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  • Foto do escritorMichele Costa

Impressões: Holograma

Assim que terminei de ler "Holograma" (Fósforo, 2023), no início de uma madrugada quente, respirei fundo e fechei os olhos. Percebi então que o meu peito estava afundando. Me perguntei se era mais uma crise de asma. Não. Conclui que o mal-estar foi decorrência da potência de Mariana Godoy.


A atriz e escritora acaba de lançar seu novo livro. A capa azul me fez relembrar o mar e suas ondas fortes, que tem o poder de afogar uma pessoa - como o primeiro livro de Mariana, "O Afogamento de Virginia Woolf" (Patuá, 2019). Assim, decido que a dor no peito foi causada pelas ondas da escritora, porque no final das contas, seguimos procurando uma maneira para seguir a linha (como mostra o poema "ritos de passagem").


Quando o choque termina, releio as marcações que fiz. "ato falho english version" me faz relembrar o poema "Daddy", de Sylvia Plath por conta de duas palavras: daddy e dead. "fortuna" me dá raiva, pois continuamos seguindo os passos de nossos pais. Me emociono em "moby dick". Mariana tem o dom de despertar diversos sentimentos em quem a ouve, a lê ou a assiste em um palco.


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Analiso a foto dela na orelha do livro: é diferente d'O Afogamento. Em pouco tempo, os traços de uma pessoa mudam. No entanto, o seu pai continua sendo o protagonista da obra. A partir da imagem de um holograma, ele ressurge, acompanhando suas memórias.


sempre que nos despedimos
minha avó diz
volta com os quatro
segundo ela
cada pessoa tem quatro protetores em volta do corpo
como um instrumento de navegação geográfica
são os protetores nas pontas
que nos mostram
não a ida
mas a volta
para casa
porque as avós se despedem querendo a volta
que é sempre para o mesmo lugar
da casa
da infância
onde permanecem
vivas as avós

O holograma reconta o passado diversas vezes. Os feixes de luz são substituídos pelas memórias, que dá voz ao luto, abordando a tristeza e o amor. A encenação é trágica, mas ao mesmo tempo bonita, mostrando que o passado realmente existiu.


Em "Holograma", o leitor atravessa as imagens que Marina conta. A travessia é dolorosa, pois é possível sentir o peso das palavras, assim como os demais sentimentos causados pelo o luto - uma ação recorrente na existência, mas nenhum humano está preparado. Perder uma pessoa é dizer adeus a um pedaço de você.


A fala da personagem Vision, da série "Wanda Vision" auxiliou na organização da obra - além de tornar-se epígrafe. "Mas o que é o luto, se não o amor que perdura?". Penso sobre a frase e concluo que essa ausência presente será eterna, ou seja, ela nunca será diminuída e nem preenchida.


eco

meu pai me chama na cozinha
deve estar querendo alguma coisa
que só eu sei onde está
o açúcar
o filtro de café
a droga da tampa do liquidificador
grito já vou
e lembro que o enterro dele
foi ontem

Os poemas de Mariana estão mudados, amadurecidos. As palavras são pesadas e sua história ecoa por muito tempo em minha cabeça. Se o holograma é uma das características da memória, o que podemos fazer com o luto? Em algum momento ele acaba? Se revisitamos o passado, estaríamos indo ao encontro dos fantasmas?


No decorrer da leitura, perguntas surgem sobre a escritora, sua família e sobrem quem está lendo, já que todos carregam diferentes tipos de luto. Em suma, "Holograma" vai além da elaboração do luto: ao escrever o livro, Mariana Godoy introduz o holograma ao leitor que relembra suas memórias e inicia novas.

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