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  • Foto do escritorMichele Costa

As reflexões do Rota de Pedestre

Dez anos atrás, Artur Wais, Mauricio Victorino e Bruno Fonini trocaram o lugar de pedestres para criarem um som próprio que os levassem para outros lugares. Dessa maneira, surgiu o Rota de Pedestres, uma banda que viaja por diversos gêneros musicais para retratar a realidade, assim como sensações e reflexões. 


A trajetória do Rota de Pedestres conta com dois eps - Tecendo por Dentro e Trancado por Dentro - e um álbum, lançado neste ano, intitulado Nós Nessa Cidade. Neles, é possível acompanhar as mudanças dos integrantes que no decorrer dos anos cresceram, sobreviveram ao isolamento social e, agora, querem desfrutar a vida nas cidades. 


Recentemente, a banda lançou o clipe de "Incenso", canção do primeiro álbum, que traz Bruno Bazzo no papel de um rapaz amaldiçoado pelos membros da banda em um sonho. Assim, a banda compartilha as dificuldades e angústias que ocorrem durante a juventude em uma cidade grande. 


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São dez anos de história. O que vocês aprenderam nestes anos e quais foram as principais mudanças que a banda passou? 

Artur: É muito louco, né. A gente para pra pensar e é um baita tempo, acho que tem vezes que parece menos. Mas tem vezes que parece que foi mais também. Foi tudo bastante divertido e conturbado até a gente conseguir gravar o primeiro álbum. A banda trocou de formação várias vezes, algumas com os mesmos membros indo e voltando. Fico feliz que a gente conseguiu concretizar o Nós Nessa Cidade. Não foi fácil, mas é um desses trabalhos que a gente vai olhar (ou ouvir) daqui há uns outros 10 anos e ainda sentir orgulho de ter feito.

Mauricio: Acho que o principal aprendizado foi que ao ir amadurecendo juntos, fomos aprendendo que tudo isso depende de nós e da nossa dedicação pra acontecer. Talvez as principais mudanças foram que as próprias mudanças sempre voltavam uma hora ou outra pra o que era antes. Um grupo de amigos reunidos pra fazer aquilo que gostam: passar um tempo juntos, e, se calhar, tocar uns instrumentos nesse meio tempo.


O nome da banda é curioso. Como ela surgiu? Existe uma história por trás?

Artur: Logo que a gente começou a banda não tínhamos pensado em um nome. Com a coisa de marcar ensaio em estúdios, o pessoal perguntava e em algum momento a gente se deu conta que precisava de um. Lembro que tivemos uma meia dúzia de ideias meia boca antes de Rota de Pedestre. O nome veio por causa de umas placas que tem espalhadas pela cidade de Porto Alegre. Na época, ali por 2013, tinham recém colocado elas e a gente achava que não iam durar muito - mas acabaram se expandindo pra toda a cidade [risos]. Tinha uma no caminho que a gente fazia pra um dos estúdios onde a gente ensaiava e aí alguém falou e todo mundo curtiu. Foi meio sem querer, mas acho que fez sentido com o que a gente tava buscando fazer de som e temática. Acho que Rota de Pedestre ficou sendo um bom nome pro projeto. 


Em 2014, vocês lançaram o ep Tecendo por Dentro. Sete anos depois, Trancado por Dentro foi lançado. Como foi sair do tecendo para chegar no trancado? Aliás, como foi fazer eps em diferentes momentos do país? 

Artur: O primeiro EP que a gente gravou foi um baita processo na época, ter vivido ele e tudo mais, mas acho que em termos de sonoridade a gente não conseguiu chegar tão perto do lugar que a gente queria. Foi sempre dureza conseguir fazer as coisas. O segundo EP e o álbum a gente só conseguiu fazer porque nesse meio tempo eu aprendi bastante sobre produção musical e gravação e acabamos fazendo muita coisa por nossa conta mesmo. Em 2014 a gente tinha bastante esperança de que era mais possível e viável fazer as coisas acontecerem e ver que de alguma maneira parecia ter um caminho a ser trilhado pra banda funcionar pra além de um hobby. Até a primeira metade dos anos 2010 sempre despontava pelo menos alguma banda da cena musical de Porto Alegre pro cenário nacional. Tinha alguma coisa de política pública que incentivava a gravação de álbuns também. A real é que de 2014 em diante foi tudo horrível pro artista independente, ainda mais pras bandas, que envolvem necessariamente mais de uma pessoa. De um lado o país e a nossa cidade foram destruindo as políticas públicas de apoio à cultura e de outro o Spotify monopolizou a distribuição da música. Tomara que as coisas melhorem pros próximos anos...

Mauricio: Pra mim, foi bem simples: o primeiro ep eram jovens se reunindo e compondo canções e ensaiando junto e vivendo vidas sociais juntos e as histórias viravam canções e as canções iam pros shows e a vida seguia esse piloto automático orgânico. Trancado por Dentro foi na quarentena. Foi o mundo dando uma freada brusca nesse piloto automático que a vida foi nos levando ao longo dos anos. Foi parar e ficar trancando em casa e nos pensamentos e aprender a rearranjar tudo aquilo que tínhamos. Em termos de banda, tínhamos esse ep e tinhamos os meios pra rearranjar tudo trancado em casa.


Passamos por alguns anos de isolamento social. O significado da música foi alterado ou transformado para vocês? 

Artur: Pra mim não sei se por causa do isolamento. Eu sinto que fazia uns anos que não sentia tanto prazer em parar pra ouvir música e esse ano esse prazer voltou bastante pra mim, pode ter a ver inconscientemente, mas acho que teve mais a ver com parar pra pensar um pouco sobre a viva e ficar menos obsessivo com comparações do que com o isolamento social.

Mauricio: Sim, assim como tudo teve o significado alterado, a música como uma das coisas que mais curto fazer, teve um significado alterado, onde comecei a, não necessariamente a valorizar mais, mas a saber priorizar ela.


Ainda falando sobre isolamento, vocês lançaram o single Não Se Desespere. É possível parar de se desesperar? 

Artur: Essa aí eu que escrevi, né, mantenho meu ponto, acho que se quiser se desesperar tá liberado [risos]. Não vai resolver nenhum problema, muito menos os sem solução, mas se o problema não tem solução não tem muito mais pra fazer. Abraça o desespero, curte a bad vibe. Uma hora as coisas se resolvem. De algum jeito tudo sempre se resolve.

Mauricio: Não só é possível, é extremamente necessário.


No ano passado chegou nas plataformas o álbum Nós Nessa Cidade que traz canções inéditas e que passeiam por diferentes temáticas e sonoridades. Como foi o processo de criação e o lançamento pós pandemia? 

Artur: A criação do Nós Nessa Cidade durou anos. Algumas músicas já estavam compostas quando a gente lançou o nosso primeiro ep, tinham sido feitas logo depois da gravação dele. Mas a gente foi filtrando várias coisas ao longo dos anos. De alguma maneira a gente tentou trazer nele essa evolução da nossa musicalidade ao longo dos anos. Não no sentido de uma linha evolutiva que chega em algum lugar, mas no sentido de apresentar um pouco das várias energias que a gente foi afim durante esses anos. Espero que a gente tenha conseguido e que isso bata legal em quem escuta o álbum. O lançamento teve uma repercussão super bacana, fizemos um show lotado no Teatro Bruno Kiefer aqui em Porto Alegre, que vai virar um CD ou DVD ao vivo em algum momento e recentemente fomos indicados ao Prêmio Açorianos de Música, um dos mais importantes aqui da cidade.

Mauricio: O processo durou anos e isso significa que o processo passou por tantas mudanças que no fim das contas o que se manteve foi o cerne: a música, os amigos. O lançamento foi uma cereja de bolo pós anos de isolamento: tocar para um teatro lotado foi incrível! No fim das contas a gente faz tudo isso pra chegar aos ouvidos e corações das outras pessoas, e acredito que fica a sensações de dever cumprido.



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