Inter Alia

Antes de Inter Alia começar, o público tem um momento para observar o espaço que, em breve, será comandado por artistas. O local não oferece nenhuma informação: não há objetos ou elementos que indiquem que uma peça está prestes a começar. Essa ausência é rompida quando Drica Moraes entra em cena. Com um jogo de luzes, o espetáculo ganha forma e conduz a plateia para dentro do julgamento, submetida desde os primeiros minutos a uma intensa carga psíquica.
Enquanto Jessica (Drica), uma juíza reconhecida pelo compromisso em tornar o sistema de justiça mais humano e acolhedor, apresenta as primeiras informações do espetáculo, o palco se transforma em um tribunal, com cadeiras e grades de madeira. Aos poucos, o mesmo espaço passa a representar também o lar em que a protagonista vive com o marido, o advogado Michael (Caco Ciocler), e o filho, Harry (Caio Cesar Passos).
O início de Inter Alia parece positivo: uma família unida que, entre dias bons e ruins, permanece próxima. Jessica se desgasta para equilibrar todas as demandas, enquanto o filho cresce e o marido prepara churrascos para os amigos. Essa aparente estabilidade, no entanto, é interrompida por um acontecimento inesperado, que a obriga a enfrentar dilemas capazes de colocar em xeque suas convicções sobre justiça, maternidade e ética.
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Sob direção de Rodrigo Portella, a narrativa de Suzie Miller alterna passado e presente, permitindo que protagonista e plateia enxerguem as diferentes camadas daquela família que, à primeira vista, parecia perfeita. É nesse movimento que surge o desgaste invisível de uma mulher que precisa (preste atenção ao verbo: ela precisa!) ser excelente no trabalho, no lar e na maternidade. Qualquer erro ou excesso pode se transformar em motivo para julgamento e culpa. É o que acontece quando Michael afirma que a esposa mudou depois de se tornar juíza. Essa é uma das diversas violências que atravessam Jessica ao longo dos 90 minutos.
A trama muda quando Harry é acusado de estupro. Enquanto a mãe, acostumada a lidar diariamente com as engrenagens da justiça, se preocupa com o filho, o pai procura brechas no depoimento da denunciante para responsabilizá-la pelo ocorrido. Jessica, então, mergulha em uma guerra interior: tenta compreender o comportamento de Harry, seus próprios erros, a influência masculina na formação do filho e, sobretudo, o significado de justiça. Como mãe, ela deve fazer o certo? Aliás, pode uma mãe que também é juíza conviver em paz com o conhecimento que tem sobre o funcionamento do sistema carcerário?
Drica Moraes traduz o desespero de Jessica em uma atuação espetacular. Caco Ciocler não fica atrás: o ator evidencia o ressentimento diante do sucesso da esposa e a apatia ao assumir determinadas responsabilidades pelo filho. Caio, por sua vez, sustenta a ambiguidade de uma juventude moldada por telas e comunidades virtuais.

Inter Alia não oferece respostas fáceis, mas amplia as perguntas sobre justiça, maternidade, masculinidade e responsabilidade. Ao levar o conflito do filho para dentro da casa de Jessica, a montagem expõe as contradições entre aquilo que defendemos no discurso e o que somos capazes de sustentar quando os afetos entram em jogo. Também evidencia o peso das expectativas impostas às mulheres, que precisam conciliar excelência profissional, maternidade e vida conjugal sem espaço para falhas.
Ao final, o julgamento deixa de estar restrito ao tribunal. A história da protagonista provoca a plateia a refletir sobre os limites da justiça e sobre as estruturas que atravessam as relações familiares. Quando as luzes se apagam, permanecem as perguntas - e nenhuma delas encontra uma resposta confortável.
Inter Alia no Teatro Vivo
Últimos dias: 02 a 04 de outubro
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