• Michele Costa

O mergulho profundo d'O Cientista Perdido

Em um ano muita coisa mudou. A primeira vez que conversei com O Cientista Perdido, projeto de Rodrigo Saminêz, ele tinha acabado de lançar o single "Não Cabe Em Você" - outubro do ano passado. Após um ano, no mesmo mês, o músico volta com novas canções e um novo EP intitulado "Corpo No Infinito" (2021). Voltamos a se falar, repetindo o mesmo meio no ano passado: a conversa continua sendo pelo Zoom, porém, algumas coisas mudaram. Em um ano, os cabelos do músico cresceram. Os instrumentos presos na parede continuam iguais, mas algo mudou no jovem que responde minhas questões. Talvez seja a mudança profunda, que muitos passaram, durante o isolamento social da pandemia da Covid-19 - ele está mais descontraído e reflexivo.


A nossa conversa aconteceu na sexta-feira passada, três dias antes do lançamento de "Corpo No Infinito". Rodrigo e Cientista (aqui, não existe uma separação) estão felizes. Iniciamos com questões básicas de "quanto tempo!" - como se fossemos velhos amigos (em sua descrição nas redes sociais, O Cientista Perdido se apresenta com a seguinte frase: "te ajudo a fugir do mundo", talvez seja por isso que existe um sentimento de amizade). Conversamos alegremente, fazendo comentários de "quinta série B" e analisando o futuro após a vacinação. Se antes éramos pessimistas (ou algo do tipo), agora, vemos uma luz no fim do túnel. Então, começamos a conversar sobre seu novo EP e futuras apresentações.


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A primeira vez que a gente conversou foi no início de outubro de 2020, exatamente há um ano atrás. Você tinha lançado o single "Não Cabe Em Você". Faço duas perguntas: o que mudou em um ano, em você e na sua arte, e hoje em dia, tudo cabe dentro de você?

É engraçado pensar nessa música hoje, porque é uma música que eu desenvolvi… Eu não cheguei a fazer muitos shows, até porque o projeto começou mesmo em 2019 e quando as coisas estavam começando a andar, em relação a show, o mundo acabou. Mas eu tinha um espaço de interpretação das músicas, aquele bem clichezão das músicas ao vivo, sabe? De conseguir interpretar as coisas ali e tal; e essa música nunca foi tocada ao vivo. Então, pra mim, hoje essa música tem um gosto meio amargo. Essa música tem um rancor muito grande envolvido… Ela vomitou muita coisa que precisava ser de fato ser dita, mas hoje em dia, eu olho para ela… Gosto muito dela, acho muito legal, foram caminhos que eu tomei e que não imaginava - um solo de guitarra no meio da música, por exemplo. Até olho pra isso e fico "mano, o que aconteceu aqui?" [risos]. Mas assim, eu gosto muito dela em termos estéticos, ela aponta para direções legais, mas ela ainda tem um rancor que tá ali, mas que não significa que por estar ali está fora de mim, que eu já superei. São coisas que só pioraram com a pandemia e tudo que aconteceu depois. Então, é uma música que eu tenho um olhar meio esquisito para ela; mas, por exemplo, eu já tô muito pensativo quanto a isso… Eu tô com um show marcado para dezembro…

Que legal!

É! E é muito doido! Eu não sei o que achar de isso ainda. Eu tava conversando com um amigo que fez um show no mesmo passo que a gente vai fazer em dezembro - e logo depois do show, a gente foi conversar e ele falou: "velho, parece que esse evento ainda não aconteceu, parece que foi uma lembrança". Mas enfim, ela [a canção] está lá [no setlist] e tô mais ansioso pra isso do que para tocar as músicas novas. Eu acho que essa música vai ter um peso diferente. Acho que eu não respondi a sua pergunta [risos]. Perdão pela complexidade.

Mas é complexo mesmo! Se a gente pensa que ano passado não cabia algo, hoje a gente descobriu que cabe muita coisa, mas ao mesmo tempo não.

Mas na pandemia cabe menos.

Ou cabe muito e a gente não sabe lidar com isso.

Exatamente!

E como tem sido esse estranhamento?

Um fenômeno interessante que rola depois dos lançamentos é você começar a ouvir as respostas das pessoas, dá uma facilidade para interpretar aquilo, já que aquilo não é só seu. Então, você ouve o que as pessoas também estão achando e você acaba concordando com algumas coisas e discordando de outras - isso me ajuda a me distanciar do ponto de partida dessa música que foi o que eu falei, tá ali, eu depositei aquilo ali, tirei isso de mim, coloquei ali, mas isso não significa que eu já superei. Acho que o que eu tô buscando para o ao vivo são esses outros significados, esses outros contextos que apareceram ao longo do tempo que pra mim tá fazendo bastante sentido também; e que são menos difíceis pra mim também e que são tão atuais quanto, que são tão reais quanto. Isso é nítido nos ensaios para o show ao vivo. Esse EP que a gente vai lançar no show, tem um tema central muito específico, então é legal que cria um contexto para essa música ser interpretada dentro desse tema, desse universo que tá vindo desse EP e acho que ela cabe bem aí.


Ainda em tempo de isolamento, você criou o Laboratório, onde falava sobre tudo e contava com outros músicos. Em um episódio você falou sobre saúde mental. Foi a partir desse LAB que você começou a trabalhar com canções que estão no novo EP que falam sobre ansiedade, sair da realidade, e seguir esse caminho?

Nessa época já tinha muita coisa pronta desse EP agora. Em março ou abril, tinha muita coisa encaminhada desse EP, só que surgia muito dessa ideia: "cara, as músicas estão indo muito bem. Tudo que tá precisando falar, em questões de letras, foi falado". Tanto que quando a gente lançou, tiveram algumas interpretações meio… [solta um breve risinho] Problemáticas. Aí eu falei "cara, acho que seria injusto, meio irresponsável, da minha parte, simplesmente dropar essas músicas aqui e sair correndo". Então, eu comecei uma conversa com outras pessoas, mas por estar ao vivo ali no Instagram algumas vezes, tinha essa interação um pouco maior e foi legal. Foi uma questão para me tranquilizar e ver que esses temas que estou abordando são meio densos, pesados, mas ao mesmo tempo é a realidade de todo mundo. É a realidade de muita gente que já tá aqui, andando junto, acompanhando essa história. Então, o "Laboratório" era para ser um registro técnico sem ser técnico. Um registro de [ver] quais músicas que estavam se construindo, mas sem falar de produção musical e mixagem. Falando de uma pessoa que faz música e [ver] o que essa pessoa está pensando e o que as pessoas ao meu redor, estavam pensando. A gente conseguia dialogar ali. E já adianto que ele vai voltar em outro formato!

Cada etapa se conversa. Foi tudo muito pensado?

Não, e esse é o grande ponto. Não foi nada muito pensado do tipo "tem que ser assim"... Dos artistas que eu acompanho, gosto muito e ouço, eu vejo como eles se comunicam além da música, porque a música já é um meio de comunicação.



Amadurecido e usando seu corpo para experimentos sobre sentimentos, ansiedades e questões internas, O Cientista Perdido usa a simbologia da água para dizer sobre o que viveu e vive. É importante lembrar que a água tem diversas finalidades: de hidratação ao mergulho interno, da construção de uma identidade a uma nova fase. No final, o Cientista tem apenas um objetivo: "Corpo No Infinito" é convite para fugir do caos externo e mergulhar dentro de si para lembrar o valor da vida. Uma experiência dolorida, porém, necessária e, no fim das contas, bonita.


Agora a gente para de falar de 2020 fala de "Loop". Quero saber tudo! Como surgiu ou se tem uma história por trás e foi difícil se despir, de falar sobre um tema que é tão pesado e tão necessário que tem muito dentro de você?

Não só em "Loop" nesse ponto, mas todas as músicas desse EP vieram de um lugar de necessidade. Não foi uma escolha falar sobre isso. Na verdade, o nome desse EP existe há muito tempo, foi um nome que veio e eu falei: "isso é legal. Isso dá em alguma coisa". Então, depois que eu fui pensar sobre - eu estava escrevendo muito sobre isso, dessas ansiedades, gosto de tratar no plural mesmo. "Loop" veio desse lugar… Foi o primeiro passo para entender algumas coisas de uma forma mais racional. Ela começa a trazer, comparado a outras músicas do EP, ela traz mais conclusões do que perguntas. O refrão dela é muito isso - dito tudo isso que falei aqui, ela é a penúltima música do trabalho; eu disse muita coisa até chegar ali e devia trazer algumas conclusões. Trazer questões um teor mais assertivo, um pouco mais de "é isso e não acho que é isso". Então, ela se resume muito no refrão [E eu fujo / Do fim do mundo / Pra não me afogar / Nem me perder pra sempre no final] - resolvi lançar com a tentativa de juntar todo mundo, um grupo de pessoas, pra falar: "vamos desafogar"; tanto que o clipe tem muito dessas imagens. Tem essa ideia da água que afoga, mas também é um incentivo para ir até a superfície.

Eu lembro exatamente do momento que vieram os primeiros versos… Eu estava em um açougue, na fila, e apareceu um cara muito doido de droga. Eu tava muito mal por diversos motivos, foi no auge da minha ansiedade e eu ficava rebobinando pensamentos, tentando sair mas não conseguir, porque não sabia o caminho [ruído na conversa]. Eu lembro que eu fiquei tão assustado com aquela cena, porque foi uma cena meio gráfica, era um homem alto, gritando e sujo… Tem todo um contexto. É óbvio que ele tinha seus porquês [de estar na rua, naquele estado] e aquela imagem ficou tanto na minha cabeça que eu falei: "cara, por que isso tá acontecendo o tempo todo? Por que o meu dia inteiro está sendo resumido nas mesmas coisas? Por que eu não consigo desligar?" e daí eu comecei a escrever e tentar entender o porquê. Eu geralmente, quando pego para escrever, eu tento só ir, e até algumas vezes, saí em formato de texto, como foi o caso dessa música. Eu escrevi um monte de coisa, foi um blocão! Depois eu fui tirando as coisas e colocando na estrutura de canção mesmo. E nesse caso foi exatamente assim: eu fui escrevendo, escrevendo, escrevendo, escrevendo, até falar: "nossa, eu realmente tô nessa!". Sim, foi um lugar muito dolorido e até hoje é, mas hoje eu consigo ver que é uma música mais - não quero dizer otimista -, mais…

Realista, talvez?

É. Ela traz, curiosamente, pra mim, um conforto. Quando eu via que tava todo mundo no mesmo barco, morria de medo. Eu falava: "que bosta! Se tá todo mundo no mesmo barco, ninguém consegue se ajudar". Tá todo mundo mal! Tá todo mundo péssimo! Mas ao mesmo tempo, foi o que a gente quis trazer no clipe. A volta para superfície não é para ser uma escolha, ela tem que ser uma reação natural. Ela é pra ser uma válvula de escape - e foi isso que essa música me ensinou. Hoje eu a vejo com esse "chegar na superfície". Esse primeiro respiro quando você chega na superfície. Tem muita coisa para fazer depois, ainda tem um mar inteiro para remar, mas ali aconteceu de rolar um respiro, de ver um [lado] melhor das coisas.


Uma das coisas que eu vi, depois que a gente se falou pela primeira vez, e que me chamou atenção é que nos seus perfis nas redes sociais, tem o "eu te ajudo a fugir do mundo". E aí, "Loop" vem com força, literalmente um loop, ou seja, um ciclo e aí vem também as águas que tem diversas interpretações. E aí faço uma provocação: se você quer ajudar o outro, não é muito peso para você?

Muito doido, porque eu recebi algumas mensagens - algumas até agressivas - de pessoas acharem que eu estava romantizando algumas questões. Eu consegui visualizar depois que esse grupo de pessoas tiveram conclusões bem diferentes do que a gente quis dizer. Só que depois eu ouvi a fala de um amigo meu que me tranquilizou muito: "cara, dependendo do contexto, a gente não sabe como a pessoa está vivendo e o que está passando. Isso diz mais sobre o outro do que sobre mim". No mesmo tempo que eu tive esse feedback, tive outros de pessoas que falaram "eu entendi o que você quis dizer. Você falou coisas que eu sempre quis, mas nunca consegui dizer". Então, assim, deu certo! Se deu certo para um e não deu certo para outro é a prova de que o rolê é subjetivo mesmo, que não está nas minhas mãos. Então, é um peso, uma responsabilidade, mas é uma responsabilidade que eu tenho pelo próprio fato de estar na bio do meu Instagram que eu sou artista. Qualquer pessoa que fale alto o suficiente para outra pessoa ouvir, tem esse peso. A minha proposta não é liderar nenhum grupo, não é ser revolucionário… A minha proposta é falar: "você quer me seguir também? Então, bora! Vamos sentir juntos".


Ainda falando de "Loop", a descrição no Youtube é: "um desafogo, nadar contra a maré para ficar vivo". Como continuar vivo? Como lutar contra essa maré? Você tem alguma dica ou algum meio?

Eu não faço a menor ideia! [risos]

O meio, talvez seja… A gente falou muito nos últimos anos sobre nossas bolhas e das pessoas estarem em bolhas sociais referentes, mas ultimamente, eu tenho pensado que eu só tô vivo por conta das minhas bolhas. Eu sei que no fim do dia tem pessoas que… Isso não é sobre achar que eu estou certo, mas é que tem horas que eu não quero sentar e ter que explicar. Eu não quero ter que falar que 2 + 2 são 4. Acho que o conselho, o método, é ter os seus iguais por perto. Eu já me questionei muito sobre isso, sobre o que são os meus iguais, quem tá no mesmo barco que eu. O que eu sei disso tudo é que esse cansaço é coletivo. Por mais que a gente saiba o momento que a gente tem que parar, falar sobre esse cansaço é necessário!


"Corpo no Infinito" é o título do seu próximo EP que será lançado daqui alguns dias. Qual o significado do nome, como foi o processo de criação e como foi gravar, ainda, com a pandemia acontecendo?

Vamos lá. O título, curiosamente, foi a primeira coisa que chegou, antes mesmo da música [o título do álbum dá nome à uma das canções]. Eu não sei, veio esse conjunto de palavras e falei: "isso é um título legal para uma coisa que eu ainda não sei o que é ainda". E aí eu comecei a pirar nisso, tentar tirar um sentido nisso. Eu lembro que de início, surgiu a ponte para a primeira música e lembro que achei isso tão legal, falou tanta coisa, que eu comecei a apontar para todos os lados. Eu fiz um monte de música com isso. Até o "Corpo No Infinito", última música, tem diversas versões - aquele final da música que é completamente final do resto, é um trecho de uma outra versão, de outro "Corpo No Infinito" que já existiu. E é aquela coisa que eu falei no começo: depois que a gente vê quando tá pronto, começa a ver sentidos que não via antes. Então, o EP é muito corpóreo, tanto que na capa sou eu e o fundo marrom. Essa noção de corpo vinha muito nas letras, não tão diretamente, reparei que vinha falando em diversas músicas de experiências que eram ao mesmo tempo muito etérea mas ao mesmo tempo muito corpóreas. Todas as músicas representam, tanto muito interiores quanto filosóficas, mas muitas delas têm imagens físicas pra mim - elas pintam desenhos muito claros. Em todos esses desenhos, eu consigo me ver; é como se eu tivesse parado em todos, observando alguma coisa. "Queda Livre", por exemplo, é pra mim a mais clara. Essa música simula uma queda livre - por isso o nome, inclusive -, onde todo mundo tá me olhando e falando "ele é um fracasso". Tá todo mundo e todo mundo dizendo "eu avisei". Estava óbvio para todo mundo, mas pra mim não tava. A cena que eu visualizo é muito essa: de um penhasco muito grande… Sentir uma queda e todo mundo visualizando. Depois de tudo pronto, esse nome meio que virou o nome desse personagem que tá ali olhando, sabe?! E é a proposta d’O Cientista Perdido no geral.


Quando eu ouvi o EP fiquei muito emocionada, porque apresenta questões necessárias. Imagino que a ansiedade seja a porta para outras coisas… O seu EP aborda a questão da saúde mental, mas com calma e muitos sintetizadores. Como que foi? Foi algo muito diferente do que você já fez?

Foi totalmente diferente do que já fiz - e essa história, eu adoro contar essa história! É como se fosse um manifesto anarquista [risos]. Em março do ano passado, como metade do país, eu fui demitido, só que o chefe tava com tanta raiva [de mim], porque eu falei umas verdades na cara dele, que me demitiu e não deu justa causa, ou seja, ele pagou tudo! Só que um mês antes de ser demitido, eu tinha conseguido ir para outra escola, então, pra mim, foi muito tranquilo. Então, quando vi essa grana [que recebi], vi que era o momento de fazer um fonograma mais robusto e assumi a produção. Aliás, uma coisa que tem que se dizer, que se fala pouco sobre o produtor musical independente, é que o aparelho do produtor musical independente não é o melhor. Então, se você fizer uma música que tenha um milhão de coisas, o computador trava. Tem mais bateria, tem outros samplers… Foi muito legal!


As breves ondas do clipe "Loop" surge no meio da nossa conversa. Percebo que são elas que dão o ritmo para nossa conversa - em alguns momentos, as ondas fortes se quebram entre nós ao falar sobre ansiedade e angústias; quando perdem a força, fazemos comentários bobos e gargalhamos. O loop vai além da música: é o ciclo da vida.


Em um ano, muita coisa mudou. Os cabelos crescem, o mergulho fica para outro dia e um afogamento inesperado pode acontecer, no entanto, percebemos que tudo cabe dentro da gente, graças ao Cientista que está disposto a fazer seus experimentos.


Com produção do próprio artista, mixagem de Gustavo Halfeld e masterização de Bruno Giorgi, o novo EP de Rodrigo e Cientista, "Corpo No Infinito" já está disponível em todos os serviços de streaming de música.

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