• Michele Costa

O salgamar de Rodrigo Eugenio

Existem muitos significados para o mar. Para alguns, o corpo de água salgada contém a beleza escondida, para outros, despertam diversos sentimentos. Para Carl Jung, o mar é o símbolo das águas maternais, fecundas e criadoras - como escreveu em "Memórias, Sonhos e Reflexões": "o mar é como música; traz em si e faz aflorar todos os sonhos da alma. A beleza e a magnificência do mar provêm do fato de impelir-nos a descer nas profundezas fecundas de nossa alma, onde nos defrontamos conosco, recriando-nos, animando o triste deserto do mar". Para o cancioneiro Rodrigo Eugenio, a água é vida e necessário para sua vida.


As ondas bateram em Rodrigo, resultando o EP recém-lançado "Salgamar" (Selo Parafuso, 2022). Em cinco canções, o cantor se afoga em seu próprio mar que contém grandes nomes da música brasileira, como Caetano Veloso e Jards Macalé, a mitologia grega e o pós tropicalismo; resultando em um álbum nostálgico, prazeroso e belo.


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Como você tá se sentindo por ter lançado o EP?

Nossa, eu tô muito contente. Ficou muito bonito, tô muito contente com o resultado. A recepção tá sendo bem legal, para um artista minúsculo como eu, tô com o total de 250 play, só hoje, então, eu tô muito contente com isso e artisticamente falando, também estou muito contente.


A última vez que a gente se falou, falamos bastante sobre sua passagem no meio cultural, falamos bastante de "Nada Mais" e "A Infeliz Tragédia de Maria". Agora, você tem outras músicas. Como foi que foi produzi-las e lançá-las?

Essas músicas são meio que uma loucura, porque foi tudo muito orgânico, né? Essas músicas, provavelmente todas elas que estão nesse disco, surgiram no final do ano passado e começo desse ano. Foi essa leva, calhou que eu tinha me juntado com o pessoal do Selo Parafuso, através de amigos de amigos que hoje são meus amigos, produzimos tudo isso e foi o que resultou "Salgamar". Foi extremamente orgânico. Quando eu tava vivendo, eu não via passos, mas hoje, que já aconteceu e vendo… Foram alguns passos que eu consigo traçar uma linha legal.


Em "Nada Mais", seu primeiro single, em um determinado momento da música, você canta: "Eu nem sei o que quero ser". Hoje, após o lançamento de "Salgamar" e novas vivências, você sabe o que quer ser?

Não sei. Eu sei o que eu quero fazer, mas o que eu quero ser? Não sei. O que eu quero fazer é música. Quero ser uma metamorfose ambulante, correndo o risco de soar extremamente brega agora.


Relembrando ainda o passado, seus primeiros singles eram apenas violão e voz. Agora, guitarras aparecem. Como foi esse processo de ter um novo instrumento?

Foi muito orgânico. Foi demais! Foi ideia do pessoal do selo, porque eu sinto que fico muito bitolado nessa coisa de cancioneiro voz e violão. Tem música, por mais que eu não perceba, ela pede esse tipo de coisa, ter a textura, a sonoridade, a estética que eu imaginei. O Pedro Silveira, que tocou as guitarras e que produziu o disco todo, percebeu isso e foi ele mesmo que teve a ideia de colocar e foi ele mesmo que tocou as guitarras. Acho que ele captou muito bem a essência que eu tentei passar por palavras; pra explicar as música, ele fez esses solos maravilhosos. Hoje eu penso que a guitarra foi meio que uma porta que vou continuar usando, mas para eu ter esse exercício criativo… De colocar outros instrumentos. Agora que tô compondo muito, quero usar o piano que eu já gostava muito e que nunca pensei que o encaixaria nas minhas canções. É algo que eu já consigo imaginar. É meio que uma ponta de entrada para expandir.


Suas canções surgiram no fim do ano passado e começo desse ano. Alguma coisa mudou entre aquele tempo que a gente conversou para hoje? O tempo também impactou no seu processo de criação?

Com certeza. Eu lembro que a última vez que a gente se falou, eu queria muito lançar um disco chamado "Morre Afogado o Capitão S. S. Tiragosto" - ele ainda vai existir! Só que cheguei a contemplação de que só vou poder fazer esse disco quando eu me sentir pronto pra ele… Eu tava querendo forçar algo que ainda não tô pronto para o que vai ser o Capitão. Acho que eu ainda não tô pronto para o Capitão - o Capitão não morreu para eu fazer ainda.

Acho que o meu processo de criação sempre foi o mesmo: gosto de fazer a letra junto da melodia ou só fazer a letra. Nunca fiz uma melodia primeiro para depois [fazer] a letra, pra mim é quase impossível, me considero completamente incapaz de fazer isso, admiro muito quem faz. Falando individualmente de cada música, "Carne da Terra" surgiu uma vontade minha imensa de fazer algo que passa se assemelhar muito brevemente com a música "Acrilírico" do Caetano Veloso, do disco de 69 que pra mim, é meu disco favorito. Acho que dos cinco discos que me inspiraram para fazer "Salgamar", o primeiro é o Caetano de 69. "Fata Morgana" é uma música que eu fiz em dezembro, lembro que a compus próximo da virada do ano para minha namorada, ela tava na Bahia e a Bahia tem toda uma questão do mar, uma coisa linda! E "Fata Morgana" é um efeito que dá pela curvatura da terra que faz parecer que os navios estão flutuando. "Verão '74" foi uma música inspirada em uma imagem, na capa do disco "Temporada de Verão", que é do Caetano, Gil e Gal. "Apathea" é mais antiga, surgiu no ano passado, foi muito inspirada no disco de Leonard Cohen, "Songs of Love and Hate" e eu queria trazer um pouco de Caetano - eu tava lendo "Verdade Tropical" e para criar o disco de 69, ele criou palavras e eu queria trazer um pouco essa criação de palavras, mas só que é uma música menos lúdica, menos elusiva, e uma música com uma vibe mais pesada, mais monótona, mais triste, assim por dizer. Eu quis criar esse mecanismo de criar palavras para criar essa música. "Vernê" foi um delírio walterfrankiano meu, misturado com Sérgio Sampaio [risos] e foi uma das primeiras músicas que surgiu. Eu a fiz depois que voltei… Lembro até hoje: foi no dia 7 de janeiro, lá pela meia-noite, minha namorada tava na Bahia e eu tava no apartamento dela, eu tinha voltado de ver o show do Zé Ibarra que teve no Sesc Ipiranga, e eu achei lindo - estava no êxtase e acabei fazendo ela.


Você queria fazer o álbum sobre o Capitão e ele não aconteceu, acabou saindo "Salgamar". Como foi o processo de ter uma coisa pensada, mas saindo outra, com nova sonoridade? Como foi você para você?

Foi um processo, de coração aberto, muito doloroso, porque eu tenho esse disco do Capitão já imaginado completo na minha cabeça, por mais que as músicas não esteja 100% feitas, eu sei como elas devem soar, que momento elas devem entrar, qual a vibe, a estética, a textura… Foi muito difícil perceber que no momento que estou, sou incapaz de fazer algo que requer esse sentimento, essa força que eu quero que esse disco tenha. Ele vai vir no momento certo, quando eu perceber que consigo passar esse sentimento.



O mar tá muito presente nas suas músicas. Qual é a sua interpretação por esse elemento?

Falar sobre o mar é falar sobre… Eu vejo o mar como uma coisa mística, não vejo só o mar como, sei lá, um monte d’água, alguma coisa geográfica. Sou completamente cético, mas quando eu vejo o mar, o meu ceticismo cai por terra. É tão vasto, tão profundo, acho que o mar é uma das coisas que eu mais amo - se eu pudesse ficar encarando o mar, eu ficava. Acho que a profundidade… A questão do mar é que ele parece tão bonito, mas quanto mais profundo, menos luz chega lá, acho que dá para se relacionar com a apatia, porque quanto mais profundo você cai na água, a pressão atmosférica vai cada vez mais te apertando e menos luz vai chegando. Penso nesse conceito e é óbvio que deve ser desesperador, mas sinto uma espécie de conforto em ficar completamente submerso, sabe? Completamente afogado, por assim dizer.

O que o mar significa nesse novo projeto?

Acho que é meio uma construção. Eu vejo "Salgamar" assim: é a minha visão do mar, por exemplo, eu vejo que construi um mar e isso foi completamente acidental. Percebi depois, quando o disco tava feito. Fui ouvi-lo e refletir e vi, com as composições, criei um mar, por assim dizer. Para criar um mar.. O que tem no mar? Água salgada, a carne da terra salga o mar [a conversa trava e a internet de Rodrigo cai]... Eu sinto que construi um mar em "Salgamar", percebi que tinha um pouco o elemento nessas músicas. A primeira, por exemplo, o mar é salgado. A carne da terra salga o mar. Em "Fata Morgana", eu falo da curvatura, falo que lutei contra o Deus do mar. Em "Apathea", entra a questão do conforto na solidão. Eu vejo o mar como uma coisa muito solitária, o mar é uma alegoria de solidão… Eu olho o mar e sinto… É meio que uma crise de Estocolmo com a solidão.


Você precisou se afogar para, depois, voltar para areia, como canta?

Acho que foi o contrário: eu saí da areia para ir para o mar para me afogar [risos]. Acho que sem afogamento não dá. Não teria "Salgamar" se eu não me afogasse.


Em "Carne da Terra" você questiona: "Que terra é essa?" e responde em seguida "Eu vou voltar para areia". Te pergunto: que terra é essa?

Acho que é a terra do desejo. Agora, desejo do quê?

Você está nessa terra ou quer chegar nela?

É uma terra que eu quero chegar, mas acho que não consigo chegar nessa terra me afogando.


"Salgamar" desperta uma nostalgia. Durante a criação, foi pensado em proporcionar isso ao ouvinte?

Sabe que não!? Considero a nostalgia um sentimento que está presente em tudo que eu faço, tudo que eu vejo, mas não pensei em trazer um sentimento de nostalgia. Acho que eu quis foi trazer um sentimento de "esse sou eu" - não quero soar como soava antigamente, mas se soar é porque eu sou assim.


O afogamento é certeiro, mas não é ruim, pelo contrário, em alguns momentos é preciso se afogar para voltar a superfície. "Salgamar" está disponível nas principais plataformas.

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