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Alejandro Zambra: Poeta Chileno

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • há 2 minutos
  • 4 min de leitura

Em carta para Vicente, Gonzalo, protagonista de Poeta Chileno (Companhia das Letras, 2021), escrito por Alejandro Zambra, escreveu: "Construímos poemas que nunca ninguém entenderá, nem nós mesmos, porém os lemos em voz alta mil vezes e experimentamos mil vezes o mesmo imenso prazer." A frase, que pode soar intimidadora ou sem sentido para um adolescente, traz pistas sobre o romance. Ela fala sobre poesia, mas também sobre família, memória e amor - temas que o autor entrelaça ao longo das páginas com a leveza de quem parece conversar com o leitor.


À primeira vista, Poeta Chileno parece contar uma história simples, no entanto, com o passar das páginas, vemos que é muito mais. A trama acompanha Gonzalo, um aspirante a poeta, que, após perder o amor de Carla, sua primeira namorada, abraça o gênero literário. Sete anos depois a reencontra em uma boate. Nesse período de distanciamento, Carla casou-se, separou-se e teve Vicente, seu filho. Novamente juntos, Gonzalo constrói uma relação profunda com o menino até que esse vínculo, mais tarde, se transforma com a poesia como instrumento de mediação. 


O protagonista pensou poucas vezes na paternidade, porém, ao tornar-se padrasto gostou desta vivência. Inclusive, em alguns momentos, desejava ter participado na vida de Vicente desde o início. Após pegarem o ritmo da nova família, ambos viraram amigos, cresceram e sonharam juntos. Quando o relacionamento do casal termina e Gonzalo precisa ir embora, a conexão criada entre os dois permaneceu como uma espécie de afeto sem nome, resistente ao tempo e às circunstâncias. Reduzir Poeta Chileno a uma narrativa sobre família seria ignorar sua riqueza. Alejandro Zambra usa essa trama como ponto de partida para explorar temas como pertencimento, identidade, criação artística e as múltiplas formas de amor. 


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(Créditos: Elisa von Randow)

Em determinado momento, um personagem afirma que o Chile é "bicampeão mundial de poesia". A frase, repetida com orgulho e ironia, resume bem o espírito do livro. Em um país marcado por nomes como Pablo Neruda, Nicanor Parra, Gabriela Mistral, Vicente Huidobro e tantos outros, a poesia deixa de ser apenas um gênero literário para se tornar quase uma identidade nacional. Zambra se diverte com essa ideia, mas também a leva a sério. O romance está repleto de poetas reais e fictícios, referências literárias, oficinas de escrita e discussões sobre o que significa escrever versos em um país que transformou seus poetas em figuras quase míticas.


Neste ambiente surge Pru, uma jornalista estadunidense que viaja ao país para escrever uma reportagem sobre a poesia chilena contemporânea. Como estrangeira, ela ocupa o mesmo lugar do leitor que não conhece profundamente essa tradição literária. Sua presença permite que Zambra apresenta diferentes gerações de poetas, suas vaidades, inseguranças, obsessões e definições contraditórias sobre a própria arte. Através de suas entrevistas, o livro deixa de apenas contar uma história e passa também a investigar o que é a poesia e por que ela continua importando.


"(...) Pensa que os poetas chilenos são cachorros vira-latas e que os cachorros vira-latas são poetas chilenos e que ela mesma é uma poeta chilena enfiando o focinho nas latas de lixo e uma cidade desconhecida - gosta de pensar em si mesma como uma poeta chilena, uma poeta chilena que não é poeta nem chilena, mas de algum modo sua peregrinação de jornalista em busca de oportunidades, o sonho sempre frustrado de publicar nas grandes revistas, ou ao menos de escrever uma reportagem notável e cabal, acabam por irmaná-la a esses homens e sobretudo a essas mulheres a vagar pelos becos do mito e do desejo. (...)"

Esse é talvez o aspecto mais fascinante de Poeta Chileno. Enquanto acompanhamos o amadurecimento (junto com os diferentes sentimentos) de Gonzalo e Vicente, aprendemos também sobre um universo literário inteiro. O autor transforma a narrativa em uma espécie de antologia disfarçada de romance. Sem jamais soar didático, ele apresenta autores, correntes poéticas e debates culturais, convidando o leitor a entrar nesse mundo sem exigir conhecimento prévio. A literatura funciona simultaneamente como tema e linguagem.


A escrita de Alejandro Zambra é bem feita, com ritmo e humor. Seus poetas podem ser geniais ou ridículos - muitas vezes as duas coisas ao mesmo tempo. O romance ri dos egos literários, das disputas por reconhecimento e das pequenas vaidades do meio cultural sem nunca cair no cinismo. Há uma ternura permanente em seu olhar, como se o autor soubesse que toda tentativa de escrever um poema já carrega algo de admirável e de absurdo.


" - Não sei, talvez queiram perder o medo. E é melhor que escrevam. É melhor escrever que não escrever. A poesia é subversiva porque te expõe, te rasga em pedaços. Você se atreve a desconfiar de si mesmo. Você se atreve a desobedecer. Essa é a ideia, desobedecer a todo mundo. Desobedecer a você mesmo, isso é o mais importante. É crucial. Eu não sei se gosto dos meus poemas, mas sei que se não os tivesse escrito seria mais idiota, mais tolo, mais individualista. Eu os publico porque estão vivos. Não sei se são bons, mas merecem viver."

Talvez por isso a obra seja tão difícil de definir. É um romance de formação, uma história sobre famílias possíveis, uma reflexão sobre paternidade, uma homenagem à poesia chilena e uma investigação sobre a criação. 


©2020 por desalinho.

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