• Michele Costa

Desalinhando Lima Duarte: o brasileiro esperançoso

A narrativa desse Desalinhando começa em 1945, quando Ariclenes Venâncio Martins, aos 15 anos, resolveu sair do interior de Minas Gerais para realizar seu sonho: trabalhar no rádio. Pode-se notar que o protagonista era muito maduro para sua idade, não deixando se abalar pela pouca idade para realizar o sonho. Chegou em São Paulo com ajuda de um caminhoneiro que transportava manga à cidade de pedras. Nós não sabemos se eles fizeram uma amizade que durou por um bom tempo, mas também isso não importa - Ariclenes chegou em seu destino após muitas horas de estrada.


O filho de boieiro e de uma artista de circo, o nosso protagonista já nasceu mais brasileiro do que todo mundo. Ele sabe que quando se é brasileiro, carrega tudo dentro de si - da mata à arte. Ele também sabe que a arte ajuda a compreender o papel do indivíduo nessa terra - que ao interpretar uma nova personagem, também está interpretando o outro, ou seja, outra pessoa se reconhece ali, podendo haver uma mudança ou não.


Ariclenes faz um teste para ser radialista na TV Tupi, mas é reprovado pelo forte sotaque mineiro. Será que ele ficou frustrado, triste? O nosso protagonista é brasileiro, sendo que carrega a esperança dentro de si. Vamos pensar que ele ficou abalado, mas não desistiu, pois saiu de lá empregado; estágio de sonoplastia (além de um “faz de tudo”). Dizem que Ariclenes adorava fazer imitações - um dia, ao imitar alguém, chamou atenção do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, que o convida para participar em uma radionovela. Será que o sonho do protagonista se realizou? Vamos acreditar que sim, porque a partir dessa participação, Ariclenes conquista o Brasil.


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Ao começar a fazer radionovela, o protagonista desta narração, adota o nome de Lima Duarte, sugestão de sua mãe que era espírita e o aconselhou a colocar o nome do seu protetor.


Na TV Tupi, Lima Duarte continuou como "faz de tudo", para, mais tarde, dirigir duas novelas que fizeram sucesso na época, "O Direito de Nascer" e "Beto Rockfeller". Foi ali, no extinto canal de televisão, que o nosso protagonista, o herói, aprendeu a fazer realmente tudo. Mais tarde, Lima Duarte fica conhecido como ator, diretor, radialista, dublador, sonoplastia, roteirista e apresentador. Lima conseguiu diversas carreiras no meio da comunicação. Se foi pensado? Vamos acreditar que sim, porque o mundo da arte é isso: tudo.


Em todos os seus trabalhos, Lima Duarte representa o brasileiro. O brasileiro que é cheio de vida, com sentimentos e com sensibilidade. Nós não sabemos se existe esse tipo de brasileiro nos dias de hoje… Seja no teatro Arena, um dos mais importantes grupos teatrais brasileiros da década de 50 e 60, ao lado de Gianfrancesco Guarnieri e Flávio Migliaccio, na TV, no cinema, no rádio ou em qualquer outro meio de comunicação, Lima Duarte fez parte de nossa vida, com nossas características, entrando em nossa casa sempre que possível para rir, emocionar ou passar raiva.



A memória que tenho mais forte de Lima Duarte é na novela “Da Cor do Pecado”, de 2004. Eu tinha nove anos e estava na quinta série. Não perdia um capítulo. Era um momento de família, se não me engano: todos na sala, sentados no sofá, em silêncio, assistindo a novela, prestando atenção. Foi ali que eu entendi qual era o papel do ator - ou algo do tipo.


Uma vez, me disseram que o ator tem o objetivo de representar papéis onde o telespectador se enxerga. Um papel sobre nós. Tenho pensado sobre isso, assim como o papel da arte em nossa vida - principalmente nos dias de hoje. Se a arte significa um alívio, eu devo esperar mais dos artistas? Mas os artistas precisam de um descanso, precisam compreender a dor, vivê-la. Lembro de Lima Duarte como Afonso, o velho rico que não compreende o filho e como ele precisou se afastar da riqueza, do pai tóxico, para compreender o sentido da vida.


Esse drama também surge em "A Busca", filme dirigido por Luciano Moura e lançado em 2012. Theo Gadelha (Wagner Moura) colocou sua carreira à frente de tudo na vida, mas questiona e aprende o valor da família quando seu filho desaparece. A procura por uma resposta, por um ente querido, tem me lembrado os dias de hoje. Além disso, tenho me perguntado se nos conhecemos. O que somos? Qual o nosso papel nos dias de hoje? Por que não deixamos de ser egoístas, ruins e cheios de luxúrias?


Lima Duarte já representou todos os tipos de brasileiros, desde o humilde até o faminto por poder. O mocinho e o vilão. O protagonista dessa história nos emociona, mostrando - de um jeito duro - o que somos. Seja bom ou ruim, somos o que somos.


"Eu te entendo, Migliaccio, eu te entendo. Porque eu, como você, somos do Teatro de Arena, com o Paulo José, com o Chico de Assis, com o Guarnieri, aprendemos com o Boal que era preciso, era urgente que se pudesse o brasileiro em cena, numa interpretação de um Brasil dominado por essa interpretação de consumo, determinada por Hollywood, éramos uma colônia cultural - somos ainda. Era urgente que se pudesse o homem brasileiro em cena, com o seu falar, com o seu sentir, com o seu jeitão, a alma brasileira.
Você foi um mestre, você conseguiu colar, e eu também. Colocamos em cena o homem brasileiro, foi linda essa viagem, essa aventura foi espetacular. Nos dedicamos a isso com ardor, com paixão, colocar o homem brasileiro, a alma brasileira em cena, nós conseguimos isso no Teatro de Arena, foi lindo. Depois, e é por isso que eu te entendo, veio 64. Pouco depois de 64, nós ficávamos ali na escada da Tupi, que tem até hoje no Sumaré, Dionizio Azevedo, o Walter Durst, o Túlio de Lemos e o Plínio Marcos, ficávamos ali esperando a veraneio que viria nos buscar, um carro daquela época. Um dia virou um à direita ali na esquina da Tupi, encostou, eu disse: "É a minha". E todos disseram: "É isso, Lima, vieram buscar o Ariclenes".

Lima Duarte completa hoje 91 anos. Já tomou duas doses da vacina contra o novo coronavírus, mas ainda não pode atuar, voltar para o local que se sente mais bem. No entanto, o protagonista dessa história está em um bom lugar, seguro, esperando, ansiosamente, os próximos passos. O protagonista do início desse post é um dos heróis brasileiros. Nós, seres humanos, mais novos, devemos muito para ele - desde sorrisos, suspiros a nossa vida, porque ele, o ator brasileiro, sempre faz muito.


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