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Leffs canta os caminhos de um corpo em movimento

  • Foto do escritor: Michele Costa
    Michele Costa
  • 20 de jul.
  • 5 min de leitura

Originada do latim, a palavra atravessada pode remeter ao que cruza, corta ou desloca. A expressão também dá nome ao primeiro álbum de Leffs e sintetiza o estado de quem vive em constante transformação. Atravessada pelo desejo, pela memória, pelo afeto e pelas disputas políticas que marcam a existência de uma mulher travesti, a cantora, compositora e produtora paranaense transforma essas experiências em canções, construindo um percurso íntimo onde cada faixa parece registrar um novo estágio de autoconhecimento. O disco de estreia não busca apenas contar uma história pessoal; faz da própria vulnerabilidade um gesto de permanência e resistência.


Natural de Maringá (PR), Leffs já vinha construindo sua trajetória na cena independente a partir de composições interessadas nas relações entre gênero, poder e afetividade. Em Atravessada (2026), essas inquietações ganham contornos mais sofisticados, tanto na escrita quanto na produção musical. O resultado é um álbum que dialoga com a canção brasileira contemporânea sem abrir mão de uma delicada atmosfera pop, quase cinematográfica, em que arranjos orgânicos convivem com discretas camadas eletrônicas. É uma sonoridade que nunca sufoca a interpretação; pelo contrário, oferece espaço para que sua voz conduza o ouvinte por emoções que alternam calor, contemplação e confronto.


leffs atravessada
(Crédito: Isa Angioletto e Augusto Perego)

Produzido por Chá di Lirian, Nicholas Emmanuel Machado de Oliveira, Samuel Amaro e Mateus Rossato, Atravessada se consolida como um disco sobre movimento. Não apenas pelo deslocamento entre gêneros musicais, mas pelo trânsito permanente entre passado e presente, entre fragilidade e coragem, entre corpo e identidade. Leffs compreende que atravessar o mundo também significa deixar-se transformar por ele.


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Na faixa “Atravessada” você utiliza alguns símbolos - como o sol, por exemplo - para comunicar que foi atravessada. O que mais te atravessou para fazer esse álbum? 

O sol foi pra mim uma metáfora da vida. A vida me atravessou, de uns dois anos pra cá, com muitas mudanças tanto num âmbito pessoal quanto profissional, sinto que esse álbum é produto disso. Nesses anos vivi lutos, celebrações, conquistas, afetos de forma muito intensa. E de forma geral, sinto que a vida foi me ensinando a ter uma postura menos melancólica perante a tudo isso. O Atravessada vem num momento em que é necessário decantar tudo que vivi e bancar os caminhos que me trouxeram até aqui e me proponho a fazer isso de forma solar.


Você sente que Atravessada marca um novo momento em sua trajetória?

Definitivamente. O Atravessada me exigiu ao mesmo tempo que me proporcionou maior maturidade, tanto na composição, na sonoridade, na produção, quanto na vida. São 6 anos de carreira autoral, sinto que o ímpeto do começo vai se esvaindo e vou começando a lidar com aquilo que fica. O Atravessada, apesar de ser um começo, um álbum de estreia, é também um meio do caminho em que percebo a necessidade de sustentar aquilo que de fato me estrutura enquanto artista e deixar ir o que não me cabe. O Atravessada chega celebrando um momento de maturidade e leveza em minha trajetória. Um momento solar.


Suas músicas investigam/falam sobre gênero, desejo, poder e afetividade. Você chegou em alguma conclusão sobre esses temas ou segue refletindo e questionando?

Acredito que minha investigação seja menos sobre concluir algo e mais sobre propor novas possibilidades, novos mundos, novas fabulações. Num mundo em que travestis são tão desumanizadas, em que lutamos por respeito, existência, dignidade, minhas músicas imaginam um mundo em que desejo, poder, afetividade e gênero fluem num outro fluxo. Um mundo mais plural, mais diverso, mais travesti e que tanto em mensagem quanto em linguagem que colaboro para construir no imaginário coletivo em minhas músicas. Não num sentido de concluir, de propor um projeto de mundo fechado, mas de extrapolar a cisnorma e desvendar essas ficções que eles inventaram, propor novas.


leffs atravessada
(Foto: Isa Angioletto e Augusto Perego. Design: Sabrina Grecci)

Vulnerabilidade e sensibilidade estão presentes na narrativa do disco. É uma escolha estética ou uma necessidade? 

É uma escolha estética e uma necessidade. Penso que vulnerabilidade e sensibilidade são fatores fundamentais pra conexão a partir das músicas. Enxergo a música como uma forma de comunicação extremamente profunda e direta. Compor e cantar são minhas ferramentas pra me estabelecer e criar redes com as pessoas à minha volta, por isso há uma necessidade pessoal de extrapolar parte das minhas elaborações nas músicas e fico na torcida para que isso acesse as pessoas e sirva como ponto de partida pras elaborações delas. E existe também uma escolha estética de fabular um mundo mais sensível e a partir desta estética chegar até as pessoas com quem quero me conectar.


Você dedica “Antúrio” para sua avó. Como a memória das pessoas que amamos continua moldando quem nos tornamos? 

Dentro dos acontecimentos dos anos prévios à produção do Atravessada, perdi uma de minhas avós. Antúrio faz parte do meu luto. Foi uma forma de homenageá-la, mas também de reacender as memórias e a vida dela. Acredito que a memória é um material excelente para escrita, trabalhar a partir das lacunas da memória nos dá espaço pra criar, elaborar, viver de novo. A memória produz vida, vai continuamente nós moldando, transformando. Utilizo essas memórias de minhas avós como guia, como forma de viver conduzida pelas intuição destas mulheres que me trouxeram até aqui.


"O Atravessada vem num momento em que é necessário decantar tudo que vivi e bancar os caminhos que me trouxeram até aqui e me proponho a fazer isso de forma solar."

Mar, sol, calor e lua são alguns símbolos que você traz em Atravessada. O que eles significam para você? Como estes ícones apareceram na narrativa? 

A lua tem um mistério que me puxa tem tempo. A lua sempre volta pras minhas letras de uma forma ou de outra, sua energia subjetiva sempre permeia aquilo que coloco no mundo. No Atravessada eu ativamente queria me afastar um pouco da melancolia da Lua. Música é feitiço. E em meus trabalhos anteriores eu entoava feitiços muito melancólicos. Então fui atrás de símbolos que virassem feitiços mais propositivos, solares. Pra além dessa magia toda, sinto que a música brasileira como um todo, que é meu principal referencial, bebe muito destes elementos da natureza como figuras metafóricas, sinto que a brasilidade também se transmite nesses elementos, então eles sempre acabam permeando minhas narrativas.


“Teresa” é uma canção política que fala sobre sua existência. Já que não dá mais pra fugir (ainda bem!) para onde você quer ir? 

Pois é, “Teresa” tem muito dessa maturidade de bancar quem se é, não fugir. Mesmo num mundo que não nos imagina, imaginar-se diariamente e disso fazer existência. E tendo isso como ponto de partida que alçar voos mais longos. O Atravessada é o projeto com o qual eu quero circular pelo meu estado e por outras regiões do Brasil, levar isto tudo pra novos públicos, me conectar com mais gente. É pra lá que quero ir. Brasil aí vou eu!


Já que existem diversos atravessamentos no disco, te pergunto: existe alguma situação que você espera ser atravessada para seguir adiante?

Nesse momento, quero muito ser atravessada pelas reverberações do álbum pelo público. Já tenho começado a sentir isso em alguns eventos presenciais, mas sinto que a partir do lançamento novos atravessamentos virão. Quero presenciar em diferentes cidades e estados como as músicas vibram no público e sinto que a partir disso é que vou ter novos horizontes pra seguir.




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