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  • Foto do escritorMichele Costa

O último ato do Cientista Perdido

A estrutura de uma narrativa é composta por apresentação, desenvolvimento, clímax e desfecho. A história - ficcional ou não - pode ser contada de diversas maneiras: escrita, falada, filmada, através de imagens e cantadas. Desde o seu surgimento, em 2018, O Cientista Perdido mistura esses elementos para auxiliar na fuga do outro. 


Após se identificar, compartilhar suas ideias, descobrir que muitas coisas cabem dentro dele e do seu mergulho íntimo e profundo, O Cientista Perdido apresenta o seu último ato: Quase a Ir-se Embora (ao vivo na Casacajá). Neste projeto, o artista apresenta versões inéditas de músicas queridas já pelo público, introduzindo uma nova fase na carreira. Seguindo a lógica de um cientista - que está sempre pesquisando - o artista percebeu que o seu trabalho estava indo para outro caminho, o pop dançante, e essa abordagem foi necessária (e aceita) pelo público que precisa se divertir após os últimos dolorosos anos. 


"Quase a Ir-se Embora vem pra registrar uma virada sonora e temática que o projeto vem sofrendo nos últimos anos. Comecei trazendo luz a sentimentos densos, pesados, direto do olho do furacão, do caos de uma cabeça ansiosa e inquieta. Reconheço a importância dessa fase, mas agora me vejo muito mais disposto a analisar as coisas pela ótica da calma, dos limites que a gente estabelece com a gente mesmo pra continuar sentindo, mas priorizando a construção de um ambiente seguro pra sentir em paz - e sinto também que o público, que o brasileiro de maneira geral, precisa desse mesmo frescor", explica. 


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As duas vezes que a gente conversou, estávamos na pandemia. E agora a gente tá em outro momento. Como que tá sendo para você? 

Pra mim sempre foi uma sensação também de que… A gente saiu daquele momento, mas aquele momento nunca saiu da gente, né? Sei lá, tá sendo muito bom. Claro, obviamente, a gente pode sair de casa e isso é bastante coisa já! É um assunto estranho porque a gente parou de conversar, né? Enquanto sociedade, sei lá, é uma coisa que a gente não aborda sobre como a gente tá lidando com isso. Nem penso nisso com a frequência que, talvez, fosse devida, né… Mas acho que ao mesmo tempo tem um alívio. Acho que é o que todo mundo pode concordar é que tem um alívio muito grande - eu acho que [esse alívio] tá parecendo no trabalho de alguma forma. A gente já conversou aqui sobre trabalhos muito densos e que talvez, agora, a gente esteja em um momento de… Não de festejar porque ele acabou ou que passou, eu não tenho essa sensação de página virada tão explícita assim, mas eu tenho a sensação de que a gente consegue lidar com eles de uma forma muito mais suave, muito mais tranquila, muito mais madura, muito mais adulta. Acho que é aí que eu tô em relação a pandemia - e já fazendo o link com o projeto: gente tá disposto a olhar para as coisas de uma outra forma. A sonoridade foi para outro lugar por conta disso também… Eu sinto muito essa ideia de trazer uma perspectiva, até por conta disso, mais festiva - eu tô relutando para falar alegre, mas é. 

Mas é!

Eu acho que… Pô, a gente ficou tanto tempo nessa desgraça desse fim de mundo, a gente merece tá feliz, tá alegre, pelo menos um pouco. Aquele alegre de adulto, né?! Mas a gente merece muito isso, sabe? Eu vejo que no independente tem um rolê de sempre tá falando de coisas muitas pesadas, muito densas - e pô, a gente vive isso mesmo, tá certo falar -, mas a gente tem que aprender junto como não surtar juntos também. Ter um momento, botar na agenda, que naquele dia, naquele momento, aqueles minutos, a gente não vai levar algumas coisas em consideração. Sabe o momento da skin care? É um momento pra mim - e é isso! Eu acho que a gente, na música, tá no momento de aprender a fazer isso, sacou? Eu vejo outras bandas um pouco nesse caminho, a Tuyo vai lançar um disco agora que tem um pouco sobre esse viés, já lançaram o primeiro single que tá muito focado nisso… E acho que, até por conta desse contexto todo, eu me sinto no dever de continuar falando sobre o que tem que ser falado, mas mudar essa perspectiva, sabe? 


No primeiro momento que a gente conversou, falamos sobre o processo de caber em outra pessoa; depois teve um mergulho muito profundo seu e agora você tá quase indo embora. Qual é o balanço do passado até o momento? 

O balanço é muito deste cansaço também, de nutrir esse tipo de sentimento, sabe? Eu acho que o Quase Ir-se Embora é muito ligado a esse momento, a essa virada de chave, de falar que isso aqui não acabou… Aliás, o que é acabar quando a gente fala de temas tão identitários, né? O que é dizer que uma parte da minha vida acabou, sendo que eu sou a mesma pessoa? Acho que até esse nome, o Quase Ir-se Embora é uma aceitação… Eu não preciso cumprir esse arquétipo do herói, que encontra a sua jornada e parte da jornada vai enfrentar uma situação e vai chegar no final onde ele vai rever tudo que ele fez, tomar uma decisão para matar o basilisco ou o Voldemort, sei lá… A gente é criado nesse tipo de narrativa e eu acredito muito que as narrativas são o que moldam a nossa visão de mundo, mas eu não acho que é saudável a gente se colocar em primeira pessoa nessa narrativa. Então, o Quase a Ir-se Embora é entender que talvez a gente tenha chegado em um final, em um deles; mas existe outras coisas que vão seguir. Então, esse projeto vem até como um primeiro registro para o audiovisual que a gente tá fazendo, do que seria nosso show, digamos assim. Depois que a gente conseguiu visualizar o trabalho mais poeticamente, [apresentamos] versões novas que estão muito parecidas… Foram feitas a partir do que a gente já tem de material pronto para esse ano agora. A gente percebeu que a sonoridade tava bem [ênfase na palavra] diferente e achou prudente e relevante reapresentar essas músicas com essa nova cara para, quando chegar o disco novo, não ser tão diferente. O Quase Ir-se Embora é isso: um último passo de uma parte do projeto e um começo de uma outra - por isso que ele tá quase. Ele não tá indo embora e nem abandonando completamente aquilo ali e nem abraçando por completo o que vem depois.


Uma coisa que me chamou muito a atenção no release é que você viu que a mudança já estava acontecendo. O que te levou pra isso? 

Olha, eu podia te dar uma resposta muito conceitualzona, mas tu é de casa já [os dois riem]... Mas o que foi que aconteceu: 2022 foi um ano que a gente tocou bastante, comparado com os outros anos, e aí a gente foi percebendo o que dava certo pra tocar ali naquele set que você viu no filme do Quase Ir-se Embora: eu no surdo e Ana na controladora fazendo ali um milhão de coisas ao mesmo tempo. Aí a gente falou: "tá, como a gente adapta as músicas para caber nesse formato e pensando no ao vivo?" - então, foi uma questão muito prática mesmo. Não foi nada planejado, nada pensado. De início, foi algo muito prático, o que a gente tem e como a gente trabalha com isso. Depois disso, a gente começou a falar "tá legal" e o processo inverteu, a gente percebe que tem uma estética ali dentro e aí vem essa parte mais poética. A gente começou a pesquisar, quais os artistas que faziam algo parecido, entender a timbragem dessa galera, entender como a gente ia colocar a nossa linguagem, a nossa cara dentro disso e aí saiu o que vocês viram no Quase Ir-se Embora - aquilo é um processo de 2022, basicamente. Acabou que a gente se encontrou muito esteticamente ali dentro também, era o ideal estético do projeto há muito tempo. É o que a gente chamou de synth pop brasileiro [risos]

Como foi essa questão de regravar as canções? Deu uma dorzinha no coração em ter que dar um novo som? 

[O Cientista Perdido balança a cabeça negativamente] 

Você não é apegado ao passado? 

Juro pra você! Tem músicas que eu não consigo ouvir mais, pra mim elas são aquilo… Eu gosto ainda, foi um processo legal, mas hoje eu penso e falo: "tá, isso aqui é assim e faço assim agora" - até porque eu hoje sou assim e é muito essa a proposta do projeto. 

É muito curioso porque tem muito do Rodrigo no Cientista e muito do Cientista no Rodrigo, não dá para ter essa separação; mas também dá para ver que vocês estão em outro período da vida e pra que voltar naquela tristeza, né? 

Também, eu acho que agora a gente cresceu. Eu comecei o projeto com 20 anos, hoje eu tenho 25, não é muita coisa, mas foram cinco anos e teve uma pandemia no meio do caminho e muita coisa aconteceu. Eu comecei, de fato, a exercer o que eu queria exercer em termo de profissão… Foram cinco anos muito específicos, muito intensos e olhar para esse retrospecto é muito gostoso. Então, acho que vem muito dessa plenitude de tá se encontrando por mais caótico que seja, acho que tem um prazer de olhar e falar "caramba, tô aqui agora!". 


"O registro gera uma identificação. Quando eu coloco [as ideias] em um papel, coloco essa dúvida no papel e olho e falo: "eu não faço ideia do que acredito em relação a algumas coisas". Me vejo no lugar de registrar, porque depois eu olho e vejo que não penso mais assim e quando eu for olhar, daqui dez anos, vou ver se concordo ou não com isso." 

No passado, lembro que você utilizava nas redes sociais a seguinte frase: "eu te ajudo a fugir do fim do mundo". Essa ideia continua? 

Definitivamente, talvez bem mais do que eu tinha quando escrevi isso. [breve pausa] Acho que a ideia sempre foi essa: ser um espaço de agrupamento de pessoas que estão extremamente desesperadas… E vamos se juntar pra ver se a gente tenta se entender. Agora, eu vejo muito um rolê, tipo, vamos tentar se juntar para sair um pouquinho disso aqui. De fato fugir, sair desse caos. É isso: olhar pra isso, mas numa outra perspectiva, não mais de entender isso - eu acho que a gente já entendeu -, acho que a pandemia foi um contexto onde a gente foi obrigado a sair do… Quem tem o mínimo de humanidade dentro de si foi realmente arremessado nessa visão de mundo maior que o seu próprio umbigo, né. Agora que a gente já saiu desse momento, queremos essa liberdade que o fim da pandemia trouxe, seja lá o que isso for, então, vamos juntos. Por isso que eu acho que o som tá se tornando cada vez mais pop, porque o pop tem esse poder de arrastar muita gente, de trazer essa identificação, de ser acessível. O pop é uma armadilha muito interessante: ele é um sonzinho gostoso, bonitinho, que todo mundo curte, mas quando você percebe, você tá numas nóias muito doidas. Acho que o que mudou dessa ajuda que eu tento dar - e que todo mundo que faz arte sério tenta dar - foi o objetivo. Acho que a perspectiva tá muito mais na fuga do que no fim do mundo. 


A palavra fuga dá diversas interpretações…

Já tive muito essa pira! E digo mais: a fuga, às vezes, é momentânea. Às vezes, ela é um retiro, sacou? Eu vou sair, vou para outro lugar, mas depois sei que vou ter que voltar. E aí? Eu vejo muito O Cientista Perdido neste espaço! Essa fuga que não é permanente. O novo disco é sobre esse relacionamento que não deu certo… [Porque não deu certo] Agora, vou dar um pulo nesse lugar que é mais calmo, talvez um lugar de conseguir olhar pra isso de uma forma mais festiva, mas vou ter que voltar pra lá depois. As coisas que eu falei aqui, elas encapsulam uma verdade que é uma verdade, mas que vão ficar aqui. A "Loop" [canção presente em Corpo no Infinito] é uma música extremamente derrotista e se eu ficar ali dentro, fodeu! 

E o Cientista tem alguma ideia de como contornar o problema ao voltar para a realidade? 

[Gargalhada] Será? Não sei. Acho que é terapia, não sou eu [risos]. A forma como o trabalho é apresentado nessa pegada. Quando a gente começa a falar, por exemplo, no Quase Ir-se Embora, a gente começa a ver essa visão mais ampla das coisas, esse momento de se afastar para ver as coisas de cima, mas eu termino com "Vinícius Morreu na Banheira", com questionamentos muito íntimos e querendo ou não é essa volta, aterrissagem desse pouso de intimidade. Acho que esse próprio formato fomenta isso. Quem escolhe pegar a minha mão e ir junto comigo, do começo ao final, o disco tá sendo pensado dessa forma, são 12 músicas e tem como contar uma história bem amarradinha. É uma coisa que tô pensando muito agora: começar um pensamento, desenvolver esse pensamento e terminar ele de uma forma como que faça sentido depois - para que a pessoa que tá comigo desde o começo, solte a minha mão e vá viver a vida dela. Talvez isso tenha acontecido de forma acidental no Quase Ir-se Embora… O Corpo no Infinito, na real, começa nesse voo, depois ele vai fundo, falando de coisas que vão doer bastante para, no final, traz essa paz no fim das coisas. A música "Corpo no Infinito" é um monte de trama diferente que serviram pra mim antes de qualquer um. São versos que se repetem bastante, porque são mantras mesmo, né? Acho que a própria ordem das coisas, da forma como essa história tá sendo contada, o famoso storytelling, é muito pensado nisso. 

Acho curioso que você fala sobre terapia, mas tenho a impressão de que você segura a mão da pessoa até ela se fortalecer para começar a andar sozinha… Talvez o Cientista vá muito além da fuga, ele tá de mecanismos que você absorve para ter coragem. 

Acho que a terapia vem pra falar sobre as mesmas coisas de forma mais personalizada e pé no chão. Talvez o Cientista seja o começo dos temas que você vai levar para terapia - se alguém falar: "eu identifiquei esse sentimento por conta dessa música e estou entendendo isso melhor agora" é isso! O projeto vem pra isso e isso é a melhor coisa que uma pessoa pode falar pra mim. A partir do momento que a gente junta as pessoas para falar sobre isso, a gente vai começar a perceber que a gente tem muito mais em comum, a gente tem muito mais troca a se fazer e que isso em si é bonito. Entender que esse espaço de troca, de convivência, de liberdade, é muito valioso, principalmente em uma sociedade do cansaço, capitalista. É sobre sair desse mito que você dá conta, que você consegue… Não, não, você não consegue e tá tudo bem! Você só entende isso quando você sentar com o seu colega e expor [o que está sentindo]. Acho que esse novo disco, que fala sobre o amor, vem muito nessa perspectiva também, de compartilhar o que não é bonito, o que não é legal, o que é impuro e ver, a partir daí, achar uma beleza nisso aí também, considerando todos os recortes que ele atravessa: sexualidade, identidade, raça, privilégio, de classe social… Levando tudo isso em conjunto parece que é um rolê meio lacrador, da lacrosfera da internet, mas quando são ignoradas, a gente tem críticas sendo feitas aí muito pouco embasadas, sabe? 



Você falou sobre o papel do Cientista, sobre o papel de fuga da realidade, mas pergunto: o Rodrigo foge de alguma coisa? 

Com certeza. Inclusive, do próprio projeto. Aí é um momento muito legal de fazer essa distinção, porque antes de eu propor isso para as pessoas, o Cientista Perdido serve pra mim. Falar sobre amor nesse novo disco ou fazer esse movimento de reinterpretar o que foi esses últimos anos pra caber nesse novo espaço é uma parada muito difícil, sabe? Claro que assusta, então, eu preciso de uma desculpa, preciso de uma capinha para conseguir fazer isso. Nossa, o Rodrigo foge de muita coisa, ele foge de muita coisa que tá falando ali. Se chegou ao o que você tá ouvindo significa que, por muito tempo, eu fugi daquilo ali e ainda fujo - só que esse processo de fuga vai tá acontecendo ali. Eu fujo, mas em algum tempo eu vou ter que mergulhar naquilo ali - é uma fuga da fuga. Tem uma música nesse novo disco que fala sobre ghosting que sempre foi uma parada que pegou muito pra mim e é uma parada que pega pra todo mundo que tá nesse recorte LGBTQIA+ e é uma parada que ninguém sabe lidar direito… Acho que a primeira fuga quem faz sou eu, é uma fuga de parar de ignorar aquilo que tá acontecendo e entender que aquilo é só uma vozinha que tá dentro da minha cabeça. Primeiro eu preciso fugir para depois entender e isso é muito saudável, isso é muito bom, muito libertador. Quando eu falo de "Before" que foi interpretada em 2019, que era muito nostálgica, muito melancólica, sobre um passado que nunca mais vai voltar e que eu não sei mais achar aqueles passados dentro de mim. Eu sinto as vezes que eu fui criado pra ser uma coisa que eu não sou e acho que isso é um pensamento muito comum na nossa geração. Então, olhar para o passado é uma coisa que eu evito uma vez ou outra porque esperavam uma coisa e eu frustrei todo mundo… A "Before" veio muito desse lugar e olhar pra isso agora, que eu tô muito mais confortável com o fato de ter frustrado muita gente, é muito gostoso. É muito bom olhar pra trás e ver que passou de alguma forma. 

Eu tive a experiência no ano passado de tocar duas vezes com a Tuyo uma música, "Solamento" - quem ouviu, vai se ligar - e quando eu vi, eu tava tocando uma música extremamente depressiva e tava me divertindo pra caralho porque passou. É muito doido porque não é bonito o que a gente tá contando ali, no palco, mas todo mundo tem uma história de que já passou ou tá passando e vai passar depois… Ver ali no palco, que aliás é uma coisa que eu espelho para o projeto, que tudo começou em um lugar de muita dor e que hoje eu canto sorrindo é muito bonito, é muito forte, muito potente. A gente fez um show de despedida por conta da mudança de Brasília para São Paulo, no ano passado, e eu pude perceber, muito claramente - eu e a Ana somos os únicos que conseguem ver a mudança do público - que todo mundo… A relação da galera é muito mais positiva com as músicas novas. Eu não sei dizer o que foi feito, como é que foi, mas eu consegui ver nas pessoas dali e foi muito importante. Eu vi nas pessoas um olhar de "acho que tô entendendo isso melhor". 

Eu vi nas redes sociais o pós-show e vi como você tava bem e como o público estava se sentindo. Dá pra perceber também que o Cientista e o Rodrigo não são mais os mesmos. Aliás, hoje em dia, quem é o Cientista? 

Acho que hoje em dia, O Cientista Perdido vem, como a gente falou, com propostas parecidas, mas com essa perspectiva de sair do buraco, de entender que a vida não é só isso. Por muito tempo, dentro dessa lógica neoliberal, existe muito uma pressão para eu ser feliz, você tem que ser feliz! E ser feliz é isso, isso e isso [faz gestos com as mãos]. O projeto vem muito com a proposta de "olha, você não tem que ser feliz o tempo todo, mas deixa eu te mostrar como eu consegui sair disso" - observar todas as etapas do processo minuciosamente. 


O novo disco do Cientista Perdido


Amor é o tema principal do novo projeto do artista. Autobiográfico ou não, O Cientista Perdido está pronto para contar o que Rodrigo Saminêz passou e o que viu. E não é só isso: fazendo um recorte para o grupo LGBTQIA+, o disco fala sobre identidade, afinal, cada indivíduo possui uma e não precisa de uma pessoa ao seu lado para se compreender.


"O disco traz um discurso para além do afetivo, para além do romântico, para além do sexual, para falar da identidade. Eu sinto muita falta disso na arte de maneira geral. Quando a gente vê uma pessoa LGBT falando, ela tá falando sobre uma pessoa que ama e não sobre quem ela é. E isso é muito preocupante, muito complexo. O momento que eu tô agora é me entender como identidade, entender como essa identidade, que por muito tempo aprendi que só seria compreendida caso eu tivesse uma pessoa para validar isso comigo, até porque eu não sou… Não sei o quanto eu tô ali dentro do queer, por exemplo, que é algo mais abertamente, visivelmente LGBT; mas isso não anula a minha identidade. Respondendo sua pergunta agora: o Rodrigo é esse, tentar entender alguns aspectos que sempre falaram pra mim que não era eu, até o dia que eu percebi que era eu sim. E somos nós. Isso também resume a um grupo, quando eu vou conversar com meus amigos, a gente não tem muito o que dizer, porque a gente sempre aprendeu ver essa existência LGBT, principalmente a resistência gay, como uma parada que só se valida com o outro. Isso é bonito, mas e quando eu não tenho esse outro? E quando tem um outro que não me quer? O sertanejo fala muito sobre isso… O independente evita falar quando isso é pauta em outros gêneros musicais. Acho que é o momento de identificar essas pautas de sexualidade para além do que a gente tem visto ou do que eu tenho visto na arte, na mídia, de maneira geral."


"Eu cresci num ambiente, num contexto, não necessariamente familiar, mas num contexto social, onde era errado ser o que sou. E isso não tem nada ver com quem eu me relaciono, mas com quem eu sou e é justamente isso que às vezes a gente ignore alguns problemas que existem - e é justamente isso que faz com que, por exemplo, alguns argumentos, como "criança não pode ver isso" serem muito válidos, porque a criança é um ser muito puro, então, se ela vê uma pessoa da sigla LGBTQIA+ ela vai ser corrompida e isso não tem nada vê com quem eu me relaciono, isso tem a ver com quem eu sou. Isso tem a ver com o fato de que quando eu percebi isso, eu me encaixei nesse lugar de impuro, quer dizer, eu fui encaixado nesse lugar antes mesmo de eu desenvolver qualquer tipo de relacionamento afetivo e sexual com alguém e isso vai interferindo nesses relacionamentos. E aí? Como sustentar um relacionamento com toda essa base? Como é que eu vou nutrir um afeto sendo que a minha identidade foi pautada na anulação dessas questões? O disco vem pra falar sobre isso e no momento venho pensando em tudo isso e me senti autorizado a pensar sobre tudo isso e rever minha história nessa ótica. Agora, vou entender que às vezes uma culpa que eu carrego não é minha e agora eu vou dizer que a culpa não é minha e que a culpa é sua!"


O disco está em fase de produção e tem lançamento previsto para este ano. Prepare-se para uma nova fase do Cientista que não está perdido, está no seu devido lugar e ocupando-o.

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