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Alles Club: O Disco do Luto

Foto do escritor: Michele Costa
Michele Costa
há 2 horas
3 min de leitura

Em Sobre a Morte e o Morrer (WMF Martins Fontes, 2017), a psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross apresenta um estudo sobre as diferentes reações emocionais diante da morte e desenvolve um modelo que identifica cinco estágios do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Embora não representem etapas obrigatórias ou necessariamente lineares, esses estados ajudam a compreender as contradições e os movimentos que atravessam a experiência da perda. É a partir dessa perspectiva que a Alles Club constrói O Disco do Luto (Midsummer Madness, 2026), terceiro álbum de estúdio do grupo mineiro liderado por Rodrigo Lopes. Com oito faixas instrumentais, o trabalho transforma o pensamento de Kübler-Ross em uma narrativa sonora que percorre diferentes manifestações da ausência, da ruptura e da possibilidade de recomeço.


Concebido ao longo de alguns anos, o disco nasce de experiências pessoais de Lopes, que também atua como psicólogo clínico. A proposta, no entanto, não se restringe à morte de alguém próximo. Términos afetivos, mudanças de identidade, deslocamentos e projetos de vida interrompidos também integram o universo de perdas que atravessa o álbum. Como resultado, O Disco do Luto compreende o luto como uma experiência mais ampla, que envolve não apenas aquilo que desaparece, mas também a necessidade de reorganizar a própria existência diante de novas circunstâncias.


A escolha de um repertório inteiramente instrumental acompanha essa intenção. Sem recorrer a letras para explicar os sentimentos que orientam cada composição, a Alles Club deixa que guitarras, sintetizadores, percussões e diferentes camadas sonoras conduzem a narrativa. A música funciona como uma linguagem capaz de expressar aquilo que nem sempre encontra tradução nas palavras. Entre momentos de contemplação, ruídos, repetições e mudanças bruscas de intensidade, o grupo constrói uma experiência que exige uma escuta atenta e permite diferentes formas de identificação.


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A abertura com “Vida Antes” estabelece um ponto de partida contemplativo, conduzido por uma pulsação de inspiração krautrock. A composição evoca a memória de uma existência anterior à ruptura, quando ainda não se conhece a dimensão daquilo que está prestes a mudar. Essa tranquilidade, entretanto, é interrompida por “Shock”, faixa que incorpora o registro de uma banda fúnebre captada durante um funeral em Berna, na Suíça. A presença dos instrumentos da cerimônia, em meio a uma construção mais ruidosa e desorientadora, traduz a dificuldade de assimilar uma perda que altera repentinamente a percepção da realidade.


Em “Ilhe-se (Denial)”, a narrativa encontra um momento de recolhimento. A participação de um quarteto de cordas formado por estudantes do Conservatório Estadual de Música Haidée França, em Juiz de Fora, sob regência de Matheus Vieira, acrescenta delicadeza à composição. Os arranjos criam uma atmosfera de suspensão, reforçando a sensação de isolamento sugerida pelo título. Na sequência, “Anger // Raiva” rompe essa contenção com uma construção mais intensa, que transforma a inquietação em movimento sonoro. A faixa representa um dos momentos de maior tensão do repertório, acompanhando a resistência diante de uma realidade difícil de aceitar.


O percurso ganha contornos mais densos em “Depression”, faixa de maior duração do álbum. Com participação da cantora estadunidense Jenna Fournier, do Kid Tigrrr, a composição introduz a voz em um repertório essencialmente instrumental e amplia a dimensão emocional da obra. Entre guitarras atmosféricas e camadas sonoras que se desenvolvem gradualmente, a música constrói uma sensação de suspensão, como se o tempo perdesse sua medida habitual. É um dos momentos mais introspectivos do disco, no qual a melancolia encontra espaço para se desenvolver sem precisar recorrer a grandes explosões ou soluções imediatas.


Em seguida, “Testing // Expanding” sugere uma mudança de perspectiva. A composição preserva certa melancolia, mas apresenta uma atmosfera progressivamente mais aberta, apontando para a possibilidade de reorganizar a própria existência depois da perda. O movimento não representa uma passagem repentina para a tranquilidade, mas uma abertura gradual para novas experiências. É como se, depois de atravessar diferentes camadas de tensão, a música começasse a encontrar espaço para respirar.


O Disco do Luto transita entre post-rock, shoegaze, ambient, música experimental e krautrock, reunindo referências que passam por Mogwai, Sigur Rós, Slowdive, Sonic Youth, Spiritualized, Tortoise, Neu!, The Cure e The Flaming Lips. A diversidade de influências se manifesta nas mudanças de intensidade, nas guitarras distorcidas e nas camadas de sintetizadores que dão profundidade às composições. Embora a proposta conceitual seja bastante evidente, o grupo consegue evitar que as músicas funcionem apenas como ilustrações dos estágios do luto. As construções instrumentais apresentam personalidade própria e criam ambientes que ultrapassam as indicações oferecidas pelos títulos.


Dessa maneira, o grupo entrega um trabalho sensível e consistente, que compreende o luto não apenas como encerramento, mas como parte dos movimentos de transformação da vida.



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