• Michele Costa

A ossada de Gabriel Sanpêra

Sol, café, sangue, fotografias e água são alguns símbolos que encontramos na poesia de Gabriel Sanpêra. Ao escrever, o jovem escritor utiliza a literatura para relembrar e se conectar com sua ancestralidade, celebrar os corpos negros e de ser resistência em espaços ocupados majoritamente por brancos. Não pense que a escrita de Gabriel seja doce - ela é nua e crua, forte como uma avalanche; e é dessa maneira que conhecemos, nos emocionamos e aplaudimos o escritor.


Sanpêra nasceu no interior do Rio de Janeiro e desde criança se viu imerso nas palavras por conta de sua criatividade. Influenciado por sua bisavó Dona Luísa, que o criou, Gabriel escreve para relembrar seu passado, marcado pelos familiares, suas vivências, a infância, a importância de ser negro, periférico e LGBTQIA+ em mundo homofóbico e racista; e o reencontro com seus antepassados no terreiro Nossa Senhora da Guia, em Volta Redonda. Seu amor pelas pessoas que o impactam está na dedicatória de "A Ossada de um Moleque" (Okírì, 2021), seu segundo livro: "À minha bisavó, Dona Luísa. Aos irmão de Ylê. Aos meus professores e professoras. Aos possíveis amores da minha vida. À dona Maria Jesuíno". Gabriel relembra seu passado, marcado pelos familiares, o reencontro com seus antepassados no terreiro Nossa Senhora da Guia, em Volta Redonda


Interessada em saber mais sobre o início da literatura em sua vida, peço para que me conte mais. Ele atende meu pedido: "A literatura não entrou em minha vida de forma tão linear, como nas entrevistas que escritoras e escritores contam como foi o contato romântico com um livro na escola. Meu contato com a literatura ocorreu sim, por meio da biblioteca da escola que me deu acesso à vários livros. Porém, pude ler o que curti de verdade num livro que ganhei de um amigo".


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Você escreve desde criança. Você e sua escrita mudaram desde quando começou? Se sim, como?

Sim. O primeiro livro trouxe um amadurecimento enorme, porém tudo isso se fortaleceu depois que percebi como minha escrita chegava nas pessoas e nos espaços. Muitos dão o livro de presente para amigos, ou leem por indicação de um amigo. Outras pessoas pegam emprestado e acabam não devolvendo.

E foi assim que percebi que tenho outras urgências e que devia falar sobre elas também. Fui atrás de corpos de escrita que falassem da minha luta, que falassem também de suas lutas e que de certa forma gerassem algum abalo na minha estrutura e zona de conforto. Minha escrita ganhou segurança, identidade e hoje consigo defender o formato que escrevo, mesclando poesia e crônica.


Sua escrita contém muito da memória afetiva e a observação. Esses dois "métodos" sempre foram utilizados ou você encontrou no decorrer do amadurecimento como escritor?

Eu encontrei este método com o tempo. Meu primeiro livro marcou um momento importante em minha vida. Eu tinha saído de um ciclo de violências familiares e pessoais, onde a escrita me trazia um ambiente de proteção. E após entender mais sobre quem eu era, em Fora da Cafua, fui atrás de minhas histórias. O primeiro livro [Fora da Cafua] traz histórias de descoberta, pavor e quebra de dúvidas acerca da sexualidade, encontro com Orixá e o momento em que me percebo um corpo preto à beira dos dezoito anos. No novo livro, busquei me traduzir por meio de fotografias da minha bisavó. Um álbum de fotografias que ganhei dela e que utilizei como objeto de estudo.


Quais são as suas inspirações? Você tem um processo de escrita?

Meu processo de escrita é em grande parte visual. Adoro poder enxergar fotografias nos textos que construo e poder também, imaginar um som por meio da composição toda. Eu prendo em um barbante a foto, tento compreender o que está ocorrendo ali e início o processo de mergulho em memórias afetivas que "chuto". Pois aqui, as memórias envolvem as fotografias da minha avó e o disse me disse. Não me aprofundei em entender os reais acontecimentos por trás das fotografias.


Por que continuar escrevendo, ainda mais agora em tempos difíceis? Aliás, em algum momento, escrever fica difícil para você?

Sim. Escrever também não foi/é um processo linear para mim. O primeiro livro foi escrito num contexto de realidade que acaba por ser a realidade de muitos corpos pretos na escrita: escrevia durante o trabalho, após o trabalho, durante a faculdade e no ônibus de volta pra casa. Minha rotina nunca teve paz de processo para pensar em técnicas de escrita e formatos de roupagem para os textos. Acredito que a escrita preta nasce de processos criativos de caos, urgências e tentativas de sobrevivência.



"A Ossada de um Moleque" me lembrou o disco "Clube da Esquina" (1972) por dois motivos: os meninos possuem um olhar calmo, de esperança, uma ingenuidade que só as crianças possuem; e o forte impacto das palavras. Ambas as obras são fortes, te emocionam logo de início e você nunca mais será o mesmo.


"Menino, nunca seja água parada. Água parada nunca traz boas notícias. Traz doenças e coisas que não dão saúde ao corpo da gente. Seja chuva, pipocando no quintal por todo lado, de um mundo para o outro."

O livro reúne diversos contos que retratam a estrutura de um moleque que vai crescendo, tornando-se menino e depois moço. Três ossadas de um único rapaz que está se moldando para viver. ""A Ossada de um Moleque" é sobre o ato estético-político de tomar posse da adversidade e, a partir dela, criar. É expressão de saberes que relatam o elo ancestral com a linha vibrante da vida", explica Simone Ricco, Mestra em Letras/Literatura Africanas, Educadora Antirracista, Articuladora Cultural, Escritora e quem assina o texto de apresentação do livro.


A estrutura ancestral, emocional, o racismo estrutural que o atravessa, a estrutura física que impacta caminhos, escolhas, imposições. Há uma tênue linha, invisível, que transpassa os textos fazendo uma conexão única, às vezes quase imperceptível, entre eles. A ossada é elemento literal e simbólico, real e metafórico, dando consistência orgânica ao conjunto de memórias, sonhos, dores, amores, vivências diversas e intensas de um corpo que afirma seu valor e sua existência a cada conto, a cada linha.


Em "A Ossada de um Moleque", você reconstrói histórias, invocando seus ancestrais, misturando-os com a realidade. Como o enredo surgiu?

O enredo surgiu de uma pesquisa que fiz com fotografias de minha bisavó. Ela tinha (está viva) uma mania interessante de realizar anotações em fotografias com caneta. Eu fiquei instigado nas anotações e resolvi criar com isso e como muitos dos textos foram criados durante a pandemia, tentei recobrar a consciência sobre meus familiares distantes e minha cidade natal, que não vejo faz tempos. Neste livro deixo meus ossos expostos para leitura, espanto e para que guardem. Assim serei um preto imortal, arquivado na memória de leitura de muita gente, junto das histórias e pessoas que estão no livro.


"A Ossada de um Moleque", retrata a resistência do corpo jovem negro periférico LGBTQIA+. Sua literatura é forte! Trazer a realidade é ou foi doloroso para você?

Não, pois tento trazer nesse livro um novo olhar sobre a produção negra e LGBTQIA+. Contamos nossas histórias também por meio da memória, mas percebo que existe um conforto em nos trazem ao front, apenas em relatos de dor e sofrimento.


Ao escrever uma história ou uma poesia, o que você busca despertar no leitor?

Busco trazer a pessoa para dentro do ambiente e estado psicológico que imagino durante a escrita. Se no texto eu molho meu pé, busco ao menos causar uma pequena coceira no pé do leitor, ao ler e mexer a perna por lembrar de alguma sensação.


Gabriel Sanpêra é constituído por 206 ossos, como todo ser humano, porém, possui alguns aspectos que muitos indivíduos não têm: amor - o sentimento que é essencial para dar continuidade na trajetória e que salva. Os dias continuam passando e o escritor continua com a vontade de escrever, com o objetivo de causar sentimentos no leitor. Gabriel Sanpêra contém uma ossada e diversos sentimentos que vão aumentando a intensidade enquanto vive, relembra seus antepassados e caminha para o futuro.


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