• Michele Costa

As diversas facetas de Gabriel García Márquez

"Rose Styron: Ele é um contador de histórias maravilhoso e fala que a avó foi a grande contadora de histórias da família, e que ele aprendeu com ela. Ele morou com a avó quando menino. E disse que a mãe se tornou uma contadora de histórias conforme envelhecia, mas que antes não era. Foi por ter morado com a avó. Também diz que saber contar histórias é algo congênito e hereditário. Ou seja, é natural que muitos de nós pensem que foram nossas avós que nos contaram histórias e nos transformaram nos contadores de histórias que somos."


Quando tinha 5 anos, Gabriel García Márquez foi viver com seus avós maternos. Durante a convivência, ouviu muitas histórias, carregadas de superstições e magias - duas características presentes em sua literatura -, que foram aperfeiçoadas e compartilhadas em suas obras.


"Jaime Abello Banfi: Gabo era um clarividente. É um clarividente, melhor dizendo. Naquela época ele era clarividente em termos da própria cultura. Ou seja, um homem do Caribe colombiano que em um de seus primeiros artigos já fala sobre os problemas da literatura colombiana. Incrível.

Falava sobre a música vallenato quando ninguém prestava atenção no vallenato. Falava sobre mil coisas.

O fato é que, em primeiro lugar, ele é um gênio. Não se engane. Ele tem a inteligência de um gênio. É superperceptivo. E também tem a capacidade de se antecipar a acontecimentos. Com um sexto sentido. Então, é um gênio acima de qualquer suspeita. Em segundo lugar, ele lia bastante desde muito cedo, tanto que eles tinham medo de que perdesse a cabeça quando era jovem, porque lia demais. E, em terceiro lugar, com todas aquelas viagens. Aquela família singular. Aquela condição de um tipo de classe intermediária. Alguém que teve acesso a muitas pessoas. Ou seja, em termos financeiros, eles eram pobres, mas com acesso a todos os tipos. Viagens por toda a região e as coisas com seu avô. Tudo isso é muito interessante. Tudo isso influenciou sua personalidade tão especial."


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O livro "Solidão e Companhia: a vida de Gabriel García Márquez contada por amigos, familiares e personagens de Cem Anos de Solidão" (Crítica, 2021) foi escrito pela jornalista Silvana Paternostro que nasceu em Barranquilla, cidade de onde saíram os personagens da principal obra de García Márquez. Desde criança ouviu histórias sobre o autor - verdadeiras ou inventadas -, fazendo com que ela iniciasse uma investigação sobre o escritor.


No prólogo do livro, Silvana explica o que a levou a escrever uma biografia diferente do escritor latino-americano. Através dos depoimentos, a jornalista dá continuidade a história oral, presente em Gabriel García Márquez: "(...) Propus que, em vez de entrevistar chefes de Estado, astros de cinema e os homens riquíssimos com quem ele se relacionava diariamente, eu viajaria para a Colômbia com o intuito de conversar com aqueles que o conheceram antes de se tornar o lendário escritor latino-americano. (...) A história oral, o nome formal desse gênero, permite que aqueles que estavam próximos a ele descrevam para nós, o homem que se tornou o escritor mais importante da América Latina."


O livro é dividido em duas partes: a primeira parte, intitulada como "A.C - Antes de Ciem años de soledad", reúne vozes daqueles momentos irreverentes e esperançosos nos quais um menino provinciano decidiu se tornar um escritor. Na segunda parte, "D.C - Depois de Ciem años de soledad", surge Gabriel García Márquez como um homem célebre. Acompanhamos versões sobre a dificuldade do escritor em escrever o seu grande romance, a transformação que passou após a fama e o dia em que o escritor peruano Mario Vargas Llosa lhe acertou um soco após suposto flerte com a sua mulher.


(Foto: Rodrigo Moya)


"José Salgar: Gabo adorava artigos sobre filmes e tinha escrito alguns no El Heraldo. Então veio para o El Espectador. O que ele gostava de fazer era escrever, e as notícias diárias e as resenhas de filmes se tornaram uma missão para ele. Então descobriu algo diferente. Dar opinião a respeito de algum assunto nas artes por meio de suas resenhas de filmes. Também escreveu resenhas de livros. Igualou-se a escritores muito famosos, como Eduardo Zalamea, Abelardo Forero Benavides, homens bastante ilustres, e naquela época aquelas notícias diárias tinham considerável importância e lhe permitiam fazer um pouco de literatura e escrever bem.

Eu sabia o que ele estava fazendo: eu havia lido suas histórias e achava que era um excelente escritor. A única coisa concreta, a impressão que sempre tive dele naquela época, era que ele entregava os melhores originais que eu já recebera.

Primeiro, imensamente organizado, muito dedicado ao trabalho, porque ele jogava no lixo aquilo de que não gostava e me entregava um original perfeito. Eu achava isso fantástico, mas ele deveria aplicá-lo à realidade do jornalismo… O fato é que ele tinha duas faces totalmente distintas. Uma era sua obsessão pela literatura. Estava descobrindo a literatura; descobriu-a com seus professores de literatura da escola secundária em Zipaquirá. Gabo se voltou para eles em suas memórias. Eram obcecados por literatura, e ele estava descobrindo Joyce, todos os grandes escritores. Então, à noite, pensava na literatura como ficção e como beleza na linguagem. Estava escrevendo contos."


"Carmelo Martínez: Ele ouve histórias e se apossa delas e as coloca em seus livros. Em Montería havia uma mulher chamada Natalia. A Coxa Natalia. Ela era manca, haviam cortado seus tornozelos; ela andava de muletas e, quando não tinha nada para comer, colocava pedras na panela, para que os vizinhos dissessem: "Natalia está comendo". Era o que ela dizia a meu pai; Natalia era amiga dele. A casa dela ficava perto do cemitério, uma pequena casa… Ela colocava a panela lá fora, despejava água e colocava as pedras. "Então, ninguém pensava que Natalia estava com fome." Você se lembra desse detalhe no livro sobre o coronel? A esposa dele ferve pedras para manter as aparências diante dos vizinhos."


"Rose Styron: Amo todas as coisas que ele diz sobre o amor, sobre estar possuído pelo amor. Perguntei-lhe sobre Do amor e outros demônios e ele disse que o amor é o demônio que nos possui, que o amor é um desastre pessoal sem o qual não podemos viver, que começa muito puramente, como tenho certeza de que ele vê o amor de seus pais ou o primeiro amor de sua vida. Mas, à medida que se fica mais velho, a sociedade meio que confunde isso, mas o amor ainda é a força motriz. (...)"


"Santiago Mutis: Acredito que as pessoas que deixaram a Colômbia não voltam porque não conseguem. Porque há uma expectativa tão grande que é como se elas não se encaixassem. Porque não é possível. Mas acho que a nostalgia de alguém que foi isolado de sua infância, bem, é desse jeito, é como não ter acesso. Como se o povo não permitisse que ele voltasse à antiga vida. Então eles se tornaram grandes. E então não se adaptavam mais a nenhum lugar."


No dia 17 de abril de 2014, Gabriel García Márquez nos deixava. Tinha 87 anos. Foi além do legado: com sua morte, a solidão tomou conta de seus fãs. Agora, oito anos depois, o sentimento negativo tornou-se em aprendizado.


"Carlitos González Romero: Tenho os bolsos cheios de borboletas, algumas delas de papel, borboletas amarelas que trouxeram da Colômbia. Agora, sim, já falaram os presidentes. Vamos acabar com a seriedade. Há alguns ventiladores elétricos que as farão voar."
"Katya González Ripoll: Olhe paara fora. Elas estão voando. Vamos para lá. Viva Gabo! Viva Gabo!"
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