• Michele Costa

Crítica: Narciso em Férias

Nunca é fácil assistir um documentário sobre a ditadura civil militar brasileira. Seja apenas o relato ou com outras imagens de apoio durante os anos de chumbo, o assunto é pesado demais para quem fala e quem está ouvindo. Ver, ouvir e sentir Caetano Veloso falando sobre sua prisão, realizada em 27 de dezembro de 1968, é doloroso.


Em "Narciso em Férias" (Renato Terra e Ricardo Calil), o cantor e compositor relembra os 54 dias que ficou preso, compartilhando as dores do passado. Inclusive, um passado que está sendo relembrado constantemente para que não seja repetido. Foi o próprio Caê que deu título ao documentário, já que seu livro “Verdade Tropical” contém um capítulo - com o mesmo nome do filme - que se refere às memórias do cárcere (como o escritor Graciliano Ramos).


Logo no início, Caetano diz que, um dia antes de sua prisão, cantou a música “Súplica” de Orlando Silva em sua casa. “Venha a mim, óh, música / Vem no ar / Ouve de onde estás a minha súplica / Que eu bem sei talvez não seja a única. É curioso pensar que essa música, de um jeito ou de outro, tornaria-se tão presente na vida dele, principalmente quando estava na solitária. Um músico sem seu instrumento não é nada. Como viver sem a arte, sem a vida que tinha?


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Em mais de uma hora e meia, assistimos Caetano sentado em uma cadeira preta contando sua história, suas memórias. Não existe nenhuma imagem de apoio, como é o caso de tantos outros documentários. É cru. Em alguns momentos, a voz de um homem surge fazendo perguntas. “Como foi sua prisão?” “Como você se sentiu quando descobriu a causa da prisão?. Esse questionador aparece poucas vezes, relembrando os inquéritos que o baiano passou.


“Tratavam a gente… Não é como se nós não fôssemos gente.. Isso sim, mas é como se eles não fossem gente”

Em um momento, Caetano se emociona. Seus olhos ficam vermelhos, lacrimejados, mas nenhuma lágrima cai. Ele diz que quer dar uma paradinha. Recuperar o fôlego, afinal, o Brasil passou por 21 anos de ditadura. Vizinho de cela de Gilberto Gil, o cantor perdeu 54 dias de sua vida, de sua liberdade, de sua música. Perder algo e não saber o motivo. Perder algo por não concordar com os atos dos militares e a aprovação do AI-5.


A parte que é impossível não se emocionar é a relação que fez com a música “Hey Jude” dos Beatles. Quando ouvia essa música, ele acreditava que seria solto, que voltaria a vida que foi retirado bruscamente. “Hey, Jude, don’t make it bad / Take a sad song and make it better / Remember to let her into your heart / Then you can start to make it better.



Ainda bem que Caetano não desistiu. É impossível imaginar um Brasil sem ele.

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