• Michele Costa

Os ciclos de Roberto Betini

Preste atenção na capa de "Circulares", primeiro EP de Roberto Betini. É através dela que os ciclos do músico começam aparecer. Inspirado no Enso, símbolo budista, o círculo tem um aspecto essencial da existência: a aceitação da "imperfeição" como "perfeita", expressando o estado pessoal no qual tudo é completo. A capa apresenta a forma de Roberto e suas canções são moléculas de sua existência, como ele diz: "não sou perfeito, mas esse sou e esses são meus ciclos".


Tendo o violão como instrumento principal, o músico transforma suas vivências e inspirações em músicas instrumentais e cantadas (em algum momento, falada). Roberto não fica em apenas um tema, inquieto e curioso, Betini traz poluições sonoras, ruídos e outros elementos, fazendo com que o seu ciclo misture-se com São Paulo.


Como canta em "Contramão", "Não deixe de sentir seu coração", "Circulares" pulsa vida, mostrando o perfeito embalo que só a música consegue fazer.


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O que te levou para a área musical?

Nossa, faz tempo isso. Acho que desde pequeno, sempre curti bastante. Com 10 anos, eu pedi uma guitarra pra minha mãe, mas ela falou: "não, vai aprender violão primeiro". Fui aprender violão e curti bastante. No comecinho, eu tava desanimado porque eu queria tocar guitarra, mas conforme os meses foram passando, eu comecei a enxergar, agregar valor aquela experiência que eu tava tendo. Quando eu era menor e estava na escola, eu ficava o dia inteiro tocando - chegava em casa, almoçava e ficava tocando [risos]. Quando eu era menor, ficava cantarolando melodias que eu inventava… Aí estudei um ano de violão, com 12 anos fui pra guitarra, fiquei estudando uns quatro anos no Conservatório. Tive que sair por conta de vestibulares, Enem, Fuvest… Aí ficou em hiato, mas já naquele período da escola, inclusive que conheci o Pedro, a gente se juntava para cantar e tal, a gente compunha até umas coisas, mas nunca foi pra frente, mesmo porque a gente era bem novinho, não tínhamos muito conhecimento e maturidade para fazer um projeto que durasse mais de dois meses. A partir desse primeiro momento que eu comecei a ter com o estudo da música, não parei mais - e por mais que eu me ausentei um pouquinho do instrumento, procurava saber mais conhecimento teórico.

Nesse ponto, de lançar um EP, na verdade, eu nem pretendia. Não era uma coisa palpável pra mim. Aí o Pedro começou a ir atrás disso… Então dá pra fazer. Mas mesmo assim, eu não tinha tanta confiança que daria certo. Um dia ele chegou e falou "vamos gravar o seu EP?" e eu falei "ah, vamos". O que pode dar errado? [risos]

Como foi essa transformação do não ter certeza para o gravar?

Eu faço as coisas para ver o que acontece - o EP foi mais ou menos isso. Na época [da gravação], o Pedro tava em Minas e eu fui pra lá. Eu sempre compus algumas coisas, algumas coisas até gravava, mas nunca foi tão pra frente e eu também nunca busquei conhecer mais sobre produção musical. Eu tinha algumas coisas que eu gostaria de gravar, eu tinha "Cronismo" e "Queda Livre" que eu tinha feito naquele ano, em 2020. As outras músicas…"Oxitocina" era do EP do Pedro e a gente tinha que remanejar, esquecemos partes e inventamos na hora… Das minhas [músicas], de fato, o processo criativo é bem aleatório; eu gosto de viajar quando tô tocando, às vezes saem coisas legais e gravo… Deixo fluir e a partir disso, tento desenvolver o resto da música. Por exemplo, quando eu levei "Queda Livre" para o Pedro ver, só tinha dois ukuleles, acho que nem tinha letra, fiz a melodia da voz e o resto fizemos juntos em Minas.


O que me chama atenção é que "Circulares" mistura músicas instrumentais com letras, cantadas e faladas. Como foi juntar essas duas narrativas/ No final, existe uma narrativa, do início ao fim, no álbum?

A gente foi encaixando o que dava [risos]. Nunca fui bom em escrever letras, então sempre diz músicas instrumentais. A questão de ter vocal ou não sempre foi opcional. Acho que o ponto principal é fazer algo orgânico, a grande pira do EP é essa. A gente foi desenvolvendo uma narrativa ao longo da criação, que tem justamente a ver com o nome do EP. Inclusive, você comentou que tem algumas partes faladas - aquilo foi uma situação que eu tava conversando com as pessoas, explicando a situação [sobre uma relação de amores e desamores] e o Pedro tava gravando. Acho que "Queda Livre" passa isso [sobre se relacionar, se apaixonar, não dar certo e cair].

"Circulares" é sobre amor?

Acho que é sobre ciclos. Eu entendo cada música como ciclo, é como se o EP fosse um grande ciclo e dentro desse grande ciclo, você tem pequenos ciclos que acontecem, até a hora que ele retoma ao ponto inicial. Lembro que a gente tinha terminado de gravar tudo, tava tudo praticamente acertado, e eu tava pensando: "o que representa?". Essas músicas são bem cíclicas, elas tem momentos de vai e volta, a maioria das músicas você tem um tema a e o tema b, que volta para esses temas. Como ligar esse grande ciclo?

Como foi retratar esses ciclos que você passou em um EP autobiográfico?

Eu nem sei descrever a sensação, acho que a palavra mais próxima é organicidade. Eu vivi aquilo. Cada música, eu tava vivendo aquele ciclo, sabe? Apesar de não saber exatamente do que se tratava, eu vivi do jeito que eu vi, no meu íntimo, sabe? O seu contato com sua obra tem que ser uma coisa íntima, única, tem que ter aquela coisa do abraço aconchegante. Acho que essa foi a grande pira.


O violão é o ponto central de "Circulares". Como foi trabalhar com esse instrumento, que no primeiro momento, na infância, você não queria saber dele?

Teve uma transição na vida musical. Como eu disse, no começo, eu queria muito tocar guitarra, queria tocar heavy metal, hard rock… Conforme o tempo foi passando, fui criando um apreço por instrumentos acústicos e teve um momento que eu tava no ápice de só tocar instrumentos acústicos. Não sei dizer exatamente o porquê… É como se o instrumento fosse auto suficiente, sabe? Ele é aquilo o que ele é, da forma que ele é.

Como foi a transformação do metal para uma música mais "aceitável"?

Foi um caminho muito longo, porque durante muito tempo eu ouvi metal, eu fui transitando pelos gêneros do metal também. Hoje em dia eu ouço, mas não é aquele hype. Sei lá, acho que é o momento… Não sei dizer exatamente o que me atraiu tanto, mas fui tendendo à ir para um heavy metal, depois fui curtir um rock progressivo… Não sei dizer exatamente o ponto que eu comecei [à ir] para um negócio mais "normal".



O que te influenciou para fazer "Circulares"?

Eu acho que o "Circulares" em si… Não tava pensando em "quero uma sonoridade x", as coisas foram fluindo. Acho que teve muita influência do Pedro, eu tava ouvindo muito Djavan, jazz, mas acho que como artista, talvez tenha sido inspirado pelo Djavan, um cara que admiro, apesar de não ter muito a ver com o EP.


Como foi a parceria com o Pedro?

[Pedro aparece no vídeo]

Pedro: Eu e o Roberto, como ele comentou, faz tempo… A gente se conheceu na escola, acho que eu tava no oitavo ou nono ano, lembro que tinha o grupinho do Roberto e eu sempre ficava "preciso ser amigo deles, porque eles são os metaleiros". Então [quando viramos amigos], já fizemos muitos projetinhos. Até você perguntou sobre fazer um EP e que tem tanta coisa do Pedro em um EP autobiográfico, eu acho que tanto as minhas coisas quanto as coisas dele, tem muito um do outro por ter tido esse desenvolvimento. Mesmo não sendo intencionalmente, tem muita coisa de um na música do outro e vice-versa.


Qual músico você quer ser no futuro?

Essa pergunta é difícil. Em tão pouco tempo, eu fui para uns cantos tão nada a ver dentro da música, questão de gosto mesmo [risos]. Eu ouvia muito metal, hoje em dia tô ouvindo bastante MPB, bastante jazz. [Pedro interrompe a entrevista e faz um comentário]

Pedro: Para você ter ideia do que ele tá falando, há uns três ou quatro meses atrás, ele começou a tocar um instrumento japonês que só trinta pessoas tocam no Brasil! [risos]

Eu acho que eu gosto muito do experimental, eu falo "isso aqui tem um lugar que toca, que dá para descobrir". Eu tenho surtos de "quero aprender tábua indiana" e tive um com o shamisen, como o Pedro comentou. Ele é um instrumento tradicional, como se fosse um banjo e tem um braço bem fininho. Eu comecei a entrar nesse mundo tradicional, folclórica japonesa que tem diversos tipos. Pretendo usar ela, colocar em alguma música. Coloquei no EP do Pedro, mas como um shamisen de estudo - gravei uma linha e é muito louco! Voltando para as minhas piras musicais, cada hora eu tô em um canto, ouvindo uma coisa… Ouvi bastante música eletrônica, tive a pira de produzir música eletrônica para ver como era, ter um contato, mas não foi para frente. A música eletrônica tem um leque de gêneros… Daqui dez anos, não faço ideia, mas eu vou estar fazendo alguma coisa aleatória, uma pira completamente diferente, mas sempre voltado a música.

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