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Margaret Atwood: A Odisseia de Penélope

Foto do escritor: Michele Costa
Michele Costa
há 1 dia
5 min de leitura

Uma história sempre tem dois lados. Homero narra os desafios de Odisseu em Odisseia. Na obra, o protagonista passa vinte anos longe de casa, enfrentando monstros, deuses, tempestades e outros obstáculos até conseguir retornar a Ítaca, onde sua esposa, Penélope, e seu filho, Telêmaco, o esperam. Se, na Odisseia, Penélope é sobretudo aquela que espera, tece e mantém a casa enquanto o marido está longe, em A Odisseia de Penélope (Companhia das Letras, 2005), escrito por Margaret Atwood, ela ganha voz e conta o que aconteceu - e, ao fazê-lo, desmonta a versão heroica que chegou até nós.


Diferente da imagem idealizada construída na primeira obra, Atwood não está interessada em preservar a imagem de um casamento exemplar ou de um marido extraordinário. Ao contrário: sua narração é marcada pela sinceridade, pela ironia e pela mágoa, transformando o relato em uma espécie de acerto de contas. Odisseu aparece menos como o herói astuto e corajoso eternizado pela tradição e mais como um homem cheio de contradições, covardias e comportamentos questionáveis. 


Ao assumir a narrativa, a rainha de Ítaca se torna dona da própria história. Aliás, a invertida é a principal provocação de Margaret Atwood: não basta mudar quem conta os acontecimentos; é preciso observar como a mudança de perspectiva altera aquilo que entendemos como heroísmo.


É possível perceber, logo no início do texto, que Penélope não quer apenas corrigir os acontecimentos narrados por Homero. Ela questiona a maneira como as mulheres foram transformadas em figuras silenciosas dentro de histórias protagonizadas por homens. É uma resposta tardia, mas afiada, à literatura que a transformou em símbolo da fidelidade conjugal, da espera e da mulher que permanece enquanto o homem parte para viver suas aventuras.


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A Odisseia de Penélope se passa milênios depois do retorno de Odisseu. A protagonista vaga pelo Hades, o reino dos mortos, e é desse lugar que retorna ao passado para contar sua versão dos acontecimentos. Penélope já conhece o mito que foi construído sobre sua vida. Sabe como foi transformada em exemplo de esposa fiel e paciente. Sabe também que existe uma distância considerável entre a mulher que foi e aquela que a história decidiu preservar. É nessa brecha que Margaret Atwood atua. 


A famosa mortalha que Penélope tecia durante o dia e desfazia à noite, estratégia utilizada para adiar a escolha de um novo marido enquanto Odisseu permanecia desaparecido, ganha outro significado. Em vez de representar apenas a devoção de uma esposa que espera, o gesto pode ser entendido como uma forma de autodefesa. Cercada por pretendentes e submetida às regras de uma sociedade comandada pelos homens, Penélope encontra nas próprias mãos uma maneira de ganhar tempo. Tecendo e desfazendo, ela cria uma possibilidade de sobrevivência.


Durante os vinte anos de ausência de Odisseu, é ela quem permanece em Ítaca, criando Telêmaco e lidando com a desordem provocada pelos pretendentes. Enquanto o herói vive suas aventuras longe de casa, existe uma outra batalha acontecendo dentro dela - uma batalha menos celebrada pelas epopeias porque não envolve monstros, espadas ou deuses, mas exige igualmente inteligência. Nesse sentido, a escritora questiona: por que a história chama de heroísmo apenas aquilo que acontece longe de casa?


"(…) Muita coisa é sussurrada nas cavernas escuras, nos prados, e por vezes é duro saber se os sussurros vêm dos outros ou de dentro de nossa própria cabeça."

A pergunta se torna ainda mais interessante porque Penélope não é apresentada como uma mulher perfeita. Ela pode ser ciumenta, contraditória, ressentida e insegura. Gosta de Odisseu, mas também enxerga suas falhas. Sente inveja de Helena, preocupa-se com a própria aparência e não esconde pensamentos pouco nobres. A personagem não precisa ser moralmente impecável para conquistar protagonismo, pelo contrário: sua humanidade é parte de sua força.


odisseia de penélope
(Créditos: Reprodução/Divulgação)

O homem que na tradição aparece como símbolo de inteligência e astúcia é observado pela mulher que conhece suas estratégias de perto. A habilidade de contar histórias, mentir e manipular situações, tão celebrada quando praticada pelo herói, passa a adquirir outra dimensão. Odisseu continua sendo astuto, mas Atwood lembra que astúcia também pode ser uma maneira elegante de chamar a manipulação. 


A desmistificação, porém, não para nele. Helena também é observada pelo olhar de Penélope, e a própria relação entre as duas revela uma personagem que não é inteiramente confiável ou imparcial. Atwood não cria uma narrativa feminista baseada na ideia de que todas as mulheres são necessariamente solidárias umas às outras; Penélope tem seus preconceitos, ressentimentos e contradições. Isso torna sua voz mais interessante: ela não é uma porta-voz perfeita, mas uma mulher tentando compreender a própria vida.


Se Penélope já havia sido apagada pela versão heroica da história, as criadas ocupavam um lugar ainda mais distante. Na epopeia de Homero, elas são executadas após o retorno de Odisseu. Em A Odisseia de Penélope, Margaret Atwood recupera essas mulheres e transforma suas vozes em uma espécie de coro grego, recurso que aproxima a narrativa das próprias estruturas da tragédia clássica. Elas comentam os acontecimentos, interrompem a rainha e introduzem outras perspectivas no relato. 


As criadas não são apenas personagens secundárias que acompanham a rainha. Elas lembram que existem diferentes níveis de violência dentro daquele mundo e que a experiência de uma mulher depende também de sua posição social. Penélope é uma rainha; elas são escravas. A primeira possui alguma margem para negociar sua sobrevivência, as outras quase nenhuma.


Ao colocá-las lado a lado, Atwood amplia sua crítica. A questão deixa de ser apenas "qual é a verdadeira história de Penélope?" e passa a ser "quantas mulheres foram apagadas para que determinadas histórias pudessem ser contadas?" As criadas funcionam como um contraponto à própria rainha e impedem que sua versão seja tomada como definitiva.


"Até parece que os deuses não queriam meu sofrimento. Todos eles zombam de nós. Eu poderia muito bem ser um cão vadio, atacado com pedras, ou com a cauda em chamas, para diverti-los. Não é a carne e a gordura dos animais que eles gostam de saborear, e sim o nosso penar."

O humor e a ironia também são fundamentais nesse processo. A autora não trata o passado como algo intocável, isto é, ela brinca com o mito, desloca seus personagens e permite que o leitor enxergue o absurdo por trás de algumas das situações que foram naturalizadas pela tradição. O riso, muitas vezes, vem acompanhado de desconforto, afinal, aquilo que parece engraçado na narrativa também revela relações de poder, violência e desigualdade que continuam reconhecíveis no presente.


Ao recuperar sua voz, Margaret Atwood também devolve à personagem o direito de ser contraditória. Penélope pode amar Odisseu e desconfiar dele. Pode sentir ciúme e ainda assim enxergar suas próprias limitações. Pode ser estrategista e cometer erros. Pode desejar reconhecimento sem precisar ser transformada em uma santa. Ela deixa de ser símbolo para se tornar pessoa.



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