• Michele Costa

Daniel Kowalski e suas canções em 432 Hertz

Em algum momento da sua vida, você já se perguntou o que era a paz e como (ou onde) encontrá-la, certo? Uma pergunta complexa, onde não existe uma resposta correta, afinal, paz, um sentimento de espírito, varia de pessoa para pessoa. Segundo o dicionário, esse sentimento é um "estado de calmaria, de harmonia, de concórdia e de tranquilidade". Aplico essa denominação nas músicas do pianista e produtor musical Daniel Kowalski. Por mais que o sentido seja diferente para cada indivíduo, o trabalho do músico traz a tranquilidade que necessitamos em dias conturbados - como a realidade que estamos vivendo.


"A Cloud From Dreams World" (2021) é ideal para conhecer e consequentemente mergulhar no trabalho de Daniel. Com 8 músicas, o EP que tem mais de 26 minutos, leva o ouvinte para outro mundo - um mundo que ainda não existe, mas pode existir (quem sabe?) e que é tranquilizador; além de aceitar todos que estão cansados de viver em um mundo cruel como o nosso. A passagem para outro espaço começa na capa: um pequeno indivíduo parado, olhando para um portal com diversas cores. Olhe com atenção para o pequeno corpo que foi desenhado: é perceptível que o cidadão não tem medo - ele passa uma calmaria e surpresa em saber que é possível estar (continuar) vivo em outra atmosfera. Se ainda não acredita, ouça "The Most Magical Road", quarta canção do álbum.


Daniel começou cedo na música: nos anos 90, estudou piano erudito e teoria musical. Nos anos 2000, aprofundou os conhecimentos em piano popular e produção musical. Com a bagagem cheia, produziu músicas de diversos gêneros musicais, mas foi em composições minimalistas instrumentais que se encontrou e fincou suas raízes. Inclusive, o músico tem o objetivo de alguma forma promover a paz interior, aliviar tristezas e dar continuidade ao que muitas personalidades históricas - Marthin Luther King, Chico Mendes, Padre Júlio Lancelotti - começaram a fazer em busca de um mundo melhor, igualitário, sem preconceito e onde a natureza seja respeitada.


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Você começou a estudar piano muito cedo. O que te levou a aprender esse instrumento?

Foi graças à professora de piano, Valéria Mitt, que se mudou do Rio Grande do Sul pra Palmas/TO com seu marido e cinco filhos nos anos 90. Muita gente veio tentar a vida aqui no começo da cidade, meus pais também fizeram isso. Nessa época a cidade nem tinha asfalto e muito menos uma escola de música, mas a professora Valéria dava aulas de musicalização infantil e piano pra família dela e alguns amigos. Eu tinha bastante vontade de aprender música e comecei a estudar piano nessa oportunidade que mudou a minha vida inteira.



Você já trabalhou, produziu outros gêneros musicais. Como foi o processo em começar a trabalhar sozinho e com ambient music?

Apesar de ter trabalhado com vários estilos de sons diferentes dos que eu faço no meu projeto solo, sempre que dava eu tinha um pé na música digital, que faz parte da construção da ambient music. Pra ser sincero eu nem conhecia essa classificação "ambient music" quando criei a concepção do meu trabalho, há uns 14 anos. Soube que meus trabalhos poderiam ter essa classificação sonora depois da opinião de pessoas que entendem muito mais disso do que eu [risos]! Quando entrei nessa ideia, eu tinha somente uma vontade enorme de desenvolver um projeto minimalista solo que pudesse fazer bem pra quem escutasse, então, quando comecei a descobrir pra valer que o som tinha o poder de promover a cura física, mental e espiritual, senti que era a hora de colocar aquela ideia antiga em prática.


Como é o seu processo de criação? Aliás, esse processo foi alterado no decorrer do tempo que lançava seus álbuns?

O processo de criação que procuro trabalhar é o de retratar movimentos invisíveis por meio de sons. O processo de criação quase sempre tem sido o mesmo: paro na frente das teclas, faço silêncio, escuto o barulho do universo e tento decifrar o som em forma de imagens. Isso costuma me remeter à natureza ou histórias impossíveis, em seguida interajo com tudo isso na minha mente e gravo a primeira ideia musical que aparece.


Você faz músicas com o objetivo de promover, de alguma forma, a paz interior aos ouvintes. Questiono: qual o significado de paz para você? Você acha que o indivíduo, vivendo em uma sociedade capitalista, cheio de informações, crise sanitária e econômica, pode encontrar algum tipo de paz?

Acredito que enquanto seres humanos, independente do tipo de realidade que estamos inseridos, somos criados de som e interagimos com o som de uma forma que está além do que eu sou capaz de explicar. Uma vez escutei que o propósito da vida seria "abordar como uma canção qualquer coisa que encontrarmos pela frente", na minha concepção, a música pode trazer reflexão, mudança de atitudes, alívio e até mesmo cura para dores físicas e da alma num nível que está intimamente ligada ao ser humano de forma integral, acima de convicções, pensamentos ou realidades meramente físicas. Se a "minha" música tiver o poder de tornar um pouco mais leve a vida de qualquer pessoa que seja, eu acho que vou me sentir a pessoa mais rica do universo.


Suas músicas são sempre diferentes, mostrando sua evolução narrativa. Muitas coisas mudaram dentro de você?

Com certeza muitas coisas mudaram dentro de mim durante essa experiência dos últimos tempos e o que certamente reflete na forma que interpreto o universo e transformo isso em música. Sinto que todos nós carregamos missões infinitas e igualmente importantes aqui nessa vida, me esforço pra tentar fazer o melhor que puder. Estou num processo de produzir 4 álbuns/EP que, ao final, vão compor um mesmo quadro. Essa evolução narrativa é parte de um entendimento que tive sobre mim, sobre o universo e sobre o infinito que todos nós somos. Por exemplo, o próximo trabalho, que foi gravado numa região Amazônica no mês passado, já está em fase de pós-produção e vai retomar um ambiente parecido com "A Cloud From Dreams World" e, a partir dali, viajar pra um outro lugar mágico e surreal desenhado em outra dimensão.


É preciso dar outras informações sobre Kowalski: como já foi mencionado pelo músico, Daniel pretende criar um conjunto de quatro obras, que se iniciou com "A Cloud From Dreams World". "Zero Gravity" (2021), seu último lançamento, dá continuidade ao projeto. O álbum foi produzido no cerrado tocantinense, em um estúdio montado ao ar livre, entre chuva e seca, fator que segundo ele "é determinante para endereçar os sentimentos e sensações que a chuva traz".


A segunda informação é que as músicas produzidas por Daniel são gravadas em 432 Hertz, ou seja, representa uma quantidade de vibrações sonoras considerada pela medicina holística como uma das frequências mais poderosas de todo universo, possibilitando que uma simples trilha sonora nessa frequência auxilie no desenvolvimento do corpo, da mente, aliviando a ansiedade e o estresse. Sabendo disso, é impossível não lembrar da obra de Henry David Thoreau, "Walden" (1854), uma história real que relata a conexão entre o homem e a natureza, entre uma viagem de descoberta espiritual. "Somos todos escultores e pintores, e nosso material é nossa própria carne, nosso sangue e nossos ossos."



"Zero Gravity" foi produzido no cerrado tocantinense, em um estúdio montado ao ar livre, em uma época chuvosa. Como foi essa experiência? O que te levou a trabalhar em um período de chuva e seca?

Aqui, nessa região do cerrado, costuma chover por seis meses e depois passamos por seis meses sem chuva. Foi uma coincidência o período de gravação ter se iniciado bem nessa transição, mas eu fiquei muito feliz em poder ter essa interação completa durante as criações.


Como é trabalhar perto da natureza e qual o impacto da mesma em sua vida?

Trabalhar perto da natureza é uma das experiências mais gratificantes da minha vida. Nas músicas que gravo, tento compartilhar e traduzir com muita sinceridade algo que possa tornar mais leve e traga evolução pra vida de quem quer que esteja escutando, nesse contexto a primeira pessoa que acaba escutando esses sons sou eu mesmo e me sinto abençoado. A natureza está carregada da nossa essência enquanto parte de um mesmo universo e é um privilégio inexplicável poder interagir com algo tão sublime.


"A Cloud From Dreams World" é o seu disco mais sentimental, diferente dos demais. Como é trabalhar com uma carga emocional tão forte?

Eu me emociono muitas vezes durante as composições, mas o "A Cloud From Dreams World" foi super carregado de emoções. Esse trabalho, em específico, foi uma mensagem que há tempos eu gostaria de deixar registrada durante a minha passagem aqui na Terra, por isso fiquei muito feliz quando consegui ver esse projeto realizado.


Seu próximo trabalho será feito nas regiões nevadas da Patagônia Argentina. O que podemos esperar?

Tenho um conceito que ainda é somente uma centelha do próximo trabalho. Penso em descrever algo bem introspectivo, com mais desenvolvimentos no piano do que nos outros trabalhos, mas o que podemos esperar de fato é uma grande surpresa, porque a real expectativa ainda é um mistério pra mim também. A única certeza que tenho é que vou descobrir algo muito especial quando interagir com aquele ambiente na busca de interpretar o sentimento do momento em forma de som.


O trabalho de Daniel Kowalski está em todas as plataformas de streaming de música.

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