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Conheça: Monique Maion

Foto do escritor: Michele Costa
Michele Costa
há 4 horas
3 min de leitura

Radicada nos Estados Unidos desde 2014, a cantora e compositora brasileira Monique Maion transforma experiências de deslocamento, convivência e choque cultural em matéria para sua música. É desse lugar que nasce "Karen", novo single da artista, que recorre ao humor para confrontar uma figura que deixou de ser apenas um nome próprio e se tornou personagem reconhecida nas redes sociais e no debate político.


A chamada "Karen" passou a designar, sobretudo, mulheres brancas e geralmente associadas a classes mais privilegiadas que se colocam como autoridades sobre aquilo que consideram aceitável ou normal, interferindo publicamente na vida de outras pessoas. Na canção, Monique parte desse arquétipo para construir um retrato bem-humorado da prepotência e dos comportamentos discriminatórios que atravessam relações cotidianas. A estreia antecede um LP de inéditas, previsto para novembro.


A inspiração para a faixa também está em uma experiência concreta. “Tenho uma vizinha que reflete exatamente essa persona: ela tenta puxar meu tapete, dar facadas pelas costas e depois quer que eu sorria e lhe cumprimente”, conta a artista. O conflito, em vez de permanecer restrito à esfera pessoal, ganha outra forma quando passa pela composição. “Criar e liberar esse single é uma forma de fazer piada, de confrontar”, explica.


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(Créditos: Divulgação/Reprodução)

A música nasce, assim, como uma espécie de resposta à tentativa de vigilância e controle. “Não venha com joinha / não venha, queridinha / não venha com ‘Bom dia’ / Eu já tô de saída”, canta a artista, transformando o incômodo em deboche. Para Maion, a composição também funciona como uma maneira de processar aquilo que atravessa o corpo e a experiência de viver longe do país de origem. “Normalmente, componho liberando emoções presas no meu corpo. A música me ajuda a processar tudo e, eventualmente, transmutar”, afirma.


A experiência migratória amplia ainda mais o sentido da faixa. Ao comparar as realidades brasileira e norte-americana, Maion chama atenção para as diferentes formas como o racismo e a supremacia branca se manifestam em cada contexto. “Estamos testemunhando uma epidemia ideológica. No Brasil, o racismo é tipificado como crime e essas mulheres vão para cadeia. Aqui, nos Estados Unidos, é diferente: não existe uma lei que proteja as pessoas da supremacia branca”, diz.


Esse deslocamento também atravessa a própria percepção que a artista tem de si. “É muito louco pensar que sou considerada uma mulher branca no Brasil, mas aqui, nos Estados Unidos, nunca o serei. Sofro os preconceitos que qualquer imigrante sofre”, afirma. A contradição se transforma em matéria artística e aparece também na escolha do idioma. “Cantar em português na cara da Karen, sem ela entender nada do que digo, me dá muita satisfação”, comenta.


A faixa tem mixagem de Mario Caldato Jr. e coprodução de Maion com Renato Cortez, responsável pelo baixo. O arranjo reúne Gibi dos Santos na percussão, Fernando Trz no piano, teclados e arranjos, Peo Fiorin na bateria e Fernando Coelho na guitarra. O resultado incorpora elementos da malemolência do baião, em uma escolha que, segundo a artista, não partiu de uma decisão inteiramente premeditada.


"Karen" inaugura, ainda, uma nova etapa na trajetória de Monique Maion. Mais distante do arquétipo tradicional da cantora e sem o interesse em ocupar o lugar de diva ou pop star, a artista passa a se envolver diretamente em diferentes etapas da criação. A relação com os instrumentos ganha espaço, assim como a participação nas decisões executivas de sua carreira, antes delegadas a terceiros.



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