mesmo tempo que você está sozinha com o seu nome, você está acompanhada. Essa foi a maneira de apresentar a banda?

Sim, com certeza. Eu tinha essa ideia fixa quando a gente foi tirar as fotos da capa, pra mim não tinha outra ideia. Se não fosse essa banda, não seria esse disco. Eles são muito fundamentais para esse disco! Eu nunca quis me colocar no lugar da diva pop, por exemplo, de ter um disco com a minha cara estampada. E os dois singles não tem a minha cara, né. Eu já não tinha o interesse de usar a minha cara quando eu era jovem e fofinha, agora, com o tempo, a minha cara vai ser cada vez menos o centro da coisa e eu gostaria muito de me comunicar em outras áreas. Eu pretendo brisar bastante na arte visual dos próximos álbuns também.

É mais fácil lidar com as coisas quando se está acompanhada?

Sim, com certeza. E acho que por já ter tocado com as pessoas, agora, eu consigo tocar sozinha de um jeito menos nervoso também. Muda tudo quando tem mais gente. Por exemplo, quando a gente fez o show, metade da banda não era a mesma banda do disco, a gente teve que contratar subs... Aí conseguir transmitir isso para novas pessoas e fazer o show razoavelmente parecido com o que foi o disco sempre vai ser diferente porque cada pessoa é única, não dá para ser idêntico. Conseguir agregar mais gente porque o disco já tá lançado e a gente tem esses fonogramas para as pessoas estudarem as músicas e poder tocar também. É uma coisa que me agrada muito, porque eu gosto muito de tocar com muita gente e acho que o álbum proporciona isso de algum jeito.


Eu digo pra todo mundo que esse disco é meu e do João, que foi o produtor e meu arranjador oficial da metade de todas as faixas. A banda fez esse disco como ele é. Eu nunca disse "faça isso ou faça aquilo", eles iam fazendo e eu ia gostando, pelo contrário, o que eles diziam eu fazia.

A capa do álbum conta com algumas ilustrações. Queria que você falasse um pouco sobre essa mistura, e também o motivo do álbum se chamar Falta de Jeito. Você vai continuar sem jeito? O que é estar sem jeito?

Acho que a falta de jeito tem muito a ver com a minha vontade de fazer as coisas antes delas estarem prontas - e acho que os desenhos são um pouco disso também. Eu nunca estudei desenho, eu só gosto e também tem a coisa prática de conceder o processo de que quando chegou a hora de lançar, a gente não tinha mais a banda pra tirar foto, porque tava cada um em cada canto e aí eu fiquei na dúvida para a campanha de pré-save, por exemplo. Então, conversando, decidimos fazer um deseinho por faixa e depois a gente colocou eles na capa e aí tem uma unidade entre essa campanha de narração e o que vai ser a capa. Eu já tava brincando de desenhar desde antes, a capa de Popô eu acabei desenhando também… Eu acho que meio sem querer eu comecei a fazer isso sempre e esse conceito da falta de jeito é um bom escudo pra fazer o que eu bem entender. Acho que os desenhos também tira um pouco a seriedade das coisas, parecia que sem o desenho a música ia ficar muito chique, soando um jazz chique ou uma coisa muito mais sisuda do que eu consigo. Os desenhos foram um jeito de colocar na capa a informação de que também tem diversão neste disco, não é só um monte de gente fazendo carão numa sala, sabe? Acho que a minha tentativa foi deixar ele mais engraçado visualmente.



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