Animal Invisível ocupa o mundo após nascer no silêncio
- Michele Costa

- 22 de abr.
- 6 min de leitura
Criado em meio ao isolamento social, Animal Invisível se manifesta ao mundo em um álbum homônimo e autoral. O projeto de Guri Assis Brasil - apresentado em 2025, com o lançamento do single "Didi" -, faz referência a algo que não se vê, mas que está sempre presente, como o vírus que atravessou o mundo durante a pandemia de covid-19. A ideia parte dessa atmosfera de ameaça silenciosa, quase imperceptível, que se infiltra no cotidiano. No entanto, ao contrário da carga de medo associada àquele período, a música de Animal Invisível segue na direção oposta: as composições exploram movimento, ritmo e energia coletiva.
Entre nove composições que transitam entre jazz, funk, soul, samba, psicodelia e rock, Animal Invisível (NuBlu Records, 2026) reúne influências acumuladas ao longo da trajetória do artista como guitarrista, compositor e produtor. A partir de sua guitarra - instrumento central do disco -, o músico cria uma paisagem sonora que se expande em diferentes camadas, revelando um trabalho atento aos detalhes.
"Que Delícia é Viver" abre o disco e se destaca pela sonoridade solar e dançante, guiada por arranjos que evocam o frescor da música brasileira setentista. Já "Animal Invisível" condensa a proposta ao explorar a presença do que não pode ser visto, apostando em atmosferas que traduzem a ideia de permanência difusa. Mas é em "Casablanca" que o trabalho alcança o ápice ao equilibrar com precisão referências da música árabe ao rock, criando uma atmosfera experimental.
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Animal Invisível nasceu em meio à pandemia. Como é, hoje, revisitar aquele período e lançar o trabalho em uma realidade tão diferente?
Acho que a pandemia trouxe marcas que são difíceis de apagar. Acredito que não teve uma pessoa que saiu ileso a ela. Seja por ter contraído o vírus, por ter perdido alguém próximo ou por problemas psicológicos. Acho que ter feito esse disco foi uma maneira de tirar o foco dessa angústia e pensamentos ruins que nos acometiam diariamente. E hoje eu vejo como algo que trouxe de positivo desse período que todo mundo quer esquecer. Às vezes é preciso ter força para sair das dificuldades e voltar mais forte.
Embora tenha sido concebido em um momento de isolamento, o disco transborda vida e movimento. Como foi o processo de transformar aquele contexto em uma obra tão pulsante musicalmente?
Eu comecei a compor esse disco depois que comecei a produzir uma cantora, de origem palestina, que se chama Maj. Ela que me trouxe de volta para a produção. O disco dela, por todas as questões que envolvem a Palestina, era um disco muito denso, mas em algum momento a gente quis trazer algo mais solar. Nesse exercício de buscar groove eu achei coisas interessantes que poderiam formar parte de um disco instrumental meu, que tinha a minha assinatura como produtor. E acredito que trazer essa vida e esse movimento me fez muito bem para passar por esse período trevoso.
O seu processo de criação mudou durante a pandemia?
O processo de criação não mudou muito. Eu sempre parto de uma ideia de melodia ou uma ideia rítmica e gravo ela em um celular para não esquecer. A partir daí eu começo a pensar em todo o resto. O que mudou foi a forma de gravar. Acho que cada músico teve que aprender a tirar o seu som em casa, afinal não tínhamos palcos para tocar. Assim eu não conseguia encontrar ninguém e debater isso pessoalmente, testando possibilidades. E isso acabou sendo muito interessante, porque trazia também a ideia dos outros músicos que, obviamente, eram muito distintas das minhas.
A guitarra aparece como eixo central, mas há uma grande riqueza de camadas. Como você pensou os arranjos para manter esse equilíbrio entre protagonismo e coletivo?
Eu lembro que quando começamos a flexibilizar o isolamento eu convidei o Pupillo para vir aqui na minha casa para mostrar o disco. Ele escutou algumas faixas e disse que o que mais tinha chamado a atenção dele era que eu era guitarrista, mas o disco não soava como um disco de guitarrista. Isso foi totalmente proposital. Eu queria mostrar o meu lado de arranjador. Seja com quarteto de cordas, seja com naipe de sopros ou tocando outros instrumentos.

O álbum transita entre jazz, funk, soul, samba e psicodelia. Como você organizou tantas referências sem perder a identidade do projeto?
O disco traz referências que eu acumulei na minha carreira inteira. Eu sou extremamente versátil. Do mesmo jeito que amo ir na Sala São Paulo ver a sinfônica eu amo ir numa roda de samba, numa aparelhagem no Pará, ver um cara tocar piseiro num tecladinho e som duvidoso no centro de São Paulo, escutar um show barulhento. Eu gosto de música e não de estilos. Mas acredito que as timbrares, principalmente de baterias, e os arranjos de sopros são o que amarram esse disco.
"Dendê" traz referências de Marcos Valle a Arthur Verocai. Como esses nomes influenciaram a construção da faixa?
São artistas que eu admiro muito. Ela tem muito de Tom Jobim também. Talvez eu tenha escutado muito mais Tom Jobim do que esses dois artistas que você citou. Era uma música que nem eu sabia que conseguiria fazer. Ela é bem complexa harmonicamente. E eu, como meus amigos sabem, sou autodidata. Sei pouquíssimo de teoria, toco de ouvido desde criança.
"Que Delícia é Viver" evoca uma atmosfera solar, bem anos 1970. Quais imagens e/ou sensações guiaram e evocam na música? Aliás, viver é uma delícia? O sentido de viver mudou após viver uma pandemia?
Essa frase surgiu em uma mesa de bar, coincidentemente, bem no fim da pandemia. Estávamos tomando uma cerveja no fim da noite e por um momento a mesa ficou em silêncio e eu falei "Que delícia é viver". Todos riram. Depois a frase virou um jargão entre os meus amigos. E um dia quando falei ela para o Rodrigo Campos e ele complementou: "Mas todo o dia é foda" e eu acredito nisso. Viver é bom demais, mas são altos e baixos. A gente precisa passar pela dor, pela tristeza para saber dar valor aos momentos felizes.
O álbum reúne diferentes músicos. Como foi feita a escolha das colaborações?
Além de serem grandes músicos, são grandes amigos. Eu acredito que a música não é só feita por bons músicos, mas por boas relações. Eu preciso me sentir à vontade para tocar com alguém senão eu não dou o meu melhor. Eu acho surreal na música que você não precisa entender uma palavra que a outra pessoa diz para poder tocar com ela. É um diálogo sem palavras. Mas quando tu consegue juntar música com uma amizade é ainda mais prazeroso.
Este é o seu primeiro álbum autoral instrumental após uma trajetória extensa. O que mudou para você?
É a coisa mais maluca que eu já fiz e eu agradeço por ser um pouco maluco. Se já é difícil fazer uma pessoa parar para escutar uma música autoral sua, fazer uma pessoa parar para escutar uma música instrumental é 10x mais. Mas eu senti que era importante eu cravar essa estaca de instrumentista, mesmo que no futuro eu volte a escrever. Sempre quis ter um projeto assim, mas sinto que os caminhos, que já eram difíceis, são ainda mais tortuosos.
Existe a intenção de levar esse repertório para o palco?
Sim, só não sei ao certo como. Hahahaha. É um disco difícil de ser reproduzido fielmente porque precisa de muita gente. Eu fiz uma session, que está no YouTube, que seria o cenário ideal. São 9 músicos. Só que é impossível, nos dias de hoje, fazer essa logística. Então, coloquei na minha cabeça que quero fazer poucos e bons shows. Quero que as pessoas saiam do show com a sensação de que escutaram o que está gravado no disco, só que ainda mais visceral. Essas músicas vão ganhar ainda mais força no ao vivo. E convenhamos, isso a IA jamais vai conseguir reproduzir.
"Sempre quis ter um projeto assim, mas sinto que os caminhos, que já eram difíceis, são ainda mais tortuosos."
Em um cenário mais aberto, em que voltamos a viver e sonhar (com dificuldades, como é a vida), o artista reafirma sua natureza expansiva ao ocupar cada fresta possível. Assim como em "Um Lobo à Espreita de Alguém", faixa de encerramento do disco, Animal Invisível observa o mundo com atenção, à espera do instante certo para se revelar por completo ao outro e dar continuidade à sua forma mais potente de existir.




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