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  • Foto do escritorMichele Costa

Henri Haux: a diretora punk

A primeira vez que conheci Henri Haux foi no lançamento de As Voragens, livro de Guilherme Krema. Lembro dela chegando na Livraria Ria rindo e comentando que achava que era em outro lugar o lançamento. Ela se apresentou, sentou e já começou a conversar. Em algum momento da noite, pegou o livro, folheou e soltou uma perguntas inteligente - e fiquei encantada e embasbacada. Com o fim do lançamento, conversamos mais: descubro que é diretora, está montando um filme de terror que aborda os piores medos das pessoas e que gosta de The Smiths. Na hora de ir embora, decidimos que o papo deveria se estender e ela anota meu contato. 


Lembro de entrar no metrô e conversar com minha amiga sobre a ideia do filme. O encantamento continua, ainda mais por ter visto as imagens e nomes das personagens. Será que estamos preparados para encarar nossos medos? Por que temos tantos medos do passado, presente e futuro? Será que Henri conseguiria nos ajudar a exorcizar demônios? 


Dois ou três dias depois, ela entra em contato comigo. Primeiramente, diz que gostou muito de mim (o encantamento aumenta) e iniciamos um diálogo. Ela me manda um link com clipes, piloto e um curta que assisto. A "Escuridão" se torna o meu preferido. Dessa maneira, marquei um papo com ela através do Zoom para conversarmos mais sobre arte. 


No dia, quando ela entra na sala virtual, seu visual está mudado e percebo que ela é uma camaleoa e que sua arte transmite muito essa ideia. Ela diz que é uma diretora punk e explica esse conceito: "Quando eu falo punk, eu tô querendo dizer mais a ideia conceitual do punk. O que eu acho legal é a origem do punk, de tirar o academicismo das coisas. Quando eu faço um trabalho, ele tem um pouco dessa sujeira, dá para ver que é home made - e isso é uma coisa que eu acho charmosa, mas ao mesmo tempo não é tosco e é muito mais sentimental no meu caso. É ir nessa pegada de ir contra as estruturas, pegar o que você gostou e fazer do seu jeito, que não é necessariamente encaixado nessa caixinha."


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Henri transita entre o cinema, as artes visuais e a música. Sua trajetória é marcada pelo terror, ou seja, sua arte contém cores fortes, sangue e sombras, como podem ser vistas nos clipes de MizaMonster e Kaottic. No entanto, ela vai além, o piloto da série Sala 777 aborda o drama, felicidade, agonia e conflitos de jovens adultos que fazem parte do grêmio estudantil. Sobre o seu trabalho, ela explica: "Eu gosto de trabalhar com bandas e as bandas que eu trabalho vão para essa estética meio gótica e emo. Eu me considero uma diretora punk, porque além de ter toda a trajetória trans e tudo mais, que é uma coisa que eu gosto de expressar no meu trabalho, gosto muito de fazer papel de gênero - por que uma mulher age de um jeito? Por que um homem age desse jeito? Tanto que na 777 eu coloquei uma personagem não binário e outros que dependendo da atuação, a galera poderia trazer isso para a personagem também. Eu trabalho com pessoas que confio e que me dão ideias muito boas."


É engraçado ver o Sala 777, porque ele não retrata o sangue, o terror, como os clipes que você já fez, até aquele último projeto que você me falou. Como equilibrar esses dois lados? 

Me falaram uma vez, durante uma gravação, que terror e comédia partem do mesmo princípio. Se você mudar a música, algumas coisas ficam aterrorizantes e outras coisas ficam cômicas. Mas eu acho que eu comecei a ver terror por conta dos filmes de comédia. Por exemplo, tem um filme chamado Evil Dead, que é um filme de terror clássico dos anos 80 sobre pessoas que estão em uma casa do campo e que acabam sendo possuídas por uma espécie de espírito vodu que transformam [as pessoas] em espíritos vodus e eles são muito mais sanguinolentos, muito mais escrotos… Tem muita coisa zoada no filme, se você escuta sem som, parece que é piadinha, mas todo design e o sonoro, com a câmera que parece realista, porque parece que foi mal gravado, toda essa atmosfera é o que criou o senso de terror. E eu acho que se pode dizer o mesmo pra comédia, né. A Sala 777 parte de um princípio que podia transformar tudo em ironia. Nesse piloto, não sei se é uma coisa que vai pro primeiro episódio mesmo, mas eles estão usando um LSD na faculdade e isso é um puta contraste: ao mesmo tempo não joga a faculdade para baixo, joga os estudantes que têm dinheiro e que tão gastando o tempo deles com isso pra baixo, né. É uma coisa meio à custa de nós mesmos - e eu acho isso um processo mais interessante também. Mas para equilibrar os dois, eu acho que você tem que ter muito uma certeza antes de começar o projeto, ou seja, o que você quer com aquilo. 


A gente não vê o terror visual, sangrento, em Sala 777, mas dá para ver um terror nas palavras, nos gestos. Por exemplo: o terror do professor que dá em cima da aluna e o terror intelectual. No final, o terror vai muito além do sangue e da morte, né? 

Às vezes, a situação… Acho que por eu ter sido um adolescente muito excluído, porque eu sempre fui uma pessoa abertamente gay e eu estudei em um colégio presbiteriano, onde tinha muita gente conservadora e um conservadorismo americanizado bruto, sabe? Então, pra mim, situações sociais são aterrorizantes. O desconforto é visto em toda a série, dá para ver que as pessoas estão desconfortáveis com a câmera e por conta da interação forçada. O The Office é uma das inspirações para essa série, imagina você ter que ficar em um escritório com um chefe babaca todos os seus dias e essa é a realidade. Esse é o terror existencial. 


"Transformando o nosso trabalho em luta de resistência, lembrando que a gente não tá fazendo música ou arte para falar de pessoas transando ou qualquer merda assim. É uma coisa com sentimento."

Tem essa preocupação de ter que ficar ativa nas redes sociais? Como que você se sente criar para os outros e "deixar você" de lado?  

Tem uma pessoa diferente para cada trabalho, né. Ao mesmo tempo que é uma coisa muito difícil, porque tem essa parada do ego, o artista quer ser reconhecido. Então, teve muita gente que se aproximou de mim porque achou o meu trabalho genial, e eu não sou a pessoa para dizer se é ou não é. 


Como é continuar presa na ideologia de continuar fazendo arte para continuar existindo? Você já pensou em desistir em algum momento?

Nossa, todos os dias [risos]. Todo mundo pensa em desistir, isso é um fato! Eu acho que se eu desistisse agora, seria um péssimo investimento pra minha vida, sabe? 


Você acha que ainda existe preconceito em tratar a sexualidade, a sensualidade e as sensações na arte, mesmo estando em 2023? 

Estamos no Brasil, né? A globalização engana, às vezes, a gente fica pensando que na Holanda, eles fazem uma coisa… Mas na Holanda tem outros tipos de problemas. Aqui no Brasil, a gente tem a maior taxa de violência contra mulheres e o país que mais mata pessoas trans. Quando a gente fala que o Brasil tá atrás, o Brasil não tá atrás - em comparação com outros países, ele tá a frente. Mas tem coisas na nossa semiótica que a gente fica meio "quando eu penso no Brasil, eu penso em pessoas falando errado, não penso em arte" e Bacurau tá aí, um puta filme maravilhoso que todo mundo deveria assistir. Todo mundo parou para assistir Central do Brasil, foi a primeira vez que um filme nacional conseguiu fazer sucesso além do Brasil, de uma forma intensa e interessante. Eu acho que a gente tem um problema que vai além… A gente prioriza dois povos como referência, que são muito anacrônicos, não só por um quesito racial, mas um quesito de pauta identitária, que é os Estados Unidos e a Inglaterra, que durante a colonização foi muito influente aqui. A gente é igual a qualquer outro país, se quiser comparar com Canadá e Estados Unidos, pode! A gente tem os nossos problemas e eu acho que os nossos problemas nascem com uma questão da sexualidade - a gente não sabe tratar direito uma mulher, uma pessoa trans, uma pessoa assexuada e até mesmo um homem, porque a gente coloca ele numa posição bosta ou o dono da casa. 



Em Escuridão, vemos uma cidade de ponta cabeça e em negativo. Neste contexto, você diz: "Nos meus sonhos mais inquietos eu vejo a escuridão". O que significa a escuridão para você? 

Nossa, é uma ótima pergunta [risos]. O curta é um curta experimental, a gente fez para uma matéria de um professor e eu gosto de experimentação. Se eu pudesse, faria vários curtas experimentais. Eu tava muito inspirado no Alfabeto, do David Lynch que é uma coisa perturbadora… Como as escuridão é muito ampla. Você não sabe quais são as informações por trás dela, às vezes, parece que é inacabável. Tem gente que diz que enxerga melhor no escuro… Eu queria fazer algo grosseiro, algo que fosse uma pancada e que passasse muito a sensação de estar dentro de um túnel que não acaba. Pensei muito na escuridão de São Paulo e como as pessoas são apáticas umas com as outras, elas não se encontram nunca, todo mundo indo para todos os lados, como se fosse um organismo vivo, como se fosse um fluxo. O evento que inspirou o curta foi um dia… Eu moro no 18º andar de um prédio no meio da Lapa e teve um dia que um poste explodiu por causa da chuva. Ficamos sem energia elétrica e eu estava preso no térreo, com um hambúrguer que queria comer, e eu pensei “eu posso ficar aqui embaixo com todas essas pessoas que não estão conseguindo subir também ou eu posso aproveitar que eu tenho 23 anos, sou jovem, e subir as escadas”. Tem uma parte desse curta que eu gravei que é um looping de subir as escadas, que foi um inferno. Toda a proposta era criar uma textura e pensei na textura da escuridão do olho humano, sabe? O jeito que eu tô vendo as informações desse jeito é muito diferente do que eu normalmente vejo. 


A conversa dura uma hora e quarenta e oito minutos, falamos sobre muitas coisas: a transformação do cinema pós-pandemia, as novas gerações, redes sociais, o próximo trabalho, a vida e a importância de se divertir para continuar sentindo. Eu ainda tenho medo do terror, mas Henri Haux é uma companheira que segurou minha mão, aliviando esse sentimento.  

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