• Michele Costa

Desalinhando Kurt Cobain: do pequeno artista ao cantor depressivo

Não é difícil "ler" Kurt Cobain. Nunca foi. Olhe para seus olhos nas diversas fotografias que estão em domínio público, eles dizem muito - principalmente aquela foto que ele está segurando uma arma. Além disso, as músicas que escrevia para o Nirvana carregavam o seu sofrimento, como é o caso de "Something In The Way" que está em "Nevermind" (1991), álbum que consagrou o trio: "And I’m living off of grass / And the drippings from my ceiling / It’s okay to eat fish / ‘Cause they don’t have any feelings". Pra mim, essa canção diz muito sobre como Kurt se sentia.


No livro "Heavier Than Heaven: Mais Pesado do que o Céu - Uma Biografia de Kurt Cobain" (2002), Charlie Cross escreve no prólogo a primeira morte de Kurt: "A primeira vez que ele viu o céu foi exatamente seis horas e cinquenta e sete minutos depois do momento mesmo em que uma geração inteira se apaixonou por ele. Foi, sem dúvida alguma, sua primeira morte, e apenas a primeira de muitas pequenas mortes que se seguiram". Kurt estava quebrado e ninguém (aqueles que o quebraram, seus pais, sua família, seus amigos, a fama e seus sentimentos) conseguia ajudá-lo. De garoto promissor, que se dava bem na escola e era rodeado por amigos, para um jovem suicida, que buscava alguém para aceitá-lo e amá-lo.


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Kurt Donald Cobain era um menino promissor, gostava de artes, conversava com todo mundo e se expressava muito bem. No livro de Charles Cross, sua irmã Kimberly diz: "Mesmo quando era um garotinho, ele se sentava e tocava alguma coisa que ouvirá do rádio. Conseguia se expressar artisticamente no papel ou em música tudo que imaginava". Veio de uma família que o esperava muito e que o amava demais. Assim que nasceu, tornou-se o protagonista da família que vivia em Washington.


O pequeno Kurt descobriu o mundo da arte ainda pequeno e foi incentivado pela sua avó, que o ajudava nas pinturas e na escrita. Aos dois anos de idade, descobriu o rádio e ficou encantado com as músicas que tocavam - foi assim, que começou a demonstrar interesse pela música. Na escola, era conhecido pelos professores como um aluno precoce e perguntador.


Aos três anos, conhece Kimberly, sua pequena irmã. Por um bom tempo, o menino de olhos azuis só queria ficar ao lado da caçula, protegê-la de qualquer perigo, como mostra a biografia que Ross escreveu do artista: "Quando Kimberly foi trazida do hospital para casa, Kurt insistia em carregá-la para dentro de casa. Ele a amava muito". Esse amor avassalador marcou a personalidade do artista que o acompanharia pelo resto de sua vida - ele era sensível às necessidades e sofrimentos dos outros, principalmente aqueles que faziam parte de sua família.


Em diversas entrevistas, Kurt dizia que teve uma família até os nove anos de idade, depois essa família que ele amava tanto, acabou. O fim trágico, onde os pais começaram a brigar, se separam e não dão suporte necessário aos filhos, marca Kurt. Ele internalizou o divórcio dos pais, como muitas crianças fazem, e acreditou que era sua culpa. Além disso, os pais idealizavam um futuro para Kurt, onde ele se desse bem e que agradaria a todos - talvez, sabendo que não seria como eles desejavam, Kurt procurava a aprovação deles por outros meios. Don, seu pai, era exigente com os filhos e queria que o primogênito agisse como um homenzinho, ou seja, que não se expresse e que troque a arte pelos esportes. Quando aprontava, o menino apanhava e isso tornava-se um terror psicológico para ele. No fundo, Don queria ter uma relação de pai-filho que nunca teve com o seu pai, Leland. Além disso, seus pais eram zombeteiros e irônicos quando queriam.


"Foi traumático para Kurt ver tudo em que ele confiava - sua segurança, sua família e seu próprio sustento - desfazer-se diante dos seus olhos”, escreve o biógrafo. No mesmo mês da separação, o pequeno escreveu na parede do seu quarto: “Odeio mamãe, odeio papai. Papai odeia mamãe, mamãe odeia papai. Isto apenas faz você querer ficar muito triste". É a partir daí que Kurt começa a se quebrar e construir uma personalidade destruidora.



Segundo o estudo da Universidade de Illinois, publicado no periódico Personality and Social Psychology Bulletin em 2016, filhos que passam pela experiência do divórcio dos pais quando são novos tendem a ter um relacionamento instável com os pais na vida adulta. Além disso, a separação impacta no emocional da criança, fazendo com que ela tenha perda de controle, tristeza, desilusão com os pais, receio que os mais velhos os deixem de amar, agressividade, auto-culpabilização e perturbações psicossomáticas. Era isso e muito mais que Kurt sentia.


Não preciso ir muito longe para dizer que o crescimento, a adolescência, de Cobain foi complicada. Morou com a mãe, depois foi morar com o pai em um trailer; brigou com os pais quando os mesmos encontraram novos companheiros (aqui, me pergunto se no inconsciente dele, sonhava que os pais voltariam a ficar juntos); conheceu a maconha cedo e se isolou na música, ao lado de sua primeira guitarra.


"Quando eu crescer, quero ser bicha, negro, cadela, puta, judeu, chicano, chucrute, carcamano, maricas, hippie branquelo, ganancioso, acumulador, saudável, suado, peludo, másculo, new waver excêntrico, direitista, esquerdista, milico condecorado, cagão, campeão, estúpido, físico nuclear, conselheiro do AA, psiquiatra, jornalista, punho fedido, romancista, gay, preto, aleijado, drogado, HIV positivo, hermafrodita, filhote de golfinho, obeso, anoréxico, rei, rainha, agiota, corretor de ações, maconheiro, jornalista (tudo é enfado, menos é mais. Deus é gay, fisgar uma presa), jornalista de rock, zangado, rabugento, de meia-idade, amargo, pequeno, magricelo, dogmático, velho, agente contratador e editor de um fanzine que extrai o pequeno percentual até do menos percentual. Mantê-los divididos, formar guetos, unidos ficaremos, não respeitar as sensibilidades dos outros. Mate-se mate-se mate mate mate mate mate mate estupro estupro estupro estupro estupro estupro é bom, estupro é bom, estudo mate estupro ganância ganância bom ganância bom estupro sim mate"

Já no último álbum do Nirvana, "In Utero" (1993), há uma música intitulada "Serve The Servants", onde Kurt diz que não odeia mais o pai: "As my bones grew they did hurt / They hurt really bad / I tried hard to have a father / But instead I had a dad / I just want you to know that I / Don’t hate you anymore / No, there is nothing I could say / That I haven’t thought before". É interessante perceber que mesmo na fase adulta, aos 26 anos, Kurt continuava procurando alguém que o aceitasse e cuidasse dele, como fazia seus pais quando era pequeno.


"Amigos com quem eu possa conversar, sair e me divertir, tal como eu sempre sonhei, poderíamos conversar sobre livros e política e poderíamos fazer vandalismo à noite, que tal? Hein? Ei, eu não consigo deixar de arrancar os cabelos! Por favor! Porra, Jesus Cristo todo-foderoso, ame a mim, a mim, a mim, podemos continuar a título de experiências, por favor eu não me importo se fora-da-multidão, eu só preciso de uma plateia, uma gangue, uma razão para sorrir. Eu não o sufocarei, ah merda, merda, por favor há alguém aí? Alguém, qualquer um, Deus me ajude, ajude-me por favor. Eu quero ser aceito. Preciso ser aceito, usarei qualquer tipo de roupa que você quiser! Estou tão cansado de chorar e chorar, estou muito, muuuuuuuito só. Não há ninguém aí? Por favor, ajude-me. AJUDE-ME!"

Cobain descobriu a heroína cedo e começou a injetar antes de ter sua filha, Frances, em 1992. Em uma entrevista à Rolling Stone, ele fala sobre: "Tenho uma dor crônica incurável no estômago, e durante cinco anos quis me suicidar todos os dias. Estive a ponto de fazê-lo várias vezes. Chegou um ponto em que eu estava numa turnê, jogado no chão, vomitando ar porque não conseguia nem ingerir água. Saía para cantar e depois vomitava sangue. Isso não era vida, então decidi me automedicar". O seu medicamento era a droga, a heroína.


Chama a atenção essa doença no estômago, que nenhum médico conseguia encontrar um diagnóstico. Talvez, tenha sido consequência de sua infância, em agradar seus pais para, no fim, terminarem. Talvez, seja consequência da não-aceitação da sociedade para um menino quebrado que procurava uma salvação. A sua autodestruição tem motivos.



Mesmo casado e tendo uma filha linda, Kurt não suportou. Em sua carta de suicídio, Cobain confessou que não queria mais tocar, que não tinha entusiasmo pela música. Morreu sem entender que estava doente, com uma depressão nunca diagnosticada e tratada. Morreu com o peso nas costas de ser a voz da geração "perdida", aquela que os pais e a sociedade destroem os jovens lentamente. Infelizmente, foi assim que Cobain, um artista, para que muitas pessoas compreendessem o peso do passado e da depressão.


Se você está passando por um momento difícil, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV) através do número 188 - a instituição realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat. Disponível 24h todos os dias.

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