• Michele Costa

A revolução artística de Paula Gaitán

"Um prazer falar contigo, Michele. Vamos conversar!", Paula Gaitán me responde logo depois que me apresento. Conversamos por quase duas horas pelo telefone. Poderia dizer que foi uma entrevista, mas me lembrou uma sessão de terapia, com arte. De repente, me sinto perto dela, como se já tivéssemos nos encontrado.


Paula é cineasta, roteirista, produtora, escritora, poeta, artista multimídia. A beleza a move, construindo obras em que o telespectador se vê. Ela me lembra a essência do cineasta russo, Andrei Tarkovsky. Em "Esculpir o Tempo" (Martins Fontes, 2010), Tarkovsky explica o porquê de fazer cinema e o que o motiva a trabalhar com a sétima arte: "(...) No que me diz respeito, só admito um cinema que esteja o mais próximo possível da vida - ainda que, em certos momentos, sejamos incapazes de ver o quanto a vida é realmente bela”. Paula segue esse caminho, seu cinema é realista, poético, sensível e forte. Faço uma comparação de sua obra (pensando em "Diário de Sintra" (2007)) com o "Espelho" (1975). Ela ri levemente e gosta. Acho que já somos amigas.


Recentemente, foi homenageada na 24° Mostra de Cinema de Tiradentes. Por conta da pandemia, o evento foi online, fazendo com que muitas pessoas conheçam o cinema da diretora (jovens principalmente). Para quem não conhece seu processo, a obra pode causar impacto, talvez desconfortante, pois Paula trabalha com todas as linguagens artísticas. No entanto, cinema é isso: estimular sentimentos em quem assiste. Formada em artes plásticas, a diretora brinca com a arte, indo além das linguagens estipuladas pela sétima arte, entregando um cinema ideal, realístico.


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Você começou sua carreira em artes plásticas para, em seguida, começar a trabalhar com cinema. Como foi essa transição?

Muito obrigada pela pergunta, porque de fato é muito importante essa transição. Ela foi bem fluida, porque eu já comecei dentro das artes visuais a me interessar muito pela imagem em movimento. Primeiro foi com fotografia, pela imagem estática. Fiz alguns trabalhos com fotografia muito jovem e fiz fotogravura, porque dentro do campo das artes visuais a gente fazia todas as técnicas. Desde de escultura, que é relacionado ao cinema… Eu li "Esculpir do Tempo" do Tarkovsky e de fato você mede o cinema quando esculpe. O tempo tem a ver com essa ideia cinética da escultura que é pegar um bloco de granito, uma pedra, para tirar forma. Criando de um material bruto, uma forma. Enfim, fui caminhando para o cinema, muito pela primeira vez que eu trabalhei "Idade da Terra" (1980), do Glauber Rocha. Eu era muito jovem, tinha acabado de sair da Colômbia.

Quando a gente trabalha de fato em uma filmagem, em um momento que tá se filmando, ou criando as imagens, isso é uma lição, né, porque muita gente estuda o cinema em faculdade, textos teóricos, mas a prática é fundamental para saber como as coisas vão evoluir dentro da filmagem, como aquilo vai se constituindo. Então, digamos que tive muita sorte, porque eu já estava fazendo instalação, vídeo-arte, bem menina. Daí fui me encaminhando pro cinema já com um filme gigante que é "Cidade da Terra" e a partir disso eu fiquei apaixonada pelo cinema, porque seria uma maneira de juntar todas as artes.


Suas obras misturam diversas linguagens artísticas. Esse processo, de brincar, misturar tudo, foi normal?

Bom, acho que primeiro foi a imagem, foi a primeira coisa que veio junto foi a compreensão da imagem - como se dá o processo da imagem, o quadro… Quando você estuda artes visuais, você trabalha com composição, com cromatismo, com cor… Se você trabalha com óleo, você trabalha com a pincelada, você trabalha a textura e finalmente, cinema é tudo isso. Cinema é textura, composição, entender como você compõe o quadro; e o cinema tem uma linguagem, uma gramática, no fundo, muito simples. Você tem diversas possibilidades de planos. Você tem as lentes, os movimentos da câmera, você tem a possibilidade de fazer câmera na mão, câmera no tripé… Toda essa linguagem, todo esse alfabeto, essas ferramentas, elas são muito simples; o que é difícil é como você vai articulando e combinando essas diversas coisas - como o alfabeto, formando palavras. É como na música: você tem as notas da música e escreve uma partitura. O cinema se assemelha muito à construção de uma partitura em que você tá pensando diversas variantes.

O cinema também é uma linguagem espaço temporal, de tal maneira que isso vai naturalmente. O primeiro, obviamente, vem com a imagem, como criar a partir de elementos simples. O cinema veio com a imagem, depois surge o som.

O som começou a entrar no meu trabalho de uma maneira muito impactante a partir do meu primeiro longa "Uaka" (1989), onde foi que me interessei muito na edição do som. Naquela época, tudo se fazia na moviola - imagina o que é cortar som na moviola! São vários rolos, uma loucura! É importante pensar que naquela época tínhamos que ter um conceito sonoro, porque você tinha que especializar. Tudo isso foi acontecendo lentamente. Por que? Porque, na medida que você vai apresentando as dificuldades, você vai criando as possibilidade de resolvê-las. E diante das dificuldades, você vai aprendendo, vai estudando. Diante de todos esses ensinamentos, e acho que na minha idade tô aprendendo muita coisa, você vai entendendo que essa matéria prima é um material bruto que você pode articular de várias maneiras. Aí vem a parte complicada: como criar uma linguagem quando você tem n possibilidades?! Tem gente que usa a ferramenta do roteiro, escreve o roteiro, vai para ilha da edição fazer storyboard. Já o meu trabalho é justamente o contrário: ele parte de uma relação, em primeiro lugar, com as imagens e depois vem o resto. Por exemplo, as locações são tão importantes quanto os atores. Quando um diretor escolhe uma locação que esteja de acordo ao roteiro e que obedeça o espaço que ilustra aquilo que ele escreveu anteriormente. Então, comigo é o contrário, existe o roteiro, talvez sempre exista o roteiro em meus projetos, mas o roteiro é apenas uma base. Quando vou para locação e vejo que um espaço me interessa, aí crio uma sequência específica para essa locação. Isso faz com que as opções pelas quais me decido, sejam muito ditadas justamente por isso. No fundo, estou mais ligada ao real, porque a ficção pressupõe que você reinventa os espaços, enquanto eu parto muito mais de elementos verdadeiros, mesmo que depois pareça fantasmagórico ou poético [risos]. As pessoas veem meu trabalho e falam "seu trabalho é tão poético", mas eu não acho nada poético.


Jura?

Eu acho que é ao contrário. Poético no sentido que as pessoas interpretam o poético como vindo de uma coisa sublime, elevada, de uma inspiração divina, entendeu? O poético, eu acho, que vem do real. Você olha as ruas, sai e agora olha da janela a rua, você vai encontrar no real essa poética do cotidiano. Meu trabalho se inspira no mundo como é, ele é terreno, não é inventado. Não existe uma falsificação.

O que faz o cinema naturalista? Ele cria a impressão da realidade a partir de coisas construídas. Eu nunca trabalhei em estúdio, sempre trabalhei com o mundo que ele é, a natureza como ela é. O meu cinema é muito de externas, para construir, digamos assim, inventar um novo mundo a partir de elementos que são reais.


O que me chamou atenção na sua fala de agora, nessa conversa, e também na Mostra foi sua comparação com o escultor, ou seja, você não tem um processo de criação. É através do olhar que você imagina sua obra.

Isso. Eu acho que a nossa imaginação é o nosso principal ponto. Você tá trabalhando com esse real, você olha pela janela agora, nesse momento de pandemia, e você olha para aquilo que parece comum e encontrar naquilo que parece comum, do cotidiano, que você já nem observa mais, porque vê todos os dias… A pessoa perde essa noção. Tudo é fantástico! Você tem que aprender, reaprender, cotidianamente, a ver a vida como ela. Ver a pulsão da vida! Isso faz com que tudo seja extraordinário!

A maneira como a gente se conecta com o real, que é igual para todos, dependendo da sensibilidade, é uma maneira de se ligar à vida e de entender que aquilo que parece solidão, não é solidão - você está conectado com seres que estão por aí, em tudo. Não é sobre espiritismo, é sobre o nível da arte. Por isso, trabalhar nas aldeias indígenas é tão importante, porque você entende que tudo tem um sentido. Acho que é uma percepção mais ligada a encontrar esse significado da vida no que tá do seu lado, você não precisa percorrer grandes caminhos, atravessar fronteiras porque as respostas estão muito perto.

Eu acho que é uma coisa que eu tenho entendido muito bem nesse momento de pandemia que é de extrema solidão. Acho que a gente também cria… Claro, em extrema solidão e dificuldade, acho que a gente tem que se conectar com essa potência que a gente tem de dentro. Se conectar com a vida e não com a morte, porque a morte já tá aí… O artista tem a capacidade de sentir isso que não dá para explicar - ou você sente isso, se conecta com isso e transforma isso em um filme, em uma obra… O importante é ver como você constrói isso.


Este ano, na 24° Mostra de Cinema de Tiradentes, conhecemos seu último trabalho, "Ostinado" que acompanha o processo de criação do artista Arrigo Barnabé. Arrigo é referência na música paulistana, com ênfase na vanguarda paulista que o transformou em um poeta sem tom na MPB.


Neste documentário, acompanhamos um dia da vida do músico. Lembra "Ulysses" de James Joyce: o protagonista vivendo, dizendo, se expressando e tentando compreender a multidão e suas dúvidas. Arrigo diz que está sempre em processo. Não só ele, nós também. O ápice do filme é quando o cantor debate com a diretora sobre a palavra “escatologia”. Arrigo demora para rebater Paula. Ele para, pensa, se distrai, toca, fica quieto - e é nesse momento em que descobrimos (ou não, talvez) a verdadeira face de Arrigo que foi desarmado pela amiga. "Você ainda acha que a música ainda tem potência?", questiona o músico. Nenhuma resposta é concreta, afinal, estamos todos em processo de criação.



"Ostinado" é um filme sobre o processo de criação do Arrigo. O que te levou a fazer um filme sobre o processo do artista?

O Arrigo é um músico que todos nós admiramos. A minha geração é muito ligada ao Arrigo. Me lembro quando ele fez o "Clara Crocodilo" (1980) e nossa… Que loucura! [suspira] Aquilo era fantástico! Ele é um artista, um compositor, um inventor muito importante.

Eu fiz um filme há cinco anos atrás chamado "Noite" (2014) em que gravei muitos shows no Rio de Janeiro. Eu saía caminhando e ia para os lugares de música eletrônica, jazz, música experimental e gravava os shows. Um desses shows foi do Arrigo, justamente tocando "Clara" com uma nova formação, com um grupo de cantores jovens, depois de vinte anos [do lançamento]. Aí quando eu fui fazer "Luz Nos Trópicos" (2020), eu estava procurando o elenco, pensando, porque é um filme que se passa em vários tempos históricos e tem uma parte que se passa no século XIX e eu pensei no Arrigo!

Ele é uma figura muito bonita, muito interessante e o personagem era músico. Então eu fui em um show, depois em outro e o convidei para atuar. Bom, durante a filmagem do filme, a gente conviveu durante um mês e meio em Mato Grosso e em todas as locações - quando a gente passa muito tempo em uma filmagem, nos aproximamos das pessoas. Então, comecei a conversar com o Arrigo sobre cinema, arte, composição… Quando ele acordava de manhã, toda a equipe acordava muito cedo, ele chegava com composições que tinha se inspirado [nas externas do filme, no meio da natureza]. Criamos uma amizade! Então, um dia eu falei: "Arrigo, eu gostaria de fazer um documentário contigo, mas não um documentário tradicional, um recorte".

Quando me convidaram para a homenagem da Mostra, eu tinha que oferecer filmes para abrir o festival e eu tinha feito esse pequeno ensaio de muito respeito ao Arrigo. Acho um projeto muito bonito.


O que também me chamou atenção no filme, foi ver que você aparecendo, quer dizer, apenas sua voz, para começar a falar com o Arrigo. Vocês debatem a palavra escatologia…

Escatologia é o fim do mundo de acordo com a filosofia. Ficou um pouco abstrato porque a gente tava falando de poesia, a gente tava falando de arte, de vários conceitos na arte contemporânea e aí rompemos, começa um debate amistoso. Ele tava rindo de mim! Eu sou assim, sou muito apaixonada, brinco… Eu achei bonito isso. Quando o Francis Vogner e a Lila Foster [curadores da 24° Mostra de Cinema em Tiradentes] me convidaram, esse documentário não estava pronto ainda. Eles me explicaram que o tema [do festival] era sobre os processos de criação e eles queriam um filme sobre isso, de como é o processo. Nesse momento, nós dois estávamos refletindo, cada um tentando entender… E eu achei interessante abrir uma reflexão até jocosa, né. Nunca é para eu dizer que estou com a verdade, pelo contrário, eu quero revelar como seria uma discussão informal entre duas pessoas que se conhecem. Achei interessante porque tem a ideia do improviso - tem um plano que a câmera se desloca junto com ele improvisando e a partir disso o filme se torna improviso.

Será que estamos no fim do mundo ou novo mundo? Depende da visão de cada um. Eu sou mais otimista, eu acho que a gente tá em um momento em que novas forças… Eu não tenho esse pensamento pessimista, eu tenho justamente um pensamento de "eterno caminhar, voltar, refazer o caminho e voltar". Procurar essa potência na gente. Eu não tenho essa visão catastrófica, talvez porque eu senti ou pelo o que o Arrigo falou, que tem uma visão mais apocalíptica. Vamos dizer que a visão dele é apocalíptica.


Quando vocês estavam gravando, vocês chegaram em um ponto no debate. Agora, depois de editado e compartilhado, o sentido da escatologia mudou para você?

Como eu te falei, eu nunca tive essa questão do fim do mundo. Pra mim, revolução, a palavra, tem a ver com a vida. Revolução pra mim é a transformação. O mundo tá em permanente transe, revolução e não é só politicamente - uma coisa precisa morrer para outra acontecer, o próprio ciclo da vida.

Eu fiz o clipe da Elza Soares, "A Mulher do Fim do Mundo" (2017) e no título parece essa ideia apocalíptica. O Arrigo estava certo de alguma maneira. Eu fiz o papel antagônico, porque eu vejo uma luz no fim do túnel. Foi só uma conversa.


Para instigá-lo, né? Para ir mais a fundo…

Sim! Eu achei bonito porque a câmera estava sobre o rosto dele e ele estava me ouvindo. Achei esse plano incrível. Parece que tudo, tudo, que estava passando na imaginação dele foi visto - eu deixei isso visível. Cinema é um jogo, você vai adicionando ou retirando coisas para deixar certo.


Eu senti o Arrigo muito cru, mostrando a nudez dele tanto psicologicamente e fisicamente em suas reações.

Eu acho bonito isso, porque era uma conversa entre amigos e foi revelado ao público. Cada um pode compreender como quiser e essa parte já me foge das minhas mãos.


"Quando eu era pequena, tinha caído em um poço. Quando eu era pequena, eu estava correndo por uma fazenda, em um campo, em um gramado. Minha mãe estava comigo e tinha umas crianças correndo e eu entre elas. Corríamos, corríamos, corríamos, corríamos e tinha um poço antigo - e eu caí dentro do poço! Quando o grupo de crianças passou correndo, minha mãe não me viu e depois de um tempo, descobriram que eu estava no poço."

Paula, eu tenho a impressão de que nos seus filmes você tenta compreender o que é o ser humano. Queria saber se você já descobriu o que é o ser humano e se essas transformações que você passou, alterou, de alguma forma, seu ponto de vista.

Eu acho que existem dois tipos de memória: a memória que nós temos e a memória com H maiúsculo de história que todos nós carregamos de nossas ancestralidades, cada um tem suas referências. Benjamin diz isso, que a gente carrega essa memória no corpo, então, eu acho que todo mundo tem a capacidade de ter esse lado racional e eu acho que a gente tem que deixar esses fluxos de consciência estejam presentes, que a gente possa deixar a imaginação, a intuição e a sensibilidade estejam presentes nesse cotidiano. Ah, e encontrar o mistério em tudo! Acho que todos os seres humanos são potencialmente artistas, isso é uma coisa que eu tenho entendido muito bem nesses processos, nos filmes, trabalhando com atores naturais, pessoas do local.

Em "Luz Nos Trópicos", pessoas da região tornaram-se atores do filme e eu vi… Tentei entender essa relação que eles tem com a natureza, como eles percebem em todas as nuances dos rios, do céu, quando vai chover, quando vai fazer sol… Essa percepção tão aguda, os sentidos todos… É uma coisa que a gente perde muitas vezes porque a gente vai se alienando das coisas importantes.


Paula está isolada, em seu cantinho. Ela continua acompanhando a realidade, nesse momento, pela janela. "A vida é bonita" ela me diz em um momento e eu me emociono. É bonita, Paula e difícil, mas bonita. E é com esse olhar, real, amoroso, ingênuo e apaixonado que seu cinema conquista o telespectador. Seus trabalhos estão impregnados de sentimentos, de sua alma.


Eryk Rocha, seu filho, também diretor de cinema, conseguiu explicar muito bem o cinema da cineasta durante o debate da Mostra: "Paula nunca repete a mesma fórmula. É como se cada filme fosse o primeiro". Ele está certo - e é por isso que me emociono quando vejo seus novos projetos.


Acabamos a entrevista e nos despedimos. Agradeço pelo tempo, pela conversa, pela terapia, por estar criando. Ela ri e me pede para me cuidar (no meio da conversa acabei dizendo que sou asmática, grupo de risco). Me manda um abraço apertado e pede para não desistir. A frase "A vida é bonita" ecoa na minha cabeça. Prometo. Marcamos um café para o futuro, pós-vacina. Desligo o telefone, acho que fiz uma nova amizade.

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