• Michele Costa

A potência de Mariana Ferreira

Segundo o dicionário Michaelis, a palavra potência é: "poder, força e eficácia". É possível encontrar potência em diversos elementos e objetos, como é o caso do mar, trovões, máquinas e um aparelho de som - mas não é só isso. Há muito mais. A potência, essa força que é eficaz de causar impacto, positivo ou negativo, também está presente nas pessoas: como é o caso de Mariana Ferreira, e "Daren", seu livro nascido da noite.


"Daren" traz textos produzidos durante a madrugada, a partir de um processo criativo longo, mesclando os 17 anos de vivência e os diversos escritos de Mariana. A obra vai além da poesia, "Daren" (nascido na noite, em Hausa), é um manifesto íntimo, um material pedagógico, um diálogo profundo com quem se é quando se está sozinho, quando a noite chega. A potência da escritora se junta com as palavras que tornam-se ondas do mar, potentes, que podem trazer plenitude ou sufocamento para quem lê.


A relação com a literatura começou cedo: na infância, fazia intervenções poéticas na Escola Maria Júlia e aos 11 anos foi premiada em 1° lugar no Concurso Literário da Casa de Cultura de Mutuípe. Sua vontade de estar em contato com a arte a levou longe: Mariana é multiartista, produtora cultural e constrói o caminho para libertação, emancipação e autonomia do povo negro. Atualmente, é membro e co-fundadora do Coletivo Us7monstrinhos onde atua coordenando a Biblioteca Comunitário D. Edite Rodrigues, na Bahia. A potência transborda e é intensa.


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Você teve o primeiro contato com a literatura na infância. O que te fez continuar nesse caminho?

A leitura sempre me fascinou por causar múltiplas sensações em dimensões não vistas, mas imaginadas dentro das outras possibilidades de sentir. A minha família me formou como leitora desde muito cedo e a leitura sempre foi uma atividade recorrente no meu dia. Eu fui gestada enquanto artista dentro de uma atmosfera de autoconfiança que me fez acreditar que eu posso fazer o que eu quiser criativamente. As leituras da infância e a criação desenvolvida pela minha família fortaleceram isso, e depois, na minha pré-adolescência e adolescência, estive envolvida com produções culturais e apresentações em sarau, daí comecei a produzir pensando nas performances de poesia falada, em "Daren" tem até umas quatro produções dessa época.


Sua escrita mudou desde que começou?

Mudou porque acompanharam meu processo de amadurecimento artístico. Meus primeiros textos foram para projetos escolares, escrevi depois um texto que foi premiado em primeiro lugar no Concurso de Poesias da Casa de Cultura de Mutuípe em 2014. De 2014 até 2018 os textos tinham uma estrutura narrativa rígida, montados pensando numa linearidade, hoje, reservo a construção de uma estrutura narrativa apenas para a produção de contos. De 2019 pra cá desenvolvi um método de produção de versos autossuficientes, e consequentemente, textos menores, com o mesmo teor lírico inflamável e mais complexos poeticamente


Quando você percebeu a potência da sua voz? Quando você escreve, o que deseja transmitir aos leitores?

Eu fui formada para ser potente, não só na produção literária, mas politicamente e nas minhas interações individuais e coletivas. Eu escrevo antes de todos, pra mim, os textos que são publicados são textos que eu considero compartilháveis. Ao leitor, eu compartilho as minhas experiências para que elas sejam condensadas com as experiências e sensações que o leitor construiu durante a vida numa dinâmica de aproximação, repulsa e/ou confluência.


Por que continuar escrevendo, em um país que não se importa com educação e arte?

Porque não escrevo para ser aprovada ou consumida, minhas produções não são artigos de consumo. Além de que a concepção de arte e educação brasileiras são concepções supremacistas brankkkas, são mecanismos de colonização e domínio e "Daren" se insere no enfrentamento dessa política.


"O futuro é ontem
E vocês perdem tempo demais esperando
carros voadores
Eu quero é comer um pouco de tudo que
a boca come
Eu gosto da dinâmica caótica das
coisas
De cabelos trançados e uma fome que
não cabe no mundo
Mais importante que construir entradas
é percorrer o caminho sem medo"

Seu livro, "Daren", surgiu durante a noite. Como foi escrever durante a madrugada, enquanto todo mundo está dormindo?

Prefiro produzir durante a noite, depois das 22h tenho picos de produção, eu acho o horário ideal pra pensar arte, eu funciono melhor à noite. No início, "Daren" tinha outro nome, era " O Efeito do Sol na Minha Pele", era um nome enorme, fútil e insignificante. Pensei em algo que fosse comum a todos os textos e veio isso da produtividade noturna, estava pesquisando sobre a Nigéria e aprendi algumas palavras de uma língua originária (hausa), dentre elas estava "Daren", que numa tentativa de tradução, é próximo de "Nascido na Noite" ou "Nascido Tarde da Noite". Nascer durante a noite é algo comum a todos os textos e é algo ligado a mim, que nasci às 3:30 da madrugada do dia 24 de setembro de 2003.


"Daren" é um manifesto íntimo. No livro, você mostra um diálogo profundo quando se está sozinha. Como foi chegar na escolha desses temas? Escrever sobre suas vivências, seus sentimentos, foi difícil em algum momento? Escrever é doloroso para você?

Escrevo para a imortalidade, sobretudo, para ser memorável, e "Daren" é isso, construção de legado. Em "Daren", não escrevo sobre mim, escrevo a partir de mim, escrevo comigo, sobre os meus, sobre histórias já contadas e histórias que ainda vão contar. "Daren" é um jogo de experimentalismos do meu método de escrita. A escrita pra mim não é dolorosa, é um diálogo profundo e cativante.


(Foto: Mariana Ferreira)


O ódio criativo é uma das inspirações da Mariana. O termo é abrangente, tendo diversos significados - que é alterado para quem escreve e quem lê; mas uma coisa é importante: esse ódio criativo fez com que a escritora reunisse ensaios complexos e densos, fugindo dos padrões. A potência continua transbordando, fazendo com que Mariana Ferreira seja imortal.


Quais os seus próximos planos para o futuro? Pretende lançar novos livros?

Os planos artísticos são muitos, reduzindo aos literários: tô montando um novo livro que deve sair entre 2022 e 2023, não posso dar detalhes, mas o próximo livro será uma produção mais robusta esteticamente, e faz parte de um projeto maior, será um pré-projeto, uma espécie de pré-produção, um compilados de contos que será integrado nas produções do UNDERGRAUH, que é um laboratório sobre masculinidade preta na Bahia no qual eu sou Coordenadora Criativa e Fotógrafa. "Daren" segue o conceito de uma zine (baixo custo, mais frágil e para ampla circulação), esse outro será visualmente mais convencional.


Mariana está no Instagram e Facebook, distribuindo sua potência aos seguidores. Conheça todos os projetos da escritoras, através do seu Linktree. É possível comprar "Daren" na loja virtual da Editora Tremembé. Deixe-se afogar com a plenitude de Mariana, você não será mais o mesmo.

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