• Michele Costa

O encantamento de Pobre Orfeu

Na mitologia grega, Orfeu, filho da musa Calíope, era músico, poeta e cantor. Ao tocar sua lira, encantava pessoas, animais e a natureza, mostrando que era um grande músico. Segundo a história, Orfeu se apaixonou e casou com Eurídice, uma moça tão bonita que despertou o interesse de Aristeu; ao ser recusado, ele passa a persegui-la. Durante a fuga, Eurídice tropeça em uma serpente que a pica, causando a morte da jovem. Sofrendo com o fim da amada, Orfeu foi até o mundo dos mortos com sua lira para resgatar a esposa.


Ao percorrer o caminho, tocando seu instrumento, Orfeu conquistou os mortos, até mesmo Cérbero, o cão de três cabeças que vigiava a entrada do mundo inferior. Porém, Orfeu não consegue levar a amada de volta ao seu mundo, afinal, um fantasma não pode voltar ao seu corpo e à realidade. O músico cometeu suicídio por conta de sua dor, distante de Eurídice.


A história de amor de Orfeu e Eurídice inspirou cantores, poetas, pintores e escultores ao longo do tempo, como é o caso de Victor Fortes, que se apresenta como Pobre Orfeu. Lançado em 2021, o projeto foi criado para dar a liberdade do músico compor o que quiser, sem se prender a um gênero musical ou estilo específico. Em um ano, o artista lançou três álbuns, "Feio Por Dentro" (2021), "Quimera" (2022) e "Projetar e Espalhar" (2022). O músico pretende lançar novas músicas em breve - assim como o filho de Calíope, o Pobre Orfeu cria canções que toque as pessoas.


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O que te levou a criar o Pobre Orfeu e produzir músicas que tinham mais a ver com você?

Eu queria fazer um projeto que eu não precisasse mais criar um monte de projetos ou um monte de banda para lançar músicas diferentes. Eu tenho vontade de fazer música de qualquer forma - eu ouço música clássica, tenho vontade de compor no piano; ouço indie e tenho vontade de fazer indie, ouço metal e tenho vontade de fazer uma banda de metal. Então, pra não precisar criar um monte de projeto, decidi criar o Pobre Orfeu para embarcar tudo isso e lançar tudo que eu vou fazendo, sem me prender a nenhum gênero, sem me prender a nada - é como se fosse um projeto pra me libertar, para eu não ficar preso.

Ao criar o Pobre Orfeu, você encontrou essa liberdade?

Com certeza. Eu tinha muito material parado aqui de vários estilos e eu não encontrava um lugar para lançar essas músicas, dava dó de deixá-las aqui parada. Quando eu lancei o Pobre Orfeu, eu já comecei a planejar tudo, comecei a gravar mais coisas, compor mais coisas que já foram dando novos caminhos para o projeto. Eu pude dar vazão para esse monte de material que tava parado e há muitas outras coisas que eu tenho vontade de fazer agora e eu já posso lançar como Pobre Orfeu.


É mais fácil fazer músicas sozinho e cantar sozinho ou ainda dá um pouco de receio?

Tem o lado bom e o lado ruim, né? O lado bom é a liberdade criativa, eu posso fazer praticamente o que eu quiser com o meu projeto e o lado ruim é que eu tenho que fazer tudo sozinho. Quando eu tô com banda, a gente divide a tarefa, um monte de coisa.


Quando você escolhe esse alter ego, você se apresenta como Pobre Orfeu ou tem alguma coisa de Victor?

Acho que quanto toco com Pobre Orfeu, me represento como Pobre Orfeu mesmo. Victor Fortes eu deixei um pouco pra trás, porque eu tinha lançado alguma coisa como Victor Fortes, então, tudo que eu for lançar de música a partir de agora, eu vou tá como Pobre Orfeu, minha representação na arte.


Você já lançou três álbuns que percorrem diversos gêneros musicais. Como foi explorá-los?

Foi bem divertido. Na verdade, esses três álbuns, eu compus meio que em tempos próximos, eu tava compondo um, mas já pensando e criando outro, meio que ao mesmo tempo; aí fui juntando as músicas que eram parecidas, que tinham a mesma vibe, foi um processo bem divertido. Eu tenho uma facilidade para compor até, então, não foi muito difícil. Eu sou bastante influenciado pelo o que eu tô ouvindo no momento, então, às vezes eu tô ouvindo um rock e dá muita vontade de fazer um álbum de rock, só que eu começo a ouvir outra coisa e quero fazer outra coisa também… Às vezes vai embaralhando as coisas, as produções, mas vai saindo!

E esse é o seu processo de criação, ou seja, livre?

Sim, sim. Eu tento fazer uns álbuns mais coesos, tipo, o que for álbum de rock vai ser álbum de rock, vai ter sua caixinha fechada do seu estilo… Tento juntar eles para dar uma coesão, para não ficar um álbum de colagem de músicas diferentes. Mas tenho outras músicas e penso, futuramente, lançar um álbum de colagens, com músicas aleatórias, totalmente diferentes uma da outra.



A psicodelia está sempre presente em suas músicas. O que te levou a trabalhar esse gênero?

Cara, não vou saber explicar [risos], mas eu gosto muito. Ouço bastante música psicodélica, é um dos meu estilo preferido, então, sempre acaba misturando um pouco cá, um pouquinho lá, mesmo que não seja a proposta. Fiz outras músicas com outro projeto, o Branch Of Yore, que também é um álbum de rock psicodélico, só que ele tem uma característica de videogame, umas melodias mais de videogame… Sempre falam bastante que as minhas músicas tem meio que uma pegada de videogame, sei lá, acho que foi [referência], quando criança jogava muito, tanto que tem até hoje um pouquinho nas minhas músicas. É uma referência que vai juntando com as coisas que eu vou vivendo e vai saindo nas músicas que eu vou fazendo, mesmo que seja inconscientemente.


Quais foram as inspirações para você lançar os três álbuns?

Minha principal referência foi o King Gizzard & The Lizard Wizard, uma banda australiana de garage rock, mas os caras tocam de tudo! Em 2017, os caras lançaram cinco álbuns e toda a proposta de fazer música livremente, cada álbum fazer um experimento diferente, acho que foi o que me impulsionou a fazer o Pobre Orfeu.


"Feio Por Fora" é o seu primeiro álbum. Eu queria que você falasse um pouquinho mais sobre o título e o processo de criação.

Ele é um álbum que inicialmente eu ia fazer para o Dormente [duo de synthpop que participa]. Pensei em lançar o Pobre Orfeu nessa época, então, lancei o álbum como Pobre Orfeu, mas eu não sabia qual seria o nome do álbum, tenho muita dificuldade em criar nome pra álbum [risos]. Eu pensei em "Feio Por Fora" por uma questão de autoestima.


"Quimera” flerta com o hardcore o rock alternativo moderno, enquanto "Projetar e Espalhar" traz a psicodelia dos anos 60. Quais são as mudanças desses álbuns, além do som?

"Quimera" foi um álbum jovem adolescente rebelde e bastante político também e o "Projetar e Espalhar" é um projeto mais pessoal, com várias questões pessoais e individuais.

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