• Michele Costa

Big Science: a obra-prima de Laurie Anderson

"From The Air" é a primeira música do álbum de estreia, "Big Science". Vocoder, bateria, teclado e saxofone se misturam. A voz de Laurie Anderson surge em seguida, aos 28 segundos, cumprimentando o ouvinte. "Good evening", ela diz, "This is your Captain / We are about to attempt a crash landing". Existe uma mudança brusca de ouvinte para passageiro; ao lado da comandante, o indivíduo embarca em um caminho experimental e performático. "This is your Captain / and we are going down / We are all going down, together". Ela pede para apertar os cintos. Obedecemos, porque não queremos ficar fora dessa experiência.


Se antes estávamos caindo, Laurie refaz a rota e nos leva para outra direção. Em "Big Science", canção que leva o título da obra, o ritmo diminui, além do tema que é mudado. A multiartista nos desestabiliza com um novo caminho, questionando as estruturas da sociedade capitalista - não se faz uma cidade dourada com apenas um homem. Já em "Sweaters", canção baseada na gaita de fole, Laurie busca encontrar a humanidade (consequentemente o amor) que foi arrancada pelo monstro do capitalismo. "Walking and Falling", quarta canção do álbum, conversa com a anterior. Dessa vez, a cantora nos faz relembrar que existe uma pessoa para cada um (e consequentemente o amor - sempre o amor), mas deixamos esse indivíduo escapar pelos nossos dedos, porque quando damos um passo, caímos. Somos realmente livres para sentir o que quisermos?


"Born, Never Asked" traz um questionamento mais profundo. O vôo oscila o tempo todo. É aqui, com esta música, que conhecemos um pouco mais Laurie: suas canções são inspiradas na filosofia de Heidegger, Schopenhauer e (por que não?) Franz Kafka.



"O Superman", primeiro single lançado da artista, é um poema-manifesto que traz os Estados Unidos (ah, a Grande América - em maiúsculo) no papel dos pais autoritários. Utilizando o poder sobre seus filhos, América abusa de sua hipocrisia para manipular aqueles que deveriam ser protegidos. Já em "Example #22", Laurie mistura alemão e inglês com outros sons, como um telefone tocando, para questionar o poder da linguagem - "Your sound I understand the languages / I don’t understand the languages / I hear only your sound".


"Let X=X", penúltima canção, traz uma dualidade que apenas Anderson poderia fazer. A música pode ter relação com "Big Science", afinal, um prédio é feito em uma cidade; no entanto, a artista também pode estar falando sobre os opostos. Quem sabe? Precisamos de respostas o tempo todo? "It Tango" fecha o álbum e dessa vez traz a dualidade, aquilo que enxergamos nunca é o mesmo que o outro vê - "It’s a day’s work to look in to them / Your eyes".


O vôo termina. Não foi fácil e nem relaxante, pelo contrário, foi difícil e conturbado - mas esse é o papel do artista: retirar da zona de conforto, levar o ouvinte (ou passageiro) para outros lugares. Quarenta anos atrás, Laurie Anderson lançava o álbum que marcou pessoas - seu legado continua forte, até hoje, o álbum continua transformando pessoas. Agora, podemos tirar o cinto. Boa noite.

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