• Michele Costa

Priscilla Rozenbaum e Renata Paschoal: os amores de Domingos Oliveira

A tela fica vermelha, uma música, mistura de tango com faroeste, começa a tocar. Algumas frases, em branco, surgem. "Os 8 Magníficos", último filme inédito de Domingo Oliveira, começa. "Eles eram oito. Famosíssimos, interessantíssimos e dispostíssimos a passar o dia juntos conversando sobre sua arte. Assim foi feito, na sala da casa de um deles, que dava para um mar imenso. Este documentário foi feito exclusivamente para quem gosta de atores e se interessa pelo seu processo interno".


O filme é composto por um time de peso: Alexandre Nero, Carolina Dieckmann, Eduardo Moscovis, Fernanda Torres, Mateus Solano, Maria Ribeiro, Sophie Charlotte e Wagner Moura. Os oito magníficos, definição do diretor, se reúnem para discutir vida, alma e o papel do ator - três elementos que estão ligados. Sentados, de pé, comendo ou bebendo, os atores conversam, expondo-se ao telespectador, mostrando seu lado mais frágil e raivoso. Maria se emociona ao ler uma poesia e Nero se sente ameaçado por mostrar o seu cru.


Priscilla Rozenbaum e Renata Paschoal, dois amores de Domingos, participaram da obra, porém, por trás das câmeras. Priscilla, companheira e musa do diretor, seguiu com Assistência de Direção, ao lado de Matheus Souza. Já Renata, continuou como escudeira de Domingos, como Produtora Associada. A parceria da dupla com Domingos começou há muito tempo, ambas foram personagens de projetos de Oliveira. Inclusive, foi através do sexo feminino, interpretado por elas, que conhecemos a paixão de Domingos pela vida, boemia e a paixão.


Domingos Oliveira se foi, como um sopro, em 2019. Como um bom artista, criou até seus últimos dias, deixando algumas obras que Priscilla e Renata devem lançar (e já lançaram algumas!) em um futuro breve. A arte do diretor, escritor, roteirista e poeta continuará ecoando por muito tempo.


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De acordo com o dicionário, magnífico significa "aquilo que possui magnificência; que demonstra esplendor; que se expressa de modo grandioso; suntuoso ou rico". Depois de definir o elenco de "Os 8 Magníficos", Domingos disse que os atores que estão no documentário são os melhores da geração. Para vocês, que viveram e trabalharam com Domingos por muito tempo, quais eram as características que ele mais gostava nos oito atores?

Suas personalidades e inteligência.


Domingos era apaixonado pela vida e foi na arte que encontrou um modo para expressar essa paixão. Seu último trabalho procura entender o significado do ator, foi filmado com apenas duas câmeras e em um dia - diferente de seus outros trabalhos. Como foi participar desse processo? Foi algo diferente do que vocês já fizeram? Qual o impacto que essa obra teve em vocês?

Foi tão rápido! Apenas um dia de filmagem e um mês de montagem. Trabalhar era o que deixava Domingos mais feliz e vivo. Acho que não… já estávamos acostumados a trabalhar com amigos, não era trabalho, era diversão. Pena que ele não viu esta estreia. Sentimos muito em lançar o filme sem a presença dele e foi o último. Domingos era um apaixonado pela vida, por pessoas, atores, artistas. Ele estaria feliz!


Os atores falam sobre sua arte, debatendo diversas questões, não chegando em uma resposta concreta. Chama atenção a fala de Mateus Solano, que prefere um diretor por perto, como se fosse um pai para guiar. Não ouvimos uma definição de Domingos sobre arte. Sendo assim, pergunto: vocês que trabalharam com Domingos, como enxergam o amor dele pela arte?

Nasceu artista! Era um gênio apaixonado pelo que fazia. Domingos viveu a vida toda com arte e poesia, transformou sua vida, seus amores, sua dor, tudo em obra de arte. Estar perto do Domingos era uma alegria. Domingos era um melhorador de vidas.


No decorrer da análise e questões, Alexandre Nero se despede do grupo e vai embora. No fim, sua voz aparece através de um áudio. Por que o experimento incomodou tanto ele? Alias, por que o novo, o diferente, incomoda as pessoas (atores e públicos)?

Melhor perguntar para ele [risos]. Quem sabe um dia deciframos a alma, aceitamos e viveremos melhor com tantas diferenças e opiniões. Domingos sempre acreditou no ser humano! Ele sempre dizia que o mundo melhora, não piora.



Inclusive, no decorrer do diálogo, os autores fazem algumas leituras, misturando realidade com ficção. Até que ponto o telespectador pode confiar nessas pessoas e no diretor?

[risos] A dúvida e questionamento são bem vindos. Que cada um reflita sobre isso - o que é realidade e o que é ficção.


Domingos fez de tudo um pouco na vida, até chegar no documentário, com "Os 8 Magníficos". Foi estranho ouvir essa ideia, em desejar montar algo novo?

Difícil falar por ele. Talvez não tivesse programado fazer um documentário, apenas aconteceu. Ele sabia transformar em arte qualquer encontro, até um chopp com amigo num bar, um mergulho no mar, uma festa de criança, tudo ele transformava em poesia.


Para finalizar, quais os planos para o futuro? O que podemos esperar de vocês para a arte?

Desejo continuar produzindo e cuidando do legado que ele deixou. Tem muita coisa inédita ainda! Meu sonho era [criar] um Centro Cultural Domingos Oliveira, com cursos de teatro, cinema de baixo orçamento, roteiros, mostras de cinema, palestras, etc. Ele deixou tanta obra, textos, pensamentos, livros, poesias… Eu teria que viver mais quinhentos anos para colocar todas as obras e projetos dele em dia.


Editado a lá Godard, exagerado na liberdade, "Os 8 Magníficos" está disponível no Globo Play, assim como a série "Todas as Mulheres do Mundo", estrelada por Emílio Dantas, Sophie Charlotte e Martha Nowill.

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